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2018: a hora e a vez de Hilda Hilst

A autora foi escolhida como homenageada da Flip do ano que vem.

Hilda Hilst (1930 – 2004) foi escolhida como autora homenageada na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2018. Como neste ano – que relembrou a vida e a obra de Lima Barreto –, a curadora Josélia Aguiar escolheu um nome que foi além do seu tempo e que, apesar da importância e imponência, não estava recebendo a atenção merecida. De certa maneira, a Flip ajuda a trazer à tona o debate sobre a produção literária e a representatividade do(a) escritor(a) em questão. No caso do autor de Triste fim de Policarpo Quaresma, seus livros ganharam reedições e a historiadora Lilia Moritz Schwarcz publicou a biografia definitiva de Lima Barreto.

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O ponto em comum entre o escritor carioca e Hilda Hilst é justamente o caráter controverso e subversivo de seus textos. Muito mais que poetisa, Hilda foi uma mulher dedicada à literatura em suas mais diferentes formatações: da prosa à poesia, do teatro à tradução – colocando à superfície a transgressão que não se esperava de uma mulher de família tradicional. Sempre avessa às conversões, foi uma das escritoras mais interessantes do século XX.

“Será uma Flip intimista, com muita poesia e teatro, um pouco de irreverência e debates sobre criação artística, a arte e a natureza, a literatura e a filosofia. A pesquisa de repertório será a mesma, ou seja, vamos manter a preocupação em ter autores e autoras plurais, do mesmo modo que na Flip 2017”, comentou a curadora. Em 2016, Ana Cristina César também foi destaque na Festa.

No centro de sua produção literária estava a busca pela essência do ser humano, fosse no sagrado, no sexo ou no humor.

É impossível ler os escritos eróticos de Hilst e não comparar com a imagem da senhora rodeada por cães na Casa do Sol, lugar que hoje abriga o instituto que leva seu nome. Tamanha envergadura verbal fez com que não recebesse em vida o reconhecimento que merecia. “Se Hilda fosse homem já a teriam saudado como um de nossos escritores mais criativos”, disse escritora e amiga Heloneida Studart ao jornal El País.

Ainda que não se importasse com o número limitado de leitores – costumava dizer que eles formavam uma espécie de sociedade secreta –, Hilda Hilst escrevia com fúria e devoção, driblando as barreiras editoriais e de gênero. Tal posicionamento sempre a colocou no centro de polêmicas. Para a autora, as mulheres mantêm retraídas e longe dos grandes debates públicos. “Eu tenho uma certa diferença com as mulheres, porque sinto que elas não são profundas. Eu tenho um preconceito mesmo em relação à mulher. Nunca conheci mulheres muito excepcionais como, por exemplo, Edith Stein”, afirma em uma entrevista em 1999 e disponível neste link.

No centro de sua produção literária estava a busca pela essência do ser humano, fosse no sagrado, no sexo ou no humor. Sua obra é profícua e heterogênea, capaz de dialogar profundamente com o tempo em que foi escrita sem perder a atualidade. Hilda Hilst tinha entre as suas influências nomes como Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke e Saint-John Perse, permitindo que formasse um painel vasto e muito intenso.

Para começar a ler Hilda Hilst

  • Da poesia: volume publicado neste ano pela Companhia das Letras e que reúne toda a obra poética de Hilst espalhada em 20 livros – confira aqui.
  • Contos D’Escárnio / Textos Grotescos: prosa satírica tipicamente hilstiana e publicada originalmente em 1990. Seu caráter transgressor abrande forma e conteúdo ao tratar de erotismo e passear pelos diversos gêneros literários – confira aqui.
  • A obscena Senhora D.: talvez seu livro mais conhecido, narra – com genialidade e perversão – a escolha de uma mulher de 60 anos de viver no vão de uma escada, peregrinando na busca por um novo sentido – confira aqui.

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Jonatan Silva

Jonatan Silva é formado em jornalismo pelas Faculdades ESEEI (2010) e especialista em marketing digital pela FAE (2013). É crítico literário e fez parte dos jornais Paraná Online e Tribuna do Paraná. Colabora de tempo em tempo com o periódico literário RelevO e com a revista Flaubert. É autor do livro "O Estado das coisas". Apaixonado por literatura, tem no cinema uma fonte de inspiração e carrega a música como companheira.

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