Ponto e Vírgula

O romance triplo de Yukio Mishima

Trocando em Miúdos: Em O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar, obra de Yukio Mishima, é possível identificar ao menos três histórias. Confira.

O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar, romance do japonês Yukio Mishima (1925-70), é uma história curta na aparência (155 páginas), onde cabem pelo menos três enredos. Um deles é contado em terceira pessoa pela ótica de Noboru Koruda, adolescente de treze anos que vive com sua mãe, Fusako. Parece que ele se dá bem com ela, pois são apenas os dois na casa – o pai dele faleceu há cinco anos -, apesar dele ser trancado dentro do próprio quarto toda noite quando vai dormir. Não é algo que cause brigas visíveis entre filho e mãe, mas Noboru se incomoda com isso.

Ele descobre uma falha na construção da casa, um espaço minúsculo entre o próprio quarto e o de sua mãe, se esconde nela e observa o que acontece naquele cômodo. No começo é apenas a mãe diante do espelho, mas logo Noboru percebe que ela tem uma visita: o marinheiro Ryuji Tsukazaki. A espionagem em si é quase inofensiva embora guarde um leve tom de novidade, e quando Noboru comenta disso com seus amigos, todos imbuídos de ideais tão perfeitos quanto arrogantes típicos da juventude, é quase como se falasse ter visto só um pássaro qualquer perto de casa.

Quase. Não tarda para o enredo mudar de perspectiva e revelar a versão Tsukazaki, mesmo tendo pouco além de histórias marítimas para dizer. Sua relação com a terra e o mar às vezes lembra aquela desenvolvida com as cidades, no sentido de partir de um lugar com o qual não se tem uma relação boa ou partir como um rito para uma nova parte da vida sem dramatizar o ato, apenas para conviver anos em outra porção do mundo e descobrir-se tão perdido ou amargo quanto se tivesse ficado onde cresceu.

Não tarda para o enredo mudar de perspectiva e revelar a versão Tsukazaki, mesmo tendo pouco além de histórias marítimas para dizer.

Não significa que seja ranzinza ou viva magoado, mas, devido às viagens entre terra e mar, é como se tudo que carrega consigo parecesse insondável, quando apenas falta uma ponte ou algo que o una de fato a qualquer lugar. Essa “falta” em Tsukazaki também pode ser percebida por sua vida, regular até demais. Uns trocados no banco, nenhuma reclamação no serviço, se dá bem com os demais da marinha, até aí tudo bem, porque nós também gostamos disso; mas este japonês do mar não demonstra paixão por nada, parece nunca ter se arriscado.

O terceiro ponto de vista “oficial” do romance é de Fusako Koruda, mãe de Noboru. Após ter enviuvado, ela passa a comandar uma loja de roupas na qual tem uma presença forte tanto pelo trato que concede às grandes compradoras, quanto por ter fincado o pé na loja. Ainda que o seu jeito de lidar seja muito formal e ela pareça tolerar clientes em vez de conversar, há sutilezas que passam a impressão de que ela tem um lugar próprio ali. Na casa raramente tem problemas, alguns mais dela devido à solidão do que com seu filho, e se percebe uma questão individual e até cultural de Fusako graças ao que o lar não tem – e o suficiente para explicar as questões ocidentais e orientais presentes ou não neste livro.

É a mãe que une as três histórias graças à relação que passa a ter com o marinheiro Tsukazaki e na qual tenta incluir o filho (com quem tem uma péssima surpresa), cujas falas indiferentes com o recém chegado são camuflagens para suas intenções. A intenção de Fusako pode ser evitar outra perda, pois ela já perdeu um marido e não gostaria de envelhecer sozinha nem de ver seu filho crescer órfão de pai; enquanto Tsukazaki e Noboru tem outras ideias, com tanto espaço para perdas e ausências quanto as de Fusako – e nós ganhamos um romance triplo criado por essas perdas e os esforços de as evitar.

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Homo Literatus
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Walter Bach

Redator e coeditor do Homo Literatus, colaborador d' A Escotilha.

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