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Rebecca Solnit: rebeldia com causa

Pesquisadora e militante dos diretos humanos, Rebecca Solnit lançou há pouco no Brasil duas importantes obras sobre as questões do feminismo.

Rebecca Solnit é uma das mais interessantes pensadoras dos problemas contemporâneos. Seus trabalhos se debruçam sobre questões que vão da caminhada ao feminismo – tema que serve como fio condutor para seus livros mais recentes publicados no Brasil, A mãe de todas as perguntas e Os homens explicam tudo para mim.

Com mais de uma dezena de obras publicadas, Solnit é uma pesquisadora incansável e, ao tratar de feminismo e assuntos relacionados, se baseia em experiências próprias e fatos históricos. Para a autora, responsável por criar o termo mansplaining (que em tradução livre significa “explicação masculina”), as transformações sociais em prol dos diretos das mulheres e da discussão das questões de gênero estão sob responsabilidade das novas gerações. “É um movimento maravilhosamente transformador, conduzido em especial pelos jovens nas universidades, nas redes sociais, nas ruas, e tenho enorme admiração por essa nova geração franca e destemida de feministas e ativistas dos direitos humanos”, comenta na introdução de A mãe de todas as perguntas.

As reflexões promovidas por Solnit são fruto de vivências, infelizmente, cotidianas, como o caso do silêncio exigido das mulheres em um diálogo com um homem. O ensaio que dá título a Os homens explicam tudo para mim expõe a tentativa esmagadora de um sujeito explicar à escritora um tema sobre o qual ela própria escreveu um livro. O detalhe pitoresco: o homem em questão usa argumentos do texto de Solnit, porém, reproduzindo a resenha que leu em um suplemento literário.

Com irreverência e gravidade, Rebecca trata das grandes feridas que atingem as mulheres de nossos tempos, sem deixar de lado o resgate histórico da violência física e estrutural que sofrem em uma sociedade patriarcal. Nos ensaios “Elogio à ameaça” e “Avó aranha”, ambos de Os homens explicam tudo para mim, Solnit busca as raízes históricas da anulação da mulher, partindo da lei – que via esposa, e seus rendimentos, como propriedade do marido – e da falta de ausência das figuras femininas em muitas árvores genealógicas.

Solnit é ponderada, sem que essa autoconsciência tire sua militância ou invalide seus argumentos; ao contrário, ela não joga com a moeda da agressão, mas da construção percepção realidade – ainda que triste e sombria – do passado, do presente e, claro, do futuro.

“As mulheres foram silenciadas ao serem excluídas das arenas de poder nas quais as palavras importam: desde serem as juízas que decidem a lei até legisladoras que criam as leis. Não fomos o gênero dominante e nem mesmo, mais recentemente, um gênero com participação igualitária na economia, na mídia, na política, na educação”, comenta em entrevista ao jornal Nexo.

Em silêncio

Tão aviltante quanto a violência, avalia, é a abstenção masculina. Segundo Rebecca, ao calar-se, um homem está sendo conivente com a misoginia e a agressão. Nesse sentido, em “Feminismo: chegam os homens”, ensaio de A mãe de todas as perguntas, a escritora debate sobre o papel que figuras como Chris Kluwe e Aziz Ansari têm no combate à violência doméstica e ao feminicídio (termo tão atual que nem mesmo o corretor ortográfico do Office reconhece). “A chegada dos caras significa uma enorme mudança, que faz parte de um ano extraordinário para o feminismo, em que os termos da conversa mudaram e algumas leis fundamentais também”, afirma no texto. O ano é 2014.

Ser mulher, como disse em um artigo publicado no Guardian em 2017, é estar em uma prisão. “Às vezes eu sonho acordada em como seria estar fora dessa prisão, mas eu sei também que, de muitas maneiras, ser um homem também pode ser uma prisão”, desabafa. Solnit é ponderada, sem que essa autoconsciência tire sua militância ou invalide seus argumentos; ao contrário, ela não joga com a moeda da agressão, mas da construção percepção realidade – ainda que triste e sombria – do passado, do presente e, claro, do futuro.

A MÃE DE TODAS AS PERGUNTAS

Editora: Companhia das Letras;
Tradução: Denise Bottmann;
Tamanho: 164 págs.;
Lançamento: Agosto, 2017.

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OS HOMENS EXPLICAM TUDO PARA MIM

Editora: Cultrix;
Tradução: Isa Mara Lando;
Tamanho: 204 págs.;
Lançamento: Julho, 2017.

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Jonatan Silva

Jonatan Silva é formado em jornalismo pelas Faculdades ESEEI (2010) e especialista em marketing digital pela FAE (2013). É crítico literário e fez parte dos jornais Paraná Online e Tribuna do Paraná. Colabora de tempo em tempo com o periódico literário RelevO e com a revista Flaubert. É autor do livro "O Estado das coisas". Apaixonado por literatura, tem no cinema uma fonte de inspiração e carrega a música como companheira.

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