Literatura

O caos incendiário de ‘Transmetropolitan’

Dotada de espírito irreverente e ácida consciência política, 'Transmetropolitan', HQ de Warren Ellis, torna-se cada vez mais atual.

Quando se trata de arte, seja cinema ou literatura, o tempo é uma força ambígua: enquanto o significado e a importância de certas obras apenas crescem com a passagem dos anos (ou mesmo séculos), outras acabam ultrapassadas e engolidas pelo esquecimento. Felizmente, Transmetropolitansérie de HQs co-criadas pelo roteirista Warren Ellis e o ilustrador Darick Robertson, originalmente publicadas de 1997 a 2002, é um exemplo do primeiro caso: uma história cuja mensagem se torna cada vez mais atual – especialmente em tempos de totalitarismo político como estes que vivemos hoje.

Ao longo das 60 edições de Transmetropolitan, Ellis e Robertson constróem um futuro caótico e brilhantemente vivo, apresentando uma sociedade sci-fi com uma peculiar mescla de elementos de cyberpunk, distopias políticas, bioengenharia e transumanismo, sexualidade, economia e muito mais. O meticuloso trabalho de ambientação é um dos pontos fortes da obra, que, como Sandman ou Watchmen, transcende as expectativas do que é possível no meio versátil e absolutamente hipnótico das histórias em quadrinhos. Graças à arte vibrante e grotesca de Robertson e ao roteiro inteligente e enérgico de Ellis, cada página parece ganhar vida, resultando em uma leitura veloz, explosiva e incendiária do início ao fim.

Boa parte do charme da série está na voz de seu protagonista, o ácido jornalista Spider Jerusalem, que retorna do exílio auto-imposto para a arquetípica metrópole chamada simplesmente de a Cidade com o objetivo de confrontar os impulsos totalitários da classe política dominante. Spider é uma espécie de Hunter S. Thompson elevado à décima potência, um escritor cujo estilo investigativo de jornalismo gonzo, beirando o criminoso, deixaria o autor de Medo e Delírio em Las Vegas de cabelos em pé; combina, também, o chauvinismo de autores como Bukowski com o hedonismo de personagens célebres como Dean Moriarty. Em suma, Spider é uma fusão de características negativas que, de forma surpreendente, resulta em um protagonista absolutamente carismático e intrigante, mesmo quando testemunhamos atos repugnantes e de evidente imoralidade.

Boa parte do charme da série está na voz de seu protagonista, o ácido jornalista Spider Jerusalem.

Os antagonistas, apresentados com características praticamente caricatas, fornecem o combustível ideal para a vingativa revolta de Spider em suas colunas, que passam a representar toda a indignação de uma população exausta da exploração pela inescrupulosa classe dominante. E é justamente neste conflito – entre os anseios gananciosos do poder público e aqueles que este supostamente representa – que está a perturbadora atualidade política dessa HQ.

Ler Transmetropolitan na era Trump, assim como na era Temer e uma possível futura era Bolsonaro (socorro!), é como adentrar uma casa de espelhos em um grotesco parque de diversões: no microcosmo doentio, sombrio e violento da Cidade, reconhecemos formas distorcidas de um crescente absolutismo político e cultural que parece cada vez mais forte – quiçá invencível. Neste cenário incerto, resta torcer que Transmetropolitan permaneça exatamente como é: apenas uma eletrizante obra de ficção.

TRANSMETROPOLITAN V.1 | Warren Ellis e Darick Roberston

Editora: Panini Comics;
Quanto: R$ 45,00 (6 primeiras edições);
Lançamento: Abril, 2010.

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Luciano Simão

Luciano Simão, jornalista formado pela PUCPR, é um entusiasta da literatura de ficção especulativa, das novas formas de narrativa em jogos eletrônicos e das histórias em quadrinhos não tradicionais. Além de escrever, passa seus dias lendo, cozinhando e evitando exercício físico.

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