Ponto e Vírgula

‘Poema Sujo’ trouxe Gullar de volta ao Brasil

Poema épico de Ferreira Gullar é mais uma canção de exílio.

Catarse (do grego: katharsis) é o processo de depuração dos sentimentos, purificação ou purgação do espírito sensível. No teatro grego, o herói dramático precisa sofrer para purificar o espírito. Em psicanálise, é a libertação de um trauma. A gênese da mais famosa obra dos últimos 40 anos da poesia brasileira, o Poema Sujo, é catártica, segundo seu autor, Ferreira Gullar.

Gullar estava no exílio, em Buenos Aires, em 1975, quando escreveu o poema. Depois de passar anos morando em diversas cidades do mundo (Moscou, Santiago do Chile e Lima), viu ditaduras militares se instalarem nos países sul-americanos. Com o fracasso da utopia comunista no Brasil, depois de um tempo na Rússia, emigrou para o Chile e assistiu à queda de Salvador Allende. Mudou para a Argentina em 1974 e reviveu o pesadelo de ver os amigos ao redor serem presos ou fugir. Sabendo que os agentes da repressão brasileiros fechavam o cerco no país vizinho, decidiu escrever um poema que fosse um testemunho final.

Gullar antecipa a pátria destruída, memória devastada e iluminada apenas pelo facho das lembranças da cidade de infância.

Poema Sujo, escrito em cinco meses, em estado de transe vertiginoso, foi acalentado por anos. Tem como fio condutor a ideia de resgatar memórias de sua cidade natal, São Luís do Maranhão. As condições de penúria no exílio e a eminência de calar-se para sempre o forçaram a ultrapassar o tom memorialístico. O Poema Sujo dá voz ao desespero do poeta. Desespero que, paradoxalmente, engloba grande esperança, por situar-se na infância, como demonstra seu trecho mais conhecido, transformado na letra da canção “O trenzinho caipira”, a tocata da “Bachiana no. 2”, de Villa-lobos:

“Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra
Vai pela serra
Vai pelo mar
Cantando pela serra o luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar…”

A evocação da memória da infância em redemoinho é o ponto de partida para compor um poema em vários tons, com momentos de intensidade e de banalidade, como cita o poeta, construídos por fragmentos de lembranças “das pessoas às coisas, das plantas aos bichos, tudo, água, lama, noite estrelada, fome, esperma, sonho, humilhações, tudo era gora matéria poética”. Antítese entre o claro do presente e o turvo da infância, mais que resgate, é a recomposição do passado no presente.

A memória da infância é um registro infiel, sujo, recomposta por destroços: telhas encardidas, garfos e facas que se quebraram, e se perderam nas falhas do assoalho para conviver com baratas e ratos no quintal esquecidos entre os pés de erva cidreira. Desordem que é ordem “perfeitamente fora do rigor cronológico”, do labirinto do tempo interior. A casa perdida no tempo, com talheres enferrujados, facas cegas, cadeiras furadas, mesas gastas, armários obsoletos rastejam “pelos túneis das noites clandestinas” esperando “que o dia venha”. A infância é o único refúgio para quem perdeu tudo. O corpo, a única casa, o único território, a possibilidade de êxtase quando já não se pertence a lugar nenhum.

A identidade são-luisense se concretiza no corpo do poeta, o passado se esmiúça, como cita Alcides Villaça: o “sujo do poema refere-se tanto ao impuro quanto pela composição das diferenças, pelas águas revolvidas, pelo estilo que vai da mão solta no papel à cadência rigorosa de uma avaliação […] Mas sujo também porque participa de uma história não oficial, secreta, que soma a consciência abafada e o corpo prisioneiro de vontades caladas.” Sujo porque a vida é suja: toda matéria se perde, apodrece lentamente.

A canção de exílio dos anos de chumbo é “Sabiá”, de Chico Buarque e Tom Jobim, composta em 1968 para um festival. A canção traz referências claras ao “dia que virá”, dia em que os exilados retornariam à pátria. Gullar antecipa a pátria destruída, memória devastada e iluminada apenas pelo facho das lembranças da cidade de infância. Os objetos da casa primordial gastaram-se no tempo e por isso sua lembrança é de sujeira, ou algo que foi sujo.

O testemunho do poeta é mais uma canção do exílio, que se desvia do nacionalismo insuflado por Gonçalves Dias. A canção de Gullar é tanto mais comovente quanto busca negar qualquer resquício romântico ou panfletário. Em nenhum momento revela textualmente a dor pela perda dos amigos, o esfacelamento familiar e a melancolia da desterritorialização.

Depois de concluir o poema, Gullar o leu a Vinícius de Moraes, que levou uma gravação da leitura para o Brasil. Grupos se formavam para ouvir a voz do poeta exilado. O editor Ênio Silveira pediu cópia para publicá-lo. Com a publicação, amigos, jornalistas e escritores clamaram ao governo militar o fim do exílio de Gullar. O governo não atendeu. O poeta, porém, cansado, resolveu voltar por conta própria. Quando chegou, foi levado ao DOI-Codi e interrogado, acareado e ameaçado. Mas graças ao poema, pôde ficar no Brasil.

POEMA SUJO | Ferreira Gullar

Editora: Companhia das Letras;
Quanto: R$ 25,90 (120 págs.)
Lançamento: Julho, 2016 (atual edição).

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Marilia Kubota

Marilia Kubota nasceu em Paranaguá (PR) e mora em Curitiba desde 1989. É mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, com a dissertação As narrativas "japonesas" de Valêncio Xavier – O mistério da prostituta japonesa & Mimi-nashi-oichi. É jornalista formada pela Universidade Federal do Paraná e poeta. Publicou os livros de poesia Diário da vertigem (2016), micropolis (2014), Esperando as Bárbaras (2012) e Selva de Sentidos (2008) e organizou as antologias Blasfêmeas: Mulheres de Palavra (2016) e Retratos Japoneses no Brasil (2010), participando de 15 antologias de poesia e prosa.

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