Ponto e Vírgula

‘Contraponto’: uma grande festa onde você pode escolher o seu lugar

Conhecido por "Admirável Mundo Novo", "Contraponto" mostra Aldous Huxley com um olhar mais direto ao cotidiano.

Venha comigo, te apresento a alguns dessa grande festa! Pode soar mera banalidade, pois ninguém aqui faz algo de excepcional, mas a forma como todos se conhecem e se relacionam é um dos grandes trunfos de Contraponto, o mais longo e complexo romance de Aldous Huxley. Comecemos por um patife em particular.

“Tudo será incrível, se pudermos tirar a crosta de banalidade evidente que os nossos hábitos põem nas coisas.” (p.462)

O notável patife entra no táxi e vai atrás de sua noite perfeita, após uma briga fútil com a mulher que ele conseguiu engravidar por acidente. Mas se tivessem sido menos bestas, os jovens Walter Bidlake e Marjorie Carling nem estariam daquele jeito: ela em eterna coerção emocional para o segurar em casa, e ele inventando uma desculpa mais imbecil que a outra (trabalho à meia-noite?) para sair apenas por não suportar a mulher.

O importante é onde ele desembarcou do táxi: Tantamount House. É aquela mansão imponente, linda, glamurosa, quase ninguém se lembra do passado dela (cá entre nós, os Tantamount do passado enriquecerem de formas ilícitas, te conto mais ali no canto onde a música não nos alcança), mas e daí? Todos adoram as festas de Lucy. Ah, Lucy! Não é tão bonita, mas quem resiste ao charme dessa mulher? Ela não se importa com nada, o mundo para ela é um parque enorme de diversões onde ela compra seu limite de crédito – veja os homens, são seus brinquedos favoritos.

Ela se envolve em menos putaria do que parece, mas gosta de dominar. Ela é o extremo oposto do pai, o nobre Lord Edward. Cidadão pacato, ele ganha dinheiro enquanto a gente respira e nem se incomoda com isso. Uma vez ele expulsou, quase a pontapés, bancários responsáveis por administrar seus rendimentos, e eram boas notícias as deles, mas o Lord Edward é um sujeito estranho. E ele estuda até demais, o velho é cientista! Ele é tão velho quanto a ciência, o conhecimento dele assusta, e ele não tolera ser interrompido por nada. Mas o mundo aqui fora, isso daqui é algo tão, tão insignificante para ele…

O triunfo de Contraponto não é apenas retratar diversos personagens de forma constantemente irônica, mas seus acertos e erros nesta odisseia que é encarar a humanidade.

Mas não para o seu assistente, Frank Illidge. Sardento e com um rosto azedo de doer, venenoso, com um profundo ódio aos ricos e um orgulho ainda maior, é um cara que se leva a sério demais. Ele odeia as festas na casa do patrão, talvez por não ter nenhuma na própria casa. Complete as lacunas restantes dele com esnobismo. “Como vai a ciência?” o pergunta Walter Bidlake, ao encontrá-lo na festa noturna de Tantamount House. “Menos na moda que as artes, a julgar por esta festa. Esta noite tenho visto aqui a metade dos notáveis que aparecem na seção de literatura e pintura do Who’s Who. O ambiente fede a arte.” (p.85). Elegante, vamos para outro canto desta festa encontrar gente mais distinta.

Tá, esqueça a distinção. Vê aquele sacripanta ali à nossa frente, mais de cinquenta anos tatuados no rosto e ainda dispara gracejos às mulheres como se tivesse vinte? Cacete, o velho John Bidlake é insuportável. Ele tem talento, reconheço – fez quadros magníficos há um tempão e retratou mulheres como ninguém dessa cidade. Mas hoje, ah! É uma cópia ridícula de si mesmo, confunde franqueza com grosseria. Não me pergunte como a esposa, o filho e a filha o aguentam. Talvez o ignorem.

Outro canto, por favor… tem um grupo ali naquela mesa, um homem centraliza as atenções com sua retórica, vejamos quem é. Putz! Everard Webley não. Quer dizer, até dá para aguentá-lo, se você tiver álcool o bastante no sangue e ruminar uma afirmação com a cabeça. “Os homens de boa vontade, os homens que tinham interesses no país deviam unir-se para resistir às forças de destruição. […]. Os Ingleses Livres tinham se unido para resistir à ditadura dos néscios; estavam armados para proteger a individualidade contra o homem das massas, contra a turba; estavam lutando pelo reconhecimento da superioridade natural em todas as esferas.” (p.91).

Superioridade, ah não, podemos nos poupar dessa autoafirmação ridícula mascarada de política. Webley se posicionou claramente, mas é pena seu mérito se encerrar na defesa da individualidade; muitos de seus atos (ou seriam comandos?) igualam seu infante partido ao oponente criticado, e a uniformidade dos seus aliados (por vezes subalternos) é assustadora, parece um bloco uniforme repetindo gestos mecânicos.

