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Por que ler sci-fi em 2018

Não mais apenas "coisa de nerd", gênero se mostra cada vez mais reflexivo e relevante.

“Eu não esperava descobrir que estou vivendo no futuro, mas aqui estou”, diz a protagonista de um dos episódios da antologia britânica Black Mirror, diante de uma escultura flutuante composta por milhões de pequenas abelhas robóticas. Embora aplicada ao contexto distópico da série, a frase sintetiza algo que milhões de nós, filhos e netos da era digital, sentimos diariamente frente ao avanço implacável da tecnologia. O sucesso estrondoso da série – assim como a recente renascença do sci-fi no cinema, com belíssimos filmes como Blade Runner 2049Ex Machina A Chegada – não é ao acaso. Black Mirror, Philip K. Dick’s Electric Dreams e até mesmo Stranger Things Rick and Morty são exemplos claros de que a ficção científica continuará em alta em 2018 – ao menos nas telas do cinema e da TV.

O interesse pelo sci-fi na era da informação é, certamente, um reflexo do próprio desejo contemporâneo, obcecado pelo desenvolvimento tecnológico e suas consequências políticas, morais e socioeconômicas. Ainda, o estigma em torno do gênero, resumindo-o a “coisa de nerd”, já é algo do passado. Hoje, o sci-fi é definitivamente cool, e suas influências podem ser claramente constatadas na arte, na fotografia, na música ou mesmo na moda. Na literatura, novas editoras especializadas não medem esforços para trazer ao público brasileiro novas edições dos grandes clássicos do nicho, de Asimov a Heinlein, além de traduções inéditas de obras mais recentes, laureadas com os maiores prêmios da categoria (Hugo, Nebula, Locus e Arthur C. Clarke) – sanando, aos poucos, uma lacuna por novos títulos que há muito perdurava no cenário nacional.

O interesse pelo sci-fi na era da informação é, certamente, um reflexo do próprio desejo contemporâneo, obcecado pelo desenvolvimento tecnológico e suas consequências políticas, morais e socioeconômicas.

Este cenário de proliferação do sci-fi em todas as suas formas – da distopia tecnológica ao cyberpunk, das histórias de viagem no tempo à ópera espacial – representa a oportunidade perfeita para novos adeptos conhecerem de perto todas as possibilidades que esse gênero versátil, empolgante e reflexivo oferece para mudar a forma como enxergamos passado, presente e futuro – e nosso próprio lugar no universo. Além da arte, a ficção científica perpassa as mais diversas áreas do conhecimento, da bioengenharia à epistemologia, da teologia à física nuclear. Como tal, mais que apenas um gênero, o sci-fi é como uma abordagem, um método para reflexão, análise sociológica e introspecção.

Em tempos conturbados como estes que vivemos, permeados de turbulência política, intolerância religiosa e antirreligiosa, disputas tecnológicas e metamorfoses constantes na área da comunicação e em todos os níveis da esfera pública, a ficção científica tem a capacidade única de operar como um espelho do que há de mais obscuro em todos nós, assim como um alerta sobre aquilo que pode estar por vir.

Para que possamos antecipar o futuro (e quiçá impedirmos que potenciais desastres venham a acontecer), mergulhar nos múltiplos universos e realidades interligadas retratadas na ficção científica pode ser de grande valia. Mas, para isso, não basta absorver apenas as formas mais destiladas e popularizadas do gênero, como Black Mirror ou The Expanse. Para quem quer conhecer a essência do sci-fi, ler é essencial. Além de ser o berço da ficção científica como a conhecemos, a literatura é o meio mais plástico e o solo mais fértil para as mais filosóficas e complexas narrativas de ficção científica florescerem, atingindo seu máximo potencial.

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Luciano Simão

Luciano Simão, jornalista formado pela PUCPR, é um entusiasta da literatura de ficção especulativa, das novas formas de narrativa em jogos eletrônicos e das histórias em quadrinhos não tradicionais. Além de escrever, passa seus dias lendo, cozinhando e evitando exercício físico.

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