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Literatura pelos olhos de vidro

Curitiba ganha nova editora, a Olho de Vidro, focada na combinação da excelência literária com produção gráfica de qualidade.

Não é de hoje que Curitiba é uma cidade literária. Nomes nascidos ou radicados na capital paranaense abundam as listas dos escritores mais importantes do país e, em alguns casos, até mesmo do globo. E, apesar das turbulências políticas e econômicas, Curitiba tem reinventado sua cena literária com novos festivais e editoras independentes. Nesse cenário que, à primeira vista, pode parecer pouco convidativo, os amigos Marcelo Del’Anhol e Moacir Karas criaram em 2017 a Edições Olho de Vidro, que lança seu primeiro livro, A Alma Secreta dos Passarinhos, de Paulo Venturelli e Elisabeth Teixeira, no próximo sábado (25).

Com um catálogo enxuto – estão programados mais quatro livros para este ano – e os esforços voltados à qualidade literária e gráfica, a editora, que tem seu nome inspirado no livro O Olho de Vidro do Meu Avô, Bartolomeu Campos de Queirós (1944 – 2012), busca encarar os desafios de um mercado cada vez mais competitivo e acirrado. Entretanto, Del’Anhol acredita que é possível que as casas editoriais não ligadas a grandes grupos também consigam seu espaço.

Os amigos Marcelo Del’Anhol e Moacir Karas criaram em 2017 a Edições Olho de Vidro, que lança seu primeiro livro no próximo sábado.

“Hoje existe um movimento, no Brasil e também lá fora, de valorização das editoras independentes. Temos um calendário intenso de eventos voltados para a divulgação e a comercialização de publicações de editoras com esse perfil. Muitas delas vendem dos livros diretamente pela internet alcançando leitores em todas as regiões. Algumas conquistaram prêmios importantes”, comenta o editor, que trabalhou por 12 anos em uma grande editora voltada à educação.

Segundo Marcelo, a chave para transformar a literatura em algo acessível está na função social da leitura e no olhar cuidadoso para com o leitor, indo além da divulgação e distribuição, consideradas por ele o calcanhar de Aquiles de qualquer editora. “Acredito que a literatura nos ajude a ver o mundo sob novas perspectivas, a vida com outros olhos. Ela amplia nossos horizontes, nos leva a compreender e a respeitar o que é diferente de nós”, explica Del’Anhol, que cita como exemplo o texto “A Função da Arte”, do escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940 – 2015).

Nobel

No segundo semestre está prevista a publicação de uma coletânea da autora chilena Gabriela Mistral (1889 – 1957), vencedora do Nobel de Literatura em 1945 e que atualmente não possui nenhuma obra em catálogo no Brasil. A ideia de disponibilizar um apanhado da produção poética de Mistral aconteceu durante uma viagem de Marcelo ao Chile.

“Eram férias, mas aproveitei a oportunidade para procurar autores e livros que pudessem ser traduzidos para o português. Depois, descobri que a autora doou os direitos de sua obra para a Ordem Franciscana do Chile, que nos concedeu a autorização para a publicação da coletânea”, diz. Parte do dinheiro arrecadado com as vendas do livro será destinado às obras sociais mantidas pela Ordem.

O dramaturgo e poeta alemão Bertold Brecht (1898 – 1956) também está programado para integrar o painel de lançamentos da editora. Se os tubarões fossem homens ganhará as livrarias em uma edição ilustrada. “Fiz contato com a editora do Brecht na Alemanha e apresentei a proposta, que foi bem recebida tanto pelo editor alemão quanto pelos herdeiros do autor”, afirma.

Provocação e desafio

Del’Anhol acredita que os livros não devem estar restritos às lições de moral. Na visão do editor, a literatura precisa emocionar, tirar o leitor do lugar comum, proporcionar desafios e fazê-lo pensar. “O que de melhor se pode fazer aos jovens leitores é dar a eles provocação e desafio. Parece óbvio: aprendemos o que não sabemos, crescemos quando nos deparamos com ideias diferentes das nossas, concordando ou até discordando delas”, completa.

Sob esse prisma, provocação não se dirige apenas aos leitores ainda em formação, mas também aos educadores e professores. O volume Temas Polêmicos na Literatura, organizado pela escritora e pesquisadora Nilma Lacerda, traz à tona temas que provocam debate entre pais e professores, como as religiões, a sexualidade, o mal e outros. Para o primeiro semestre, Marcelo e Moacir devem publicar ainda Rosa, de Odilon Moraes, que evoca o universo de Guimarães Rosa (1908 – 1967) e faz uma importante relação entre o texto literário e a imagem.

SERVIÇO | Lançamento de ‘A Alma Secreta dos Passarinhos’, de Paulo Venturelli
Onde: Arte e Letra (Al. Dom Pedro II, 44), Curitiba (PR)
Quando: sábado, 25 de março, às 15h

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Jonatan Silva

Jonatan Silva é formado em jornalismo pelas Faculdades ESEEI (2010) e especialista em marketing digital pela FAE (2013). É crítico literário e fez parte dos jornais Paraná Online e Tribuna do Paraná. Colabora de tempo em tempo com o periódico literário RelevO e com a revista Flaubert. É autor do livro "O Estado das coisas". Apaixonado por literatura, tem no cinema uma fonte de inspiração e carrega a música como companheira.

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