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Beleza e brutalidade nas sagas islandesas

Mesclando história, mitologia, prosa e poesia, sagas islandesas eternizam o sangue de um povo sobrevivente.

A leitura de textos de eras passadas, como a Odisseia, a Divina Comédia ou as tragédias de Sófocles e Eurípedes é uma forma de transcender os séculos e enxergar a universalidade da condição humana ao longo dos milênios de nossa existência no planeta. Frequentemente, os grandes clássicos da humanidade nos permitem vislumbrar os alicerces primordiais de nossa cultura – da história à filosofia, da arte à ciência, essas obras encarnam tudo o que somos, enquanto indivíduos e enquanto sociedade.

Infelizmente, as sagas islandesas – narrativas que mesclam prosa e poesia, fato e ficção, lendas e lembranças – ainda são pouco reconhecidas neste contexto do legado cultural mundial. A própria palavra “saga”, afinal, é o termo islandês literal para “história”, no sentido arcaico de “estória”: as sagas islandesas nada mais são, portanto, que a história de um povo – um povo destemido e sobrevivente, ao mesmo tempo brutal e sutilmente sensível, capaz de extrair beleza transcendental da frieza inorgânica de uma terra de rochas, fogo e gelo.

De autoria desconhecida, as sagas, assim como a Ilíada e a Odisseia, resultam de uma extensa tradição oral, e carregam tons de histórias narradas de pais para filhos, transmitidas em família como a própria linhagem sanguínea. Escritas em nórdico antigo, idioma predominante dos desbravadores vikings e seus territórios colonizados, as sagas islandesas (que somam mais de 40) trazem ao leitor contemporâneo uma imediata sensação de estranhamento. Não seguem, por exemplo, o fluxo narrativo da literatura ocidental moderna, e empregam amplamente artifícios não-fictícios diversos, como o detalhamento extenso das árvores genealógicas de seus protagonistas, descrições de expedições e batalhas históricas, e uma preocupação constante com a acuracidade geográfica, o clima e a batalha com outras forças da natureza.

Porém, é possível identificar nas sagas os primórdios do que hoje conhecemos como conto ou romance.

Porém, é possível identificar nas sagas os primórdios do que hoje conhecemos como conto ou romance: o foco em protagonistas memoráveis, cujas sinas e dilemas formam o cerne temático das tramas, e cujos conflitos sustentam a narrativa rumo ao clímax, muitas vezes brutal. Egill Skallagrímson, protagonista de uma das mais célebres sagas (Egils saga), é uma das figuras mais interessantes, um guerreiro de incomparável brutalidade e inesperada sensibilidade artística, dotado de grande proeza bélica e poética. Seus poemas declamados permeiam os relatos de seus atos sanguinários, tecendo um curioso contraste que dá tridimensionalidade a essa personagem sem paralelos na literatura mundial. Outro destaque é a Saga de Njáll, um conto de vingança e rivalidades familiares que perduraram por décadas, em que o fantástico e o físico se tornam indistinguíveis.

Além de servir como análise histórica e experiência literária, é possível também reconhecer nas sagas islandesas traços que influenciaram a própria maneira que viríamos a contar histórias ao longo dos séculos que sucederam seus relatos. Autores influenciados por elas incluem Halldór Laxness, laureado com o Nobel de Literatura, que encontrou nas sagas a essência de sua nação, lindamente explorada em romances como Gente Independente. Infelizmente, ainda são poucas as sagas traduzidas para o português, e os exemplares existentes de difícil aquisição – mas o esforço para encontrá-las é mais que válido.link para a página do facebook do portal de jornalismo cultural a escotilha

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Luciano Simão

Luciano Simão, jornalista formado pela PUCPR, é um entusiasta da literatura de ficção especulativa, das novas formas de narrativa em jogos eletrônicos e das histórias em quadrinhos não tradicionais. Além de escrever, passa seus dias lendo, cozinhando e evitando exercício físico.

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