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Aparelhos de mp3 foram febre nos anos 90
MP3 players foram sonho de consumo de toda uma geração. Foto: _Ardu / Reprodução.

Você deve ter lido por aí nos últimos dias: o mp3 está morto. No dia 12 de maio de 2017, depois de mais de duas décadas, o Fraunhofer Institut – instituição alemã responsável pela criação e desenvolvimento do mp3 – anunciou o encerramento do programa de licenças do formato, decretando assim sua “morte oficial”.

O mp3 marcou época. Ao longo desse tempo, ele conquistou o mundo e foi a principal ferramenta utilizada para a disseminação da música ao redor do globo. Foram anos de dominação digital, uma era em que o compartilhamento de arquivos nesse formato mudou o jogo da indústria musical drástica e definitivamente – pelo menos até aqui.

Um formato “natimorto”

Tecnicamente, o mp3 já está morto há, também, mais de duas décadas. É o que diz logo a primeira frase do (excelente) livro Como a Música Ficou Grátis, do jornalista Stephen Witt: “A morte do mp3 foi anunciada em uma sala de reunião em Erlangen, Alemanha, na primavera de 1995”. Ou seja: o mp3, formalmente, fracassou antes mesmo de ser lançado.

De 87 a 95, o clima era de incessante pesquisa e trabalho duro no Fraunhofer. Principais responsáveis pelo projeto, Bernhard Grill e Karl-Heinz Brandenburg se debruçaram incansavelmente no desenvolvimento do mp3, acreditando no potencial do formato. O objetivo era atingir um padrão de compressão alto com pouca (ou nenhuma) perda de qualidade sonora – em resumo, utilizar menos dados para entregar um som equivalente aos formatos estabelecidos, como o CD. E conseguiram: apesar da negação dos audiófilos, a ciência afirma que as frequências suprimidas pela tecnologia mp3 não são detectadas pelo ouvido humano.

O que aconteceu a partir daí foi um grande jogo de interesses. Apesar de superior em vários aspectos, o mp3 enfrentou uma forte concorrência nos concursos realizados pelo comitê de padronização de tecnologias Moving Picture Experts Group (MPEG), que definia o padrão a ser usado pela indústria. Logo de cara, no primeiro concurso, o Fraunhofer terminou “empatado” com um grupo chamado Musicam – mais poderoso e ligado a uma certa empresa holandesa chamada Philips. E aí o mp3 perdeu. E perdeu vários outros concursos semelhantes.

O sucesso na informalidade

Cansados de derrotas, os pesquisadores resolveram facilitar as coisas para o usuário e distribuíram dois softwares: um codificador de mp3 e um player para o formato. Foi como acender um estopim: os programas, somados ao crescimento da internet, geraram uma propagação enorme do mp3, que passou a ser o formato “oficial” da pirataria online. Não demorou para que vários desenvolvedores se interessassem pela tecnologia, aperfeiçoando os softwares para facilitar a utilização pelo usuário médio e adicionando funcionalidades. Foi assim que nasceu o popularíssimo player Winamp, por exemplo: graças à vontade que um desenvolvedor teve de melhorar a organização dos arquivos mp3 que possuía.

Imagem de tela do antigo player Winamp
“Winamp: It really whips the llama’s ass”, dizia o slogan. Foto: Reprodução.

Assim se estabeleceu a era de ouro do mp3. Se ele não foi o formato oficial utilizado pela indústria, com certeza foi a extensão definitiva do mercado informal. Com o crescimento de redes como o IRC e os sistemas de compartilhamentos peer-to-peer (através do qual os arquivos eram compartilhados diretamente entre os computadores dos usuários) como o torrent, o mp3 tornou-se onipresente na internet, do fim dos anos 90 até muito recentemente.

Winamp, Napster, Kazaa, eMule, AudioGalaxy, LimeWire e Bit Torrent, entre outros, foram os softwares que definiram uma geração que se acostumou a não mais pagar por música. A lógica dos jovens entusiastas era uma bastante óbvia: por que alguém pagaria por algo que existe gratuitamente? E dá-lhe comunidades gigantes dedicadas ao compartilhamento de arquivos de áudio, que disponibilizavam discografias inteiras, gratuitas, à distância de alguns cliques, numa quantidade jamais imaginada – que atire a primeira pedra aquele que nunca baixou um disco na Discografias, do finado Orkut.

Winamp, Napster, Kazaa, eMule, AudioGalaxy, LimeWire e Bit Torrent, entre outros, foram os softwares que definiram uma geração que se acostumou a não mais pagar por música.

E dá-lhe também vazamentos de álbuns antes do lançamento, que atrapalhavam as vendas e os trabalhos de marketing das gravadoras. Foi a era da pirataria musical e, paralelamente, a era da guerra contra ela – mexer com um mercado grande e consolidado significa mexer com o bolso de muitos executivos importantes. Mas apesar de brigas judiciais como a da RIAA (Associação da Indústria Fonográfica dos EUA) e os usuários, ou o histórico embate entre Metallica e Napster, foi impossível frear a nova tendência – e a indústria fonográfica até hoje vem tentando lidar com isso.

E agora?

Estudos afirmam que a popularização dos serviços de streaming como o Spotify e o Deezer está diminuindo a pirataria. Para alguns especialistas, inclusive, a tendência é de que o hábito de baixar música (legal ou ilegalmente) desapareça antes mesmo do CD. Enquanto isso, o Fraunhofer dedica as atenções ao formato .aac, tecnologia mais eficiente do que o mp3 e também desenvolvida pelo instituto.

Mas o fato é que a “morte do mp3” é meramente simbólica: é apenas o fim da licença que a instituição criadora possuía e, na prática, nada muda com o formato. Se você veio da era de ouro do mp3 e quer continuar usando, pode ficar tranquilo: os softwares de busca, download, codificação e reprodução continuarão funcionando – ao menos enquanto houver gente interessada.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Bom texto, carcão.
    A pergunta da Líbia me remete a duas situações: uma delas a do Metallica, que se queimou muito com a história toda perdendo inclusive fãs. A outra de nosso sábio ancião, Gilberto Gil, que sempre se declarou abertamente em favor destas modernidades.
    Os músicos podem sempre viver dos shows que fazem. Mas as gravadoras não… (já este encarecimento extremo dos shows que temos observado em nosso país é um tema para ser discutido em outra conversa)

  2. Adorei Rômulo.. não sabia da história do MP3…muito bom!! Rebeldia digital contra os poderosos..ainda bem q as redes possibilitaram isto. A pergunta é como ficam os autores e intérpretes nesta guerra… absss

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