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Antonio Candido e o trabalho do crítico na imprensa

O que o trabalho do intelectual paulista pode dizer sobre a crítica literária contemporânea e como ele influencia meu trabalho.

Em janeiro de 1943, Antonio Candido (1918 – 2017) publicou seu primeiro texto na Folha da Manhã, futura Folha de S. Paulo (leia aqui). Intitulado “Ouverture”, o texto estabelece a atmosfera dos futuros trabalhos do pensador. Em um exercício metacrítico, Candido expôs suas razões para acreditar que a crítica literária científica – imparcial e objetiva – é inatingível, mas que a valorização do seu extremo oposto, a crítica impressionista, também traz problemas graves.

Ao definir sua concepção sobre o exercício da crítica, Candido revelou que o ofício tem pilares tão subjetivos que colocam fatores éticos, técnicos e intelectuais em pé de igualdade. Como as análises e opiniões são veiculadas sob a sombra das convicções dos estudiosos, Antonio afirmou que um crítico renomado precisa ser visto não só como alguém “de boa compreensão”, mas também como alguém “de boa-fé”.

Podemos entender que o reconhecimento desse aspecto pessoal envolve não apenas as opiniões de gostos ou desgotos sobre livros, mas está presente em toda a etapa, como nas escolhas de quais livros são importantes para discussão ou quais repertórios e sensibilidades são estimulados durante a leitura. Esse traço do trabalho traz consigo vaidades que, se não forem evitadas, levam aos excessos da crítica impressionista. Como “uma aventura da personalidade”, essas análises subordinam as obras à personalidade do crítico, à exibição de sua imagem e ao enriquecimento pessoal.

Segundo Antonio Candido, essas situações aparecem em momentos históricos de valorização exacerbada das personalidades e do hedonismo literário. Nesse cenário, os leitores – incluindo o leitor profissional chamado de “crítico” – consomem apenas o raso das obras, colhendo aquilo que é sugerido na superfície e pode ser usado para o enriquecimento pessoal.

Nesse cenário, os leitores consomem apenas o raso das obras, colhendo aquilo que é sugerido na superfície e pode ser usado para o enriquecimento pessoal.

Do mesmo modo, conseguimos perceber as pulsões dessas ideias nos dias de hoje. Entre outras coisas, nossa época reviu cânones e interpretações consagradas, observou o enfraquecimento da crítica literária nos veículos tradicionais e seu subsequente fortalecimento em espaços independentes e, por último, discute até hoje as problemáticas da representatividade na literatura, como nos debates sobre questões de gênero. Por outro lado, nós também acompanhamos situações como, por exemplo, o inchaço das celebridades no mundo literário, a preocupação maior com as personalidades dos escritores do que com sua literatura e um boom nos livros escritos pelos digital influencers.

Segundo o crítico, tal situação só seria revertida quando os leitores sentissem a necessidade de se debruçar com mais ânsia sobre as obras, transpondo questões pessoais para atingir alguma compreensão. Esse momento de reflexão traria a consciência de que a leitura da obra não é etapa última do entendimento, mas é necessário um aprofundamento nas relações entre Obra e Sociedade. Para Candido, o crítico entra nessa etapa de interpretação da obra de acordo com o que ela oferece sobre o presente, o que pode ser dito à luz do momento. Segundo ele, o crítico busca aquilo “que representa a parte mais significativamente ligada ao espírito da sua época. Se também este esforço for excessivamente momentâneo, paciência. O crítico é, por excelência, o escritor que passa, que mais rapidamente envelhece; e a sua missão estará cumprida se puder ter contribuído para orientar os seus contemporâneos”.

Nos dias de hoje encontramos espaços que tentam preservar semelhante postura crítica em relação às obras literárias. As condições, entretanto, não são fáceis. Um ambiente avesso aos aprofundamentos e desenvolvimentos intelectuais pressiona a atividade de qualquer um que tente discutir conteúdos menos técnicos, pragmáticos.

Aproveitando esses espaços de resistência, me debruço sobre as interpretações da literatura e, sem negar as limitações do meu trabalho e de minhas concepções, inauguro minha colaboração com o site na intenção de compartilhar o processo de aperfeiçoamento de meu repertório e de entendimento dos novos espaços da crítica literária.

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Arthur Marchetto

Arthur Breccio Marchetto nasceu em São Paulo no ano de 1994. Formado em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e Mestrando pela mesma instituição, atualmente pesquisa as novas faces da crítica cultural literária. Além disso, mantém uma página de literatura chamada Estantário (medium.com/estantario) e colabora esporadicamente com o jornal Rascunho.

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