Ponto e Vírgula

‘A cor púrpura’: uma história de luta

Ganhador do Pullitzer e do National Book Award, livro de Alice Walker ainda faz muito sentido nos dias de hoje.

Não faz muito tempo que soube que um dos filme de Steven Spielberg mais aclamados nos anos 80, estrelado por Whoopie Goldberg, Danny Glover e Oprah Winfrey, era inspirado em um livro. E em um livro tão tocante. A cor púrpura, de Alice Walker, traduzido por Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson para a José Olympio, trouxe muitas lembranças da minha infância. Provavelmente vi partes do filme, quando a televisão estava ligada e eu pude dar uma espiada, mas minhas lembranças dele são poucas, misturam-se com outros audiovisuais com a temática negra (como Raízes) e, depois da leitura, perderam-se totalmente nas imagens que Walker avivou na minha mente. Preciso rever o filme por vários motivos, um deles para verificar o quanto ele vai me emocionar como o livro fez.

Em tempo de e-mail, cartas

A cor púrpura é um romance epistolar que se passa nos anos 1930 e no qual lemos as cartas que Celie, começando aos 14 anos, escreve a Deus. Com toda a dificuldade de uma moça praticamente semianalfabeta, ela se esforça para mostrar ao Senhor as dificuldades por que passa, sem nunca pedir ajuda, clemência ou nada disso, mas para desabafar com o Todo-poderoso. Enxerga a vida com a tristeza que realmente ela representa para si: feia, desajeitada, constantemente estuprada pelo pai, que a engravida duas vezes e entrega os bebês para adoção, protegendo sua irmã mais nova e mais inteligente, Nettie, ela se esfalfa para levar sua vida da melhor maneira possível, cuidando da mãe doente que a odeia – e todos sabem porquê. Até que a mãe morre.

E para quem pensa que romances epistolares são parados, recomendo a leitura deste livro para repensar essa ideia.

Então, um homem, identificado sempre como “o Senhor”, faz uma proposta de casamento para Nettie, porém o pai das meninas não permite que ela se case, mas oferece Celie como opção junto com um dote: uma vaca. Como precisa de alguém para cuidar dele, da casa e dos filhos, pois sua mulher fora assassinada por um amante, o “Senhor” aceita o acordo e a leva. Depois de um tempo, Nettie acaba fugindo de casa e se refugia na casa de Celie, mas esse arranjo não dá certo por muito tempo, e Nettie vai embora, deixando Celie de coração partido, mas sempre, sempre subjugada por todos.

Esse é apenas o começo de uma história de muita dor e desafios por que passa nossa escrevinhadora. E para quem pensa que romances epistolares são parados, recomendo a leitura deste livro para repensar essa ideia.

O preconceito levado às últimas consequências

São poucos os brancos que figuram neste livro de Alice Walker, porém os problemas que o preconceito racial traz são muito claros dentro do livro. Todas as relações estabelecidas têm um filtro de séculos de opressão do povo negro, que se reflete muitas vezes no estilo de vida e nas decisões das personagens do livro. Porém, há também um tom de rebeldia que aparece principalmente na forma de Shug Avery, cantora que também foi amante do “Senhor” e acaba virando uma grande aliada de Celie.

Outra personagem que não só traz um tom de rebeldia negra mas também de liberdade feminina é Sophia, mulher de Harpo, enteado de Celie. É uma mulher grande, forte e independente, que não se submete a homem nenhum, e por isso também sofre na mão dos brancos por um incidente que é o resumo da opressão racial até os dias de hoje. Não há como passar ileso por essas reflexões.

Os erros e a dificuldade de tradução

Uma questão bastante delicada na tradução é como emular os erros que aparecem dentro de um livro, aqueles que diferenciam nos personagens classe social ou instrução, sendo que não temos, como os norte-americanos, um Black English, ou seja, uma espécie de dialeto usado pelos negros norte-americanos. E quando voltamos aos anos 1930, essa dificuldade cresce.

Sempre me lembro de Preciosa, livro da autora Sapphire, que virou filme com produção da Oprah Winfrey, que por acaso fez o papel de Nettie no filme de Spielberg. Nesse livro, também acompanhamos os escritos de Preciosa, uma moça semianalfabeta nos Estados Unidos dos anos 1990 que precisa continuar na escola para que sua mãe receba auxílio do governo. Assim, vemos uma evolução na escrita, mas que vem cheia de Black English e também de erros ortográficos, estruturais e outros. Isso traz uma dificuldade imensa para a tradução, um desafio como poucos.

Apesar de a edição da José Olympio ter uma tradução boa, senti falta de uma padronização dos erros cometidos por Celie em sua escrita. Claro, isso é um preciosismo que poucas pessoas vão perceber (já pensei no esnobe “Pernalonga de batom” neste momento), mas para mim seria um cuidado a mais na edição. Talvez pela quantidade de tradutoras envolvidas no livro ou mesmo pela dificuldade de um processo de edição de uma obra tão peculiar esse tema não tenha vindo à baila. De qualquer maneira, a experiência da leitura não é prejudicada por isso.

A luta pela vida: alguns trechos

A questão da luta é recorrente em A cor púrpura, seja ela física, moral ou espiritual. As brigas e a violência contra os negros e contra as mulheres não são algo raro no romance, nem na vida real, como bem sabemos. E as mulheres deste livro em geral são grandes lutadoras. E em diversos trechos do livro Celie escreve sobre essa luta pela sobrevivência. E também sobre ser mulher. Deixo vocês com alguns trechos que destaquei do livro, que tanto me deixou aflito, mas que também aqueceu meu coração inúmeras vezes. Uma leitura para a vida.

“Mas eu num sei como brigar. Tudo o queu sei fazer é cuntinuar viva.

Ela falou, Dona Celie, é melhor você falar baixo. Deus pode escutar você. Deixa ele escutar, eu falei. Se ele alguma vez escutasse uma pobre mulher negra o mundo seria um lugar bem diferente, eu posso garantir.

Toda minha vida eu tive que brigar. Eu tive que brigar com meu pai. Tive que brigar com meus irmão. Tive que brigar com meus primo e meus tio. Uma criança mulher num tá sigura numa família de homem. Mas eu nunca pensei que ia ter que brigar na minha própria casa.” (Cellie transcrevendo fala de Sofia)

A COR PÚRPURA | Alice Walker

Editora: José Olympio;
Tradução: Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson;
Tamanho: 336 págs.;
Lançamento: Janeiro, 2016 (12ª ed.).

Compre na Amazon

link para a página do facebook do portal de jornalismo cultural a escotilha

Tags

Petê Rissatti

Petê Rissatti nasceu no Dia Nacional do Livro, o que explica um pouco de sua carreira. Formado em Letras-Tradução Inglês-Português (Unibero), especialista em Tradução Alemão-Português (USP), atua como tradutor editorial, preparador de textos e leitor crítico, além de ministrar oficinas de tradução e criação literária. Já traduziu mais de 60 livros de ficção e não ficção dos mais variados gêneros e ama todos os livros que traduziu. Uns mais, outros menos. Escreve para o blog de tradução editorial Ponte de Letras e é editor-chefe da Metáfrase, revista da Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes (Abrates).

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

Close