Ponto e Vírgula

‘Ender’s Game’ e o paradoxo de Orson Scott Card

'Ender's Game' e suas sequências são odes à diversidade no sci-fi – mas escritas por um autor fundamentalista e homofóbico.

Ender’s Game (horrivelmente traduzido no Brasil como O Jogo do Exterminador) é meu livro de sci-fi favorito, uma obra-prima da ficção científica dos anos 80 que trata, com sensibilidade e inteligência, de temas como a natureza da violência, o impulso inato da sobrevivência, a brutalidade da infância e a identificação com o outro. A obra narra a história do brilhante Ender Wiggin, levado a uma estação espacial com apenas seis anos de idade para treinar e eventualmente comandar as forças da Terra na última investida contra uma espécie alienígena invasora que já atacou o planeta duas vezes, com terríveis consequências.

Repleta de plot twists e um clímax imprevisível e emocionante, Ender’s Game rendeu ao autor, merecidamente, os maiores prêmios da ficção científica (Hugo e Nebula). A sequência, o igualmente brilhante Orador dos Mortos, recebeu as mesmas premiações do primeiro livro e fornece reflexões ainda mais complexas acerca da alteridade, da morte e da comunicação e empatia por todos os seres, mesmo por aqueles pertencentes a espécies absolutamente distintas de nós.

Ao mesmo tempo, o autor da obra, Orson Scott Card, é um fundamentalista mórmon e ferrenho opositor dos direitos LGBT em todas as suas formas, disparando declarações homofóbicas em ocasiões diversas e indo à mídia atacar decisões judiciais sobre a legalização do casamento de indivíduos do mesmo sexo. Em 2008, em uma entrevista publicada no periódico Deseret News, Card declarou: “Não importa quão intensas sejam as ligações de afeto e amizade em casais do mesmo sexo, não há ato dos tribunais ou do Congresso que possa tornar essas relações iguais àquelas entre um homem e uma mulher”.

Para aqueles que, como eu, leram Ender’s Game Orador dos Mortos sem conhecer esse lado sombrio do autor, o choque ao descobrir seus declarados preconceitos é imenso. Afinal, os livros são verdadeiras odes à diversidade, contando com personagens de diversos grupos étnicos, costumes e origens, tratados sempre com tridimensionalidade, complexidade e dignidade – em suma, como verdadeiros seres humanos, com seus próprios sonhos, desejos e histórias. Ainda, os livros seguintes da série vão além, e promovem até mesmo a tolerância entre espécies alienígenas, biologicamente incapazes de comunicar-se diretamente.

Para aqueles que, como eu, leram Ender’s Game e Orador dos Mortos sem conhecer esse lado sombrio do autor, o choque ao descobrir seus declarados preconceitos é imenso.

É simplesmente incompreensível, portanto, que um escritor cujas obras pregam a empatia por alienígenas insectoides que se comunicam por meio de hormônios não seja capaz de conceder a mínima dignidade a outros seres da mesma espécie simplesmente porque querem se casar com indivíduos do mesmo sexo. Nesses termos, o paradoxo de Orson Scott Card é tão gritante que beira o absurdo.

Ao contrário de escritores de outros séculos, Card é um autor contemporâneo e não pode se esconder das críticas atrás do escudo do anacronismo. Assim como ocorre no cinema com Woody Allen e Roman Polanski, o escritor acende debates no meio da ficção científica sobre a possibilidade (ou não) de separar autor e obra – ou seja, discute-se se seria possível extrair dos livros aprendizado e reflexões valorosas sobre diversidade e tolerância, mesmo sabendo que o próprio autor não concorda, em sua vida pessoal, com essas mesmas lições que suas obras (intencional ou acidentalmente) contêm.

Se isso é realmente possível, não sei. Posso dizer que Ender’s Game foi um dos livros que moldou meu pensamento na adolescência, tendo uma grande carga emocional e afetiva para mim. A excelência da narrativa é indiscutível, assim como sua originalidade no contexto do sci-fi da época. Apesar disso, é provável que a história lance a obra no mesmo abismo que seu autor merece: o esquecimento. E talvez seja para melhor.

ENDER’S GAME | Orson Scott Card

Editora: Devir;
Tradução: Carlos Angelo;
Tamanho: 384 págs.;
Lançamento: Janeiro, 2013 (Atual edição: 4ª).

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Luciano Simão

Luciano Simão, jornalista formado pela PUCPR, é um entusiasta da literatura de ficção especulativa, das novas formas de narrativa em jogos eletrônicos e das histórias em quadrinhos não tradicionais. Além de escrever, passa seus dias lendo, cozinhando e evitando exercício físico.

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