Ponto e Vírgula

Chaplin em realidade e ficção

Trocando em Miúdos: A Última Dança de Chaplin, do italiano Fabio Stassi, mescla realidade com ficção para contar a história de Charles Chaplin, ícone do cinema mundial. Na obra, o ator se encontra com a morte e faz com ela uma aposta: viverá mais um ano a cada vez que a fizer rir.

Não é necessário ser expert em Charles Chaplin para já ter ouvido ou visto, minimamente, suas frases. Uma das mais “virais”, nesses tempos de internet, fala sobre a ordem inversa da vida. Chaplin propõe que comecemos ao contrário, morrendo primeiro, para que nos livremos de cara de um de nossos maiores medos, e sugere a rota da vida de forma reversa, até terminá-la em um orgasmo.

É de maneira similar, do fim ao início, que o escritor italiano Fabio Stassi abre as cortinas para o espetáculo de seu livro, A Última Dança de Chaplin, lançado no Brasil pela editora Intrínseca.

É Natal de 1971 quando a Morte visita Charles Chaplin em sua casa, na Suíça. Ele, vestido como seu personagem mais famoso, Carlitos, se atrapalha e leva ao riso sua antagonista. A reação surpreendente resulta em acordo que permeia o livro. Chaplin e a Morte combinam: ela voltaria para buscá-lo ao fim de cada ano, no Natal. Se ele a fizesse rir, ganharia o ano seguinte de vida. Quando não mais conseguisse levá-la à graça, seria, então, levado deste mundo.

A Última Dança de Chaplin
Chaplin eternizou a frase “Um dia sem sorrir é um dia desperdiçado”. Foto: Reprodução / Portal Neonkiss.

A partir daí, o livro é construído como uma carta escrita por Chaplin a seu filho mais novo, Christopher James, que nasceu quando o ator já tinha mais de 70 anos. Ele decidiu contar sua história por estar anualmente ameaçado pela Morte.

A linguagem da carta do pai ao filho é emocional. Nela, Chaplin destrincha sua vida, dá detalhes de personagens que encontrou ao longo de seus anos e de sua carreira, que Christopher jamais poderia conhecer pessoalmente. Restariam a ele as lembranças em vídeo, nos filmes. É uma honesta e delicada conversa entre pai e filho, açucarada e prazerosa.

O livro é construído como uma carta escrita por Chaplin a seu filho mais novo, Christopher James, que nasceu quando o ator já tinha mais de 70 anos.

A escrita da carta é alternada com os encontros entre Chaplin e a Morte. Stassi opta por alterar a linguagem. Utiliza o discurso direto, diálogo rápido do teatro, quando o protagonista e sua rival se encontram. A referência à sétima arte, aliás, é presente durante todo o livro, que, inclusive, tem suas páginas e capítulos agrupados em rolos: do primeiro ao sexto rolo, como um filme, de fato.

O vaivém do enredo é contagiante. A improvável ficção entre Chaplin e a Morte e os detalhes da real história da vida do ator, relatados em carta, se harmonizam de forma agradável.

O criativo enredo é obra de um bibliotecário da Universidade de Roma, nascido em 1962, considerado um dos autores mais talentosos da Itália. Fabio Stassi já publicou três romances premiados. Por A Última Dança de Chaplin recebeu diversas honrarias, entre elas, o consagrado Prêmio Selezione Campiello.

A Última Dança de Chaplin
Fabio Stassi, um bibliotecário italiano nascido em 1962, vencedor de prêmios da literatura. Foto: Divulgação.

A quem se interessar pela obra, vale a leitura. Aos que não conhecem a frase citada no início deste texto, vale a pena a regressão.

A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara pra faculdade. Você vai pro colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando… E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?” – Charles Chaplin.

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Marina Aranha

Marina Aranha é jornalista, formada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Puccamp), pós-graduada em Gestão da Comunicação em Mídias Digitais. Atualmente, vive em Ribeirão Preto (SP), onde é assessora de imprensa e gestora de redes sociais. Adora séries, filmes, música e a língua portuguesa. Apaixonada por livros, ainda tem a esperança de conseguir ler todos os exemplares que compra. Acredita que o fomento à cultura e políticas públicas educacionais podem transformar profundamente a sociedade.

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