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E se George R. R. Martin morrer?

Uma reflexão sobre sagas, spoilers, mortalidade e o mercado editorial.

Há um medo que todo fã de Game of Thrones, a aclamada série da HBO, compartilha: que seu personagem favorito – seja ele Jon Snow, Tyrion Lannister ou Daenerys Targaryen – tenha o mesmo fim súbito e brutal de Ned e Robb Stark antes que o seriado acabe. Este é um temor que os leitores da série original, As Crônicas de Gelo e Fogo, também possuem; contudo, os fãs da saga literária ainda enfrentam um anseio adicional: que o autor George R. R. Martin, hoje com 69 anos, faleça antes de concluir os últimos dois livros.

Não se trata, infelizmente, de um temor infundado. Afinal, os últimos livros publicados – O Festim dos Corvos A Dança dos Dragões – levaram cinco e seis anos respectivamente para serem lançados. Por sua vez, o próximo volume da saga, Os Ventos do Inverno, está em produção desde 2011 e não há data definida para sua publicação (segundo o próprio autor, ainda há muito trabalho pela frente, e o livro pode chegar às prateleiras apenas em 2019). Neste ritmo, não é exagero apostar que o sétimo e último livro, A Dream of Spring, será concluído com o autor próximo aos seus 80 anos – uma idade perigosamente avançada para um escritor tão detalhista, meticuloso e consistente quanto Martin.

Face aos constantes atrasos e declarações vagas a respeito do progresso nos últimos livros, não é à toa que os fãs deem cada vez mais atenção à pergunta: e se George R. R. Martin morrer?

Para os espectadores do seriado, o falecimento do autor já não impactaria o desenrolar da trama, uma vez que a série ultrapassou os livros e os produtores foram informados pelo autor dos principais detalhes necessários para concluir o enredo de forma (supostamente) satisfatória. Porém, a última temporada comprovou que essa visão televisiva, carregada de fan service plot twists previsíveis, não é necessariamente condizente com a abordagem original de Martin – o que torna a angústia dos fãs dos livros ainda maior, pois o desfecho do seriado por si só não seria o suficiente para satisfazê-los caso o autor jamais consiga terminar a obra. Nesse caso, a dúvida restaria para sempre: seria essa mesmo a conclusão que George R. R. Martin tinha em mente?

Face aos constantes atrasos e declarações vagas a respeito do progresso nos últimos livros, não é à toa que os fãs deem cada vez mais atenção à pergunta: e se George R. R. Martin morrer?

Não seria a primeira vez que um autor de uma longa série não vive para finalizá-la. Mas, no caso de As Crônicas de Gelo e Fogo, uma trama inacabada seria um destino particularmente cruel, especialmente para quem acompanha os livros desde 1996. Evidentemente, por se tratar de uma saga tão extensa, há um grande nível de investimento – financeiro e temporal – já empreendido por seus milhões de leitores; além disso, é a marca registrada da série sua imprevisibilidade, ou a quebra de clichês em uma trama repleta de surpresas, intrigas e conflitos crescentes.

Não é de se espantar, portanto, que o spoiler seja uma das palavras mais temidas para os leitores, uma vez que boa parte do entretenimento derivado da série está nas surpreendentes reviravoltas de enredo que Martin é especialista em escrever. Assim, igualmente compreensível é o anseio por um desfecho que esteja à altura de duas décadas de especulação, teorias e debates acerca dos mais diversos mistérios estabelecidos pelo autor nesses 21 anos desde o lançamento do primeiro volume da saga. São perguntas que precisam de respostas – e os leitores não aceitarão um vácuo para elas, quer o autor esteja vivo ou não.

Além disso, não se pode ignorar o aspecto financeiro: com milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, As Crônicas de Gelo e Fogo são uma verdadeira galinha dos ovos de ouro para as editoras detentoras de seus direitos. Embora o próprio Martin já tenha deixado explícito seu desejo de que ninguém mais escreva livros ambientados em seu universo, e muito menos que continuem a série em seu nome caso ele venha a falecer ou adoecer demais para escrevê-la, o autor reconhece que o mercado editorial pode ter outros planos para o seu legado:

“[…] a história já nos mostrou que esses direitos literários chegam eventualmente aos netos ou outros descendentes, ou pessoas que jamais conheceram o escritor e não se importam com seus desejos. Para eles, é apenas uma fonte de dinheiro. E é assim que surgem abominações, na minha opinião, como Scarlett, a sequência de E o Vento Levou.

Em conclusão, assim como a série televisiva permaneceria, é muito provável que a morte de George R. R. Martin não significaria o fim de As Crônicas de Gelo e Fogo. Há muito dinheiro envolvido, muitas expectativas e milhões de leitores em crise de abstinência para que isso ocorra. Infelizmente, caso uma fatalidade venha a acontecer, perdurará um desejo por uma “verdadeira” conclusão – um desejo que mesmo o seriado e um segundo escritor jamais serão capazes de satisfazer.

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Luciano Simão

Luciano Simão, jornalista formado pela PUCPR, é um entusiasta da literatura de ficção especulativa, das novas formas de narrativa em jogos eletrônicos e das histórias em quadrinhos não tradicionais. Além de escrever, passa seus dias lendo, cozinhando e evitando exercício físico.

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