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Norueguês Jo Nesbo apresentou o detetive Harry Hole em O Morcego
Jo Nesbo. Foto: Divulgação.

Após os sucessos de Boneco de Neve e O Leopardo, os livros de Jo Nesbo passaram a ganhar mais espaço nas livrarias. Muitas de suas obras já haviam sido lançadas aqui no Brasil, mas com o novo projeto gráfico da editora Record, com capas em preto, branco e vermelho, a produção de fôlego do escritor norueguês garantiu o seu lugar no coração dos fãs de literatura policial.

O lado bom é que o público passará a ter acesso aos livros ainda inéditos ou simplesmente esgotados por aqui, o lado ruim é a quebra da cronologia da história. Quem leu O Leopardo já conheceu um Harry Hole (o detetive que protagoniza a maioria dos livros de Jo Nesbo) maduro e cheio de traumas, então é até um pouco estranho ler O Morcego, lançado recentemente com tradução de Gustavo Mesquita, já que é neste livro que o famoso detetive dá as caras pela primeira vez.

O primeiro caso de Harry Hole é um pouco decepcionante, principalmente para quem já leu os livros posteriores e sabe muito bem do que Jo Nesbo é capaz, por outro lado, este livro serve para matar a curiosidade a respeito da origem do “herói”.

Na história, Hole é encaminhado pela polícia de Oslo para a Austrália, com o objetivo de investigar o assassinato de uma cidadã norueguesa. A trama rocambolesca envolve crimes sexuais, aborígenes, boxeadores, traficantes e policiais corruptos.

O primeiro caso de Harry Hole é um pouco decepcionante, principalmente para quem já leu os livros posteriores e sabe muito bem do que Jo Nesbo é capaz.

Se o caso em si não empolga muito, o mesmo não pode ser dito a respeito do desenvolvimento do personagem. Harry Hole não é apenas o estereótipo do detetive durão que bebe pra caralho, mas ao mesmo tempo é um gênio da dedução. O seu problema com a bebida não é um charme, ele é de fato um alcoólatra e esse é um elemento que o atormenta e define a sua personalidade. Neste livros temos acesso à primeira descrição de um dos seus porres e à primeira demonstração do seu poder de autodestruição.

Quando Jo Nesbo se aprofunda no inferno pessoal de Hole, atinge camadas mais densas que nem sempre estão presentes na literatura deste gênero. Em alguns momentos em que a carga dramática pesa muito mais do que as reviravoltas da história, percebemos o escritor norueguês tentando se aproximar de grandes autores como Dennis Lehane e James Ellroy.

A resolução do caso em O Morcego não importa muito ou pelo menos não desperta muita curiosidade, pois os personagens suspeitos são apresentados de forma um tanto superficial, muitos deles de forma gratuita, apenas para desviar a atenção do leitor.

O lado positivo da investigação é que diversos elementos culturais da Austrália são inseridos na narrativa de forma orgânica, sem aquela artificialidade de tentar criar um pano de fundo histórico que está ali só por bonito. As questões raciais e coloniais são importantes para o desenvolvimento da trama e é a partir delas que livro ganha mais complexidade.

Porém, o que realmente importa nesta história é saber, afinal, por que Harry Hole é tão atormentado pelo passado? Nos livros que se seguiram, sempre nos deparamos com um homem que parece carregar o peso do mundo, que tem dificuldades de lidar consigo mesmo, por aparentemente não sentir muito orgulho daquilo que já foi um dia ou mesmo daquilo que se tornou. O Morcego esclarece boa parte desse passado e quando isso acontece, o leitor é levado a nocaute.

O MORCEGO | Jo Nesbo

Editora: Record;
Tradução: Gustavo Mesquita;
Quanto: R$ 35,46 (160 páginas);
Lançamento: Setembro, 2016.

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