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Um guia para ler de tudo

De Shakespeare a Harry Potter, de Paulo Coelho a Cervantes: por que diversificar é crucial.

Infelizmente, é comum demais que discussões entre aficcionados por literatura acabem se tornando competições de hipsterismo, uma disputa entre quem conhece mais a literatura norueguesa do século XIX, quem sabe mais sobre a vida de Samuel Beckett ou quem leu as tragédias gregas mais vezes no idioma original. É claro, a dita “alta cultura” tem seu valor inegável, e o cânone da literatura ocidental precisa, sim, ser explorado pelos apaixonados pela arte da escrita. Porém, em um cenário global cada vez mais diverso, plural e criativo, limitar-se às “belles lettres” dos séculos passados é um verdadeiro exercício de auto-sabotagem cultural.

Afinal, é crucial para o leitor contemporâneo ler e conhecer de tudo: de Homero a J. R. R. Tolkien, de Saramago a John Grisham, toda leitura – por pior que seja a execução da obra – agrega e expande os horizontes daquilo que conhecemos como literatura. Por isso, preparamos este guia com quatro dicas para quem quer se tornar um leitor mais diversificado. Confira!

  1. Saia da sua zona de conforto

Todos temos nossos gêneros favoritos: enquanto muitos são obcecados pelo apelo sombrio da literatura de horror, outros preferem romances históricos, narrativas de mistério ou mesmo histórias eróticas à la 50 Tons. Não há nada de errado em ter preferências pessoais: o favoritismo existe porque encontramos nesses nichos vozes que se comunicam diretamente com o que há de mais íntimo em nós. Porém, sair da nossa zona de conforto pode ser um exercício enriquecedor, que nos auxilia a quebrar estereótipos e enriquece nosso repertório cultural. Não gosta de Nicholas Sparks, mas quer ler uma boa história de amor? Detesta Game of Thrones, mas gostaria de conhecer melhor outras sagas de fantasia épica? Há de tudo por aí: basta procurar.

2.Explore novas regiões

Explorar a literatura nacional é vital, mas também é importante conhecermos o que está sendo produzido no resto do mundo. É triste, mas, quando se trata do cenário internacional, nosso mercado editorial ainda tende a dar preferência à tradução de romances de língua inglesa, limitando as opções disponíveis. Isso não quer dizer que não há nas prateleiras, sebos ou livrarias online edições brasileiras ou portuguesas de verdadeiras joias da literatura mundial.

Mesmo que você não domine um idioma estrangeiro (o que é recomendável, pois abre múltiplos horizontes de leitura), é possível descobrir novos autores, gêneros e histórias muito distintas àquelas com que estamos habituados. Vale o esforço para encontrá-los.

De Homero a J. R. R. Tolkien, de Saramago a John Grisham, toda leitura – por pior que seja a execução da obra – agrega e expande os horizontes daquilo que conhecemos como literatura.

3. Aprecie a importância do ruim

Pode parecer ilógico, mas a leitura de um livro ruim – ou mesmo péssimo, daqueles que dão vontade de jogar na fogueira e pedir reembolso à livraria – pode ser tão enriquecedora quanto a análise de um clássico. Afinal, é preciso conhecer de perto o que torna uma narrativa pobre para melhor apreciar a técnica e criatividade minuciosa dos grandes escritores.

Personagens mal construídas, unidimensionais e caricatas auxiliam a evidenciar exatamente o que torna criações como Dom Quixote ou Memórias Póstumas de Brás Cubas tão interessantes e complexas. A importância do péssimo não deve ser subestimada!

4. Desligue o modo analítico

Apesar disso, também é legal desenvolver a habilidade de desligar esse “modo crítico”, mesmo que apenas por algumas horas. Ser capaz de se sentar ao lado da piscina, pôr os pés para cima e devorar um best-seller totalmente comercial pode ser libertador para quem está habituado apenas a leituras mais analíticas, que exigem mais da nossa energia e de nossas capacidades cognitivas.

Ler Dan Brown no feriado não torna ninguém um idiota, e tampouco impede que o indivíduo retorne à leitura de Virgílio quando estiver descansado. Por isso, lembre-se: quando estiver precisando de distrações, leia tudo o que der vontade. Você não perderá sua carteirinha de leitor “culto” por isso.

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Luciano Simão

Luciano Simão, jornalista formado pela PUCPR, é um entusiasta da literatura de ficção especulativa, das novas formas de narrativa em jogos eletrônicos e das histórias em quadrinhos não tradicionais. Além de escrever, passa seus dias lendo, cozinhando e evitando exercício físico.

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