Ponto e Vírgula

‘Laços de Família’ ainda é uma experiência perturbadora

Contos de ‘Laços de Família', de Clarice Lispector, refletem conflitos familiares de âmbito universal.

Ler Clarice Lispector continua sendo uma experiência perturbadora. Um de seus livros considerados obra-prima pela crítica, Laços de Família (Rocco, 1998), publicado pela primeira vez nos anos 60, ainda resiste a várias releituras. Os contos discutem conflitos familiares e, apesar de circunstanciados no âmbito  da classe-média carioca, têm moldura universal.

Em Clarice, o insólito aponta para rupturas no cotidiano doméstico. Um cego mascando chicletes, a contemplação de um vaso de rosas, um jantar de aniversário, são eventos que desestabilizam a ordem de um sistema, tornando visível os conflitos da intimidade.

Em 9 dos 13 contos, as protagonistas são mulheres, em diferentes estágios da vida. Jovens, como as protagonistas anônimas de “Preciosidade” e “O mistério de São Cristóvão”, atravessando ritos de passagem, apropriando-se ou não de seus desejos. Mulheres casadas, como a portuguesa de “Embriaguez e devaneio de uma rapariga”, Ana, de  “Amor”, Laura, de “A imitação da rosa”, e Catarina, de “Laços de Família”. Mulheres que não se casaram, como Zilda, a filha que cuida da mãe de 89 anos, em “Feliz Aniversário”. As que frustraram-se com um relacionamento afetivo, como a personagem de “O búfalo”. Ou uma mulher grávida, mas sem parâmetros na sociedade burguesa ocidental: uma africana, em “A menor mulher do mundo”.

Ana e Laura são as que mais expressam o desconforto com os papéis de dona de casa e esposa. Ana, ao contemplar um cego mascando chicletes, e Laura, um vaso de rosas, são atiradas a uma outra possibilidade de existência.

Os contos discutem conflitos familiares e, apesar de circunstanciados no âmbito  da classe-média carioca, têm moldura universal.

Ana tem uma “vida perfeita”, que ela mesma escolheu. Esqueceu a “felicidade insuportável” da juventude para viver em harmonia no lar. “…também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha: com persistência, continuidade, alegria”.

Em estado de vertigem, depois do mal-estar causado pela visão do cego, Ana se perde e vai parar no Jardim Botânico, onde descobre uma natureza selvagem e sensual. Ela retorna a sua casa e a monotonia doméstica se reinstala.

Laura tenta se reacomodar à rotina do lar depois de um internamento num hospital psiquiátrico. A visão de um buquê de rosas a transtorna:

“Eram algumas rosas perfeitas, várias no mesmo talo. Em algum momento tinham trepado com extremado avidez umas sobre as outras mas depois, o jogo feito, haviam se imobilizado tranquilas. Eram algumas rosas perfeitas na sua miudez, não de todo desabrochadas, e o tom rosa era quase branco. Parecem até artificiais, disse em surpresa. Poderiam dar a impressão de brancas se estivessem totalmente abertas mas, com as pétalas centrais enrodilhadas em botão, a cor se concentrava e, como num lóbulo de orelha, sentia-se o rubor circular dentro delas. Como são lindas, pensou Laura, surpreendida.” (página 43)

Nos dois contos, a beleza é o símbolo de transgressão e impossibilidade. A explosão da natureza do Jardim Botânico é um vislumbre, e não pode ser transportada para a rotina de Ana. Laura, incapaz de romper frontalmente com o padrão de obediência e respeito ao marido, como fazia sua amiga Carlota, experiência uma ruptura psíquica.

Há mais um conto em que há uma relação do feminino com plantas, “Mistério em São Cristóvão”. Um família com pai, mãe, avó, três crianças e uma mocinha de dezenove anos experimentam um momento de abastança em suas vidas. Tal momento é abalado pela introdução momentânea de três mascarados no jardim da casa deles, em busca de jacintos para enfeitar suas fantasias. O encontro entre os três e a mocinha causam uma ruptura na paz familiar.

Seu livro mais conhecido é A hora da estrela, por ter sido adaptado para o cinema, dirigido por Suzana Amaral e produzido em 1985. Clarice nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia, em dezembro de 1920, e morreu no Rio de Janeiro, em 1977. Chegou ao Brasil com 2 anos, em Maceió, e mudou-se para o Recife, onde morou até os 14 anos. Estudou Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Seu livro de estreia foi Perto do Coração Selvagem, publicado em 1943 e duramente criticado por Alvaro Lins como uma “experiência incompleta”. O segundo romance é O lustre, de 1946, escrito na Itália, quando já estava casada com o diplomata Maury Gurgel Valente. Quando o casal se mudou para a Suíça, Clarice começou a escrever os contos de Laços de Família. Cidade Sitiada sai em 1949. Em 1953, já está nos Estados Unidos, onde tem dois filhos, Pedro e Paulo. Em 1959 ela se separa do marido e vai morar no Rio de Janeiro.

Em 1960, publica Laços de Família e, em 1961, A Maçã no Escuro. Seguem-se A paixão segundo G. H. (1964), A legião estrangeira (1964), Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969), Felicidade Clandestina (1971), Água viva (1973), Onde estivestes de noite (1974), A via crucis do corpo(1974), A hora da estrela (1977), O ovo e a galinha (1977), Um sopro de vida (1978) e A bela e a fera (1979).

LAÇOS DE FAMÍLIA | Clarice Lispector

Editora: Rocco;
Tamanho: 136 págs.;
Lançamento: Janeiro, 1998.

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Marilia Kubota

Marilia Kubota nasceu em Paranaguá (PR) e mora em Curitiba desde 1989. É mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, com a dissertação As narrativas "japonesas" de Valêncio Xavier – O mistério da prostituta japonesa & Mimi-nashi-oichi. É jornalista formada pela Universidade Federal do Paraná e poeta. Publicou os livros de poesia Diário da vertigem (2016), micropolis (2014), Esperando as Bárbaras (2012) e Selva de Sentidos (2008) e organizou as antologias Blasfêmeas: Mulheres de Palavra (2016) e Retratos Japoneses no Brasil (2010), participando de 15 antologias de poesia e prosa.

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