Capítulo vai e vem no Contraponto, topamos com gente mais variada. Há unidade na narração, toda em terceira pessoa – a citação do parágrafo anterior é feita de forma onisciente como se lêssemos a mente do personagem, um traço bem claro e presente em grande parte da ficção de Aldous Huxley. É mais um acerto deste livro, pois há tantos personagens que narrações em primeira pessoa poderiam confundir e cansar. Em acompanhamento à multiplicidade de gentes, há os diversos retratos delas, e uso meu casal favorito desta trama para te contar disso: Rampion. O livro começa falando do jovem Bidlake e sua caça à Lucy Tantamount, e lá pelo oitavo capítulo eles estão fora da mansão, porque a dondoca queria chegar em um restaurante (depois da meia-noite…), e lá encontram o casal Rampion junto a outros nobres convivas.

E temos um capítulo-flashback exclusivo deles, localizado ao menos uma década antes da história corrente de Contraponto (lembrete: o livro foi publicado em 1928, potencialmente escrito entre 1925 e 27). Mark era estudante, filho de uma família materialmente pobre, e em uma de suas andanças conheceu Mary, uma guria filha de uma família rica que não esnobava o mundo, como Mark normalmente esperava desta classe. Ela não se importava com isso, e com nada, aliás. Foi pedida em casamento por um nobre fidalgo, recusou, disse ser impossível se casar com quem não estava lá. Parecia não ter a sede de patrimônio da família. Mark e Mary se conheceram ao acaso, trocaram algumas cartas, confidências, e tempo passa… e ele confessa a amar. E ela aceita.

“- Pensa bem – avisara ele antes do casamento – Vamos ser pobres. Verdadeiramente pobres; não pobres com mil libras por ano como os teus amigos pobres. […]

Mary limitou-se a rir.

– Pois quem há de achar isso desagradável serás tu, pelos menos enquanto eu não aprender a cozinhar…” (p.174)

A conversa do casal Rampion é desse nível, Mary reclama do marido e não o poupa de chamá-lo de velho puritano ridículo. E noutra discussão, perto de uma briga, os dois se xingam e caem na risada feito duas crianças. Conversa é uma abundância deste livro, e este casal não é exceção – há longas explicações de Mark em diálogos com outros personagens. Há uma boa dose de coerência nelas, embora seja difícil concordar com tudo – mantenha-se o ritmo contraponteado do livro.

Há outro personagem interessante nesta história, pois seu silêncio exterior equilibra o papo dos festeiros, filósofos provincianos, excêntricos e demais embusteiros: Phillip Quarles. Dono de um trato mais “reto” e muito afeito a suas tarefas, quase todas exigentes de generosos silêncio e solidão, torna-se escritor, não um best-seller, mas o suficiente para prover algum conforto à família. É como se ele não quisesse falar, tanto que sabemos mais dele pelas palavras de sua esposa, Elinor Bidlake, ou de seus cadernos de anotações ao invés dos diálogos onde está presente. Em um rápido flashback dentro do capítulo focado no casal Quarles, a mãe de Phillip comenta com Elinor:

“ – Eu quisera que Phillip tivesse ido à guerra. Não por motivos belicosos ou patrióticos.  […] Podia ter-lhe quebrado a concha, podia tê-lo libertado de sua própria prisão. Liberdade sob o ponto de vista emocional, porque o seu intelecto já é bastante livre.” (p.360)

E quem não está preso, consciente disso ou não? Se não ao dinheiro, ao emprego, à família, ou a um ideal (seja qual for). O triunfo de Contraponto não é apenas retratar diversos personagens de forma constantemente irônica (nem todos são sacanas em tempo integral), mas seus acertos e erros nesta odisseia que é encarar a humanidade. Muitos dos desfechos podem surpreender por não serem previsíveis, e os personagens podem te lembrar de alguém que você conhece, da mais rígida a mais flexível conduta.

Aldous Huxley é conhecido principalmente por Admirável Mundo Novo, publicado em 1932, uma utopia tão assustadora quanto bem construída, onde muitos aspectos são colocados à prova – do custo do progresso material à construção de uma sociedade, mecanização de multidões ao uso da evolução científica. As abordagens a ele, embora geralmente bem argumentadas (há uma fantástica no 9Gag comparando-o ao 1984 de George Orwell, com os temores de ambos postos lado a lado), tornaram-se muito previsíveis, desde o comodismo em analisar um livro de 1932 com os conhecimentos tecnológicos do século XXI até calcular o quanto Huxley “acertou” em seus receios, como se ele pudesse ter se orgulhado por ter previsto uma catástrofe e ela ter acontecido de fato.

Somado aos fatos do autor ter escrito para revistas do porte da Esquire, livros de ensaios sobre todas as formas de cultura (daquele tempo, ele viveu de 1894 a 1963), sido neto de cientista e outros fatores (além de ter feito uma utopia pessimista em plena reconstrução pós-Primeira Guerra), me arrisco com a hipótese: tanto se olhou para o lado excessivamente intelectual da produção de Huxley que Contraponto, um olhar mais direto ao cotidiano, foi jogado à sombra. Mas uma grande festa é assim mesmo, há os holofotes e os cantos com uma luz mais discreta e peculiar, sendo lembrada ou não. Temos o livro à nossa frente, e cabe a nós escolher um canto onde se sentar até o amanhecer.

CONTRAPONTO | Aldous Huxley

Editora: Biblioteca Azul;
Tradução: Érico Verissimo; Leonel Vallandro;
Quanto: R$ 42,23 (688 páginas);
Lançamento: 2014.

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Homo Literatus
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Walter Bach

Redator e coeditor do Homo Literatus, colaborador d' A Escotilha.

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