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leonard cohen
Cantor e escritor Leonard Cohen. Foto: Divulgação.

A morte de Leonard Cohen (1934 – 2016) em novembro pegou a todos de surpresa. O cantor, compositor, prosador e poeta canadense acabara de lançar o disco You Want it Darker, que acabou se revelando um verdadeiro e belo canto do cisne. Seu último livro publicado foi Book of longing, de 2006, no qual faz uma reflexão emocionante e crítica sobre sua carreira como músico e como poeta. E são justamente os poemas dessa obra que compõem, em grande parte, a coletânea A Mil Beijos de Profundidade (7Letras, 182 páginas), organizada pelo poeta e tradutor curitibano Fernando Koproski, responsável também pelo primeiro volume poético de Cohen, Atrás das Linhas Inimigas do Meu Amor – que chega agora à sua segunda edição.

Alguns dos poemas são bem conhecidos: “Chelsea Hotel #2”, “So long, Marianne”, “Hey, that’s no way to say goodbye”, “I’m your man”, “Hallelujah” e outros. Todos eles se transformaram em canções imortalizadas pelo próprio Cohen e por uma miríade de intérpretes – de Renato Russo à Lana del Rey. De versos conhecidos a poesias confessionais, Leonard se mostrou um artesão da palavra, capaz de esculpir versos por décadas. Uma anedota contada por Sylvie Simmons, sua biógrafa, relata um encontro entre Dylan e Cohen, por volta de 1985. O compositor norte-americano – trinta anos antes de seu Nobel – pergunta a Leonard quanto ele levou para escrever “Hallelujah”, que envergonhado responde apenas: “não demorou muito, apenas alguns anos”. Quatro anos, na verdade. O embaraço fazia sentido: Dylan revelara que havia precisado de 15 minutos no banco de um táxi para criar “I & I”.

De versos conhecidos a poesias confessionais, Leonard se mostrou um artesão da palavra, capaz de esculpir versos por décadas.

Todo esse rigor fica muito claro nas linhas esculpidas de “Vai livrinho” (“Go little book): “Vai livrinho/ E se esconda/ E tenha vergonha/ De sua irrelevância”. Ou no poema que dá título para o livro e ganhou sua versão musical no álbum Ten New Songs (2001), um mantra sobre a paixão e a devoção quase religiosa de Cohen pela mulher amada. Como Koproski explica na apresentação, A Mil Beijos de Profundidade reúne as muitas personas acompanharam Leonard por toda a sua vida: o monge zen budista, o conquistador born in a suit, o silencioso, o compositor e o diplomático. Ele transitou entre todas as formas possíveis, quebrou convenções, estabeleceu padrões e, acima de tudo, foi um grande devoto da beleza.

“Se isso parece com um poema/ também posso te avisar desde o início/ que não era pra ser./ Não quero transformar qualquer coisa em poesia”, adverte em “A Canção do corno”. Por ironia, ou não, Cohen foi um verdadeiro exímio fazedor, fazendo poesia do sublime e do banal – imortalizando sua relação com o divino e também sua paixão por mulheres avassaladoras. E tudo isso, com uma elegância que se tornaria uma espécie de epígrafe do autor.

Cinza

Pensar em Leonard Cohen é refletir sobre o valor do verso, sobre a potência da poesia e a importância do fazer poético. Dizia que a poesia era uma evidência da vida: “se tua vida alimenta o fogo, a poesia é só a cinza”. No entanto, essa mesma cinza é sagrada, como uma cremação, e é jogada ao mundo pelo poeta. É com o vento que ela ganha asas e alimenta, retroalimenta a vida, e se transformando na lenha que serve de combustível para o fogo.

Por isso, A Mil Beijos de Profundidade é tão importante, criando – mesmo que por uma coincidência macabra – um belíssimo tributo a um homem que viveu cada dia de sua vida pela e para a arte.

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