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Afinal, rap também é poesia?

A inclusão do álbum 'Sobrevivendo no Inferno' como leitura obrigatória da Unicamp reacendeu o debate acerca da conexão entre música e literatura.

Vinte anos após o lançamento do álbum Sobrevivendo no Inferno, o grupo de rap Racionais MC’s assistiu na semana passada à inclusão de sua obra como leitura obrigatória para o vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos principais vestibulares da América Latina. É a primeira vez que uma obra de música é recomendada para o exame.

As 12 faixas do álbum se somam a outras duas obras de leitura obrigatória na categoria de poesia – A Teus Pés, da poetisa brasileira Ana Cristina César, e, nada mais nada menos do que sonetos de Luís de Camões, selecionados pela Unicamp.

Segundo a universidade, essas obras expressam “diferentes gêneros e extensões, de autores das literaturas brasileira e portuguesa” e “possuem relevância estética, cultural e pedagógica para a formação dos estudantes do ensino médio”.

As conexões entre música e literatura

A inclusão de Sobrevivendo no Inferno na lista de leituras obrigatórias reacende o debate da música vista sob a ótica da literatura – que ganhou destaque em 2016 quando o compositor e cantor norte-americano Bob Dylan foi premiado com o Nobel de Literatura.

Apesar da poesia e da música serem duas artes distintas, a convergência entre ambas torna-se uma constante no universo artístico – em uma linha tênue que muitas vezes parece deixar de existir.

Na ocasião, o músico de 75 anos se tornou o primeiro compositor a receber o prêmio máximo da área e provocou debates acerca da legitimidade que se há ao misturar duas linguagens tão distintas, como ele mesmo destacou em seu discurso de aceitação do Nobel:

“Canções são diferente de literatura. Elas são feitas para serem cantadas, não lidas. As palavras nas peças de Shakespeare são pensadas para serem interpretadas no palco. Assim como letras de músicas são pensadas para serem cantadas, não lidas em uma página. E eu espero que alguns de vocês tenham a oportunidade de ouvir essas letras do jeito que foram pensadas para serem ouvidas: em um show, em um disco ou seja lá como as pessoas escutam música hoje em dia. Eu volto, de novo, a Homero, que dizia, ‘Canta, ó Musa, e através de mim conta a história’” – Bob Dylan em trecho final do discurso de aceitação do Nobel.

Apesar da poesia e da música serem duas artes distintas, a convergência entre ambas torna-se uma constante no universo artístico – em uma linha tênue que muitas vezes parece deixar de existir.

Experimentar a amplitude da palavra, por sua vez, é um desafio que alguns artistas encaram tanto na música quanto na literatura, como fizeram Chico Buarque, Arnaldo Antunes e Karina Burh.

O cantor e escritor Chico Buarque, vencedor da 52º edição do Prêmio Jabuti de Melhor Livro do Ano na categoria ficção
O cantor e escritor Chico Buarque, vencedor da 52º edição do Prêmio Jabuti de Melhor Livro do Ano na categoria ficção. Imagem: Monica Zarattini.

Mas então, se essa realidade já é uma constante, por que houve tanto debate no caso dos Racionais? Bom, dessa vez parece que o buraco é mais embaixo.

Outras faixas brasileiras já foram cobradas em exames de acesso à universidades, como é o caso de Tropicália ou Elis & Tom, mas ao colocar um álbum de rap como uma obra de leitura obrigatória, a Unicamp eleva a produção periférica a outro patamar.

E esse é o ponto aqui, a origem periférica do gênero e o choque geral causado pela quebra de um estigma tão enraizado, que separa a academia da periferia.

Um gênero periférico

“É a periferia ocupando a academia”, assim foi a comemoração dos Racionais MC’s em seu perfil oficial do Instagram. De fato, o disco, que tem músicas como “Diário de um Detento” e “Capítulo 4, versículo 3”, faz referências diretas à violência, exclusão, falta de oportunidade e racismo sofridos pela juventude negra e periférica.

“60 por cento dos jovens de periferia sem antecedentes criminais
Já sofreram violência policial
A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras

Nas universidades brasileiras
Apenas 2 por cento dos alunos são negros
A cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente<
Em São Paulo” – Trecho inicial da música “Capítulo 3, versículo 4”.

Falar sobre a juventude negra periférica é um assunto espinhoso, não se pode negar, mas a Unicamp acertou em cheio nessa. Já estava mais do que na hora de abrir espaço e trazer a voz das minorias para falar sobre suas vivências.

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Heloise Auer

Heloise Auer é jornalista em formação pela Universidade Federal do Paraná e repórter na Revista Viver Curitiba. Fã confessa de calhamaços, contos de suspense e livros de astrofísica. Seu gosto literário é tão eclético quanto sua playlist da hora do banho.

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