Ponto e Vírgula

‘O escolhido foi você’ e a coleção de solidões de Miranda July

Com gênero híbrido, segundo livro da artista Miranda July comove ao transportar o leitor para o universo particular de pessoas ordinárias.

É difícil categorizar a artista Miranda July a partir de sua produção. Suas obras são tão diversas quanto os seus talentos: ela dirige filmes, escreve romances, cria aplicativos, faz performances. Mas acho que é justo reconhecer algo que parece se repetir em todas as suas obras. Miranda é uma espécie de caçadora de solidões, alguém capaz de enxergar (e retratar em palavras e imagens) aquele sentimento incrustrado no coração de todos os homens, de se estar, bem lá no fundo, inevitavelmente sozinho em um universo particular. Creio que todos nós nos sentimos meio ridículos nesse nosso mundinho. Mas Miranda não: ela parece profundamente fascinada por enxergar a beleza e a dignidade dessa solidão que nos acompanha.

É essa a sensação que se tem ao ler livro O escolhido foi você (Companhia das Letras, 2013), o segundo de Miranda July. Também difícil de ser categorizado, a obra não é um romance, nem uma reportagem, mas um formato híbrido – mais próximo do jornalismo que da ficção. É, da mesma uma forma, um livro sobre um “entre”: ela o produziu como um modo de aproveitar melhor o tempo de procrastinação que a consumia durante a produção do filme The Future (2011). Nesse meio tempo entre a produção do roteiro e o financiamento do filme, Miranda resolveu se dedicar a uma de suas obsessões: a leitura de um jornal gratuito de anúncios chamado PennySaver que circulava em seu bairro. Semanalmente, ela fitava encantada as propostas de venda dos produtos mais variados publicadas no jornal – de casacos de couro a dez dólares a cartões feitos à mão; de um secador de cabelo velho a uma coleção de Ursinhos Carinhosos.

Resolve, assim, se aventurar em uma empreitada. Ela responderia aos anúncios e visitaria os anunciantes. Seu interesse não estava exatamente nos produtos, mas sim na possibilidade de conhecer a história por trás daqueles objetos e entrevistar os indivíduos que tentavam comercializá-los. O que leva alguém a vender, num jornalzinho de bairro, uma criação de girinos ou um álbum de fotos de pessoas que não conhece? Era esta a porta de entrada para que Miranda entrasse na casa de estranhos e conseguisse adentrar em suas solidões. A experiência, aliás, seria fundamental para a construção dos personagens de The Future.

O escolhido foi você é então composto de entrevistas e fotos com os vendedores do PennySaver, além de saborosos excertos de ensaios de Miranda July – sobre estas pessoas e sobre ela mesma. Os indivíduos com quem ela cruza são pessoas comuns, ordinárias, como quaisquer outras e como todos nós – mas que passam a ser banhadas pelo olhar genuinamente curioso de Miranda July, que se propõe a narrá-las, sem julgamento, sem fazer diagnósticos sociais ou morais, e sem empregar em direção a elas um tom incômodo de pena.

O escolhido foi você - Miranda July
Foto: Jackie Linton.

É como se adentrássemos na casa dessas pessoas e nos microuniversos que elas construíram para poder viver. Assim, o anúncio da jaqueta de couro esconde um homem de mais de sessenta anos que junta dinheiro para fazer uma cirurgia de mudança de sexo; os cartões personalizados revelam um idoso que pendura no meio da sala um balde no qual colou os nomes dos doze cachorros que criava com sua esposa, todos mortos num intervalo de 50 dias; os Ursinhos Carinhosos são da irmã de um imigrante cubano de 45 anos que faz colagens de fotos de pessoas aleatórias (organizadas em envelopes de papel pardo e categorizadas como “fotos de bebês”, “fotos de cadeia”, “fotos de belas garotas”) para poder imaginar vidas paralelas para si.

Mesclando delicadeza e humor, Miranda July nos oferece um livro leve, ainda que carregue o árduo peso da vida de muitas pessoas.

O grande trunfo da obra é que Miranda (tal como faz no seu terceiro livro e primeiro romance, intitulado O Primeiro Homem Mau) não se coloca em uma posição de distanciamento ou com um desprezo disfarçado de respeito em direção a estas pessoas. Ela os observa a partir de uma posição de igualdade, dividindo com o leitor as suas pequenezas, por mais que sejam um tanto ridículas. E é partir daí que se conecta quase instantaneamente com o leitor, ao compartilhar estas pequenas pérolas de pensamentos que acabam se perdendo na memória. É como se ela permanecesse conectada com essa lógica infantil que acaba adormecida em nossa mente, junto com a criança que um dia fomos.

Alguns exemplos destes comentários: em certo trecho, ela pontua que “no meu mundo paranoico, todo lojista acha que estou roubando, todo homem acha que sou prostituta ou lésbica, toda mulher acha que sou lésbica ou arrogante, e toda criança ou animal vê meu verdadeiro eu, e ele é mau”. Ou então, ao cruzar com um entrevistado que usa tornozeleira eletrônica, ela descreve sua obsessão por presidiários (manteve, na adolescência, uma amizade por correspondência com um preso chamado Franko durante três anos): “Havia ainda um pequeno pedaço de mim que desejava ser a única a acreditar nele, a que ele pouparia, porém, mais do que qualquer coisa, eu queria pegar a mão de mim mesma com dezesseis anos e a mão da minha futura filha, e sair correndo dali”. É difícil ler esses trechos e não encontrar consonância e empatia com Miranda, que parece resgatar as nossas próprias memórias esquecidas.

Mesclando delicadeza e humor, Miranda July nos oferece um livro leve, ainda que carregue o árduo peso da vida de muitas pessoas. Um livro que fere ao nos confrontar com nossa própria solidão e nossas próprias misérias, ainda que nos faça rir. Uma obra de uma artista de sensibilidade ímpar.

O ESCOLHIDO FOI VOCÊ | Miranda July

Editora: Companhia das Letras;
Tradução: Celina Portocarrero;
Tamanho: 224 págs.;
Lançamento: Fevereiro, 2013.

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Maura Martins

Maura Martins é jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e doutora em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo (USP). É professora e coordenadora dos cursos de Comunicação Social do Centro Universitário UniBrasil. Desde 2003, é pesquisadora das narrativas midiáticas, investigando especialmente assuntos ligados à televisão, ao telejornalismo e aos encontros do jornalismo com a literatura.

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