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A oficina de bateria da Hi Hat Girls

As oficinas de bateria da Hi Hat Girls vem conquistando cada vez mais espaço Brasil afora, tendo como missão formar mais mulheres bateristas.

Há cerca de duas semanas atrás, incentivada por uma amiga, consegui uma vaga na concorrida oficina (gratuita!) de bateria para garotas. Amplamente divulgada nas redes sociais, a Hi Hat Girls começou em novembro e já se espalhou Brasil afora. Me inscrevi e fui selecionada por meio de um formulário simples, que perguntava coisas como idade e experiência prévia com o instrumento (que, preciso confessar, se resumia às partidas de RockBand e às bandas falidas das quais fiz parte na adolescência). Algumas horas depois, recebi um e-mail dizendo que havia sido selecionada para a oficina especial do dia 13 de julho, dia conhecido nesse hemisfério como dia mundial do Rock.

Cheguei, ansiosa e pontual, e já dei de cara com algumas colegas de oficina que estavam mais ansiosas do que eu. Fomos encaminhadas à sala onde seria a oficina por uma das funcionárias do Centro de Música Carioca Artur da Távola. Ao chegar, fomos recebidas por Julie Sousa, a baterista que iria dar a oficina, e a fotógrafa voluntária Rosana.

Antes de começar a aula, Julie contou a história da Hi Hat Girls, que começou como uma revista cujo enfoque eram mulheres bateristas, até que ela e as outras bateristas que faziam parte da iniciativa perceberam que esse instrumento em particular não era popular entre as brasileiras, o que ocasionou uma escassez de conteúdo. Daí surgiu o desejo de organizar as oficinas, que são gratuitas, voltadas para mulheres dos 10 aos 100, não apenas para divulgar o instrumento em si, mas também para demolir estereótipos.

Visto como instrumento masculino e associado à força física, a bateria não é a primeira escolha da maioria das mulheres que decide aprender a tocar algo. Em novembro de 2016, a primeira oficina de bateria para mulheres teve lugar no Rio de Janeiro, mais exatamente no Motim, e desde então não apenas a frequência dos encontros aumentou, como se expandiu para outros estados. Ainda em julho, Belo Horizonte receberá sua primeira oficina, São Paulo já recebeu mais de uma e o Rio de Janeiro ainda terá mais uma antes do fim do mês.

A quantidade de mulheres e meninas que passaram pelas oficinas da Hi Hat Girls não pode sequer ser medida pela popularidade alcançada nas redes sociais. Os registros, sempre feitos por uma fotógrafa voluntária, dão uma ideia ainda modesta do que se tornou a iniciativa. Julie ainda acrescentou, na fala que abriu a oficina, que, para além do estereótipo do instrumento, a expectativa em torno das mulheres que eventualmente o escolhem também envolve uma masculinização da figura, como se a única maneira possível para uma mulher tocar bateria fosse ser fisicamente parecida com um homem.

Hi Hat Girls: uma iniciativa que está conseguindo mudar a relação das mulheres com um instrumento musical em particular.

Depois disso, teve início a aula em si. Cada aluna ganhou um pad para praticar e um par de baquetas, e Julie nos ensinou a maneira correta de segurar e como bater, enfatizando que não é necessário força ou sequer esforço. Os sorrisos foram lentamente se espalhando pela sala, apesar de tanto eu quanto minhas colegas estarmos absolutamente empenhadas em reproduzir o que nossa professora mostrava. Assim, após uma série de explicações e dúvidas, Julie perguntou quem seria a primeira voluntária para sentar na bateria e reproduzir o que havia sido ensinado no instrumento.

Trocamos olhares ansiosos e a primeira voluntária foi a filha de uma colega de turma, nossa integrante mais jovem, que tinha apenas três anos. Nada poderia ter sido melhor para quebrar o gelo e espantar a vergonha, e o que veio a seguir foi uma tarde de risos, apoio e companheirismo. Após ter mostrado que a batida 4×4 que havia nos ensinado era a base de muitos hits conhecidos, como “Highway to hell”, do AC/DC, e “Billie Jean”, do Michael Jackson, Julie colocou a música na caixa de som e fez com que cada uma de nós acompanhasse a melodia no instrumento. Algumas se sentiram mais à vontade, outras menos, mas posso afirmar que ninguém se sentiu intimidada ou envergonhada. Todas tocamos e pudemos ter uma (breve) ideia do que significa tocar bateria, como sentar, qual a postura certa e qual a intensidade com que se deve bater para de fato obter som.

Éramos vinte mulheres, com idades que iam dos 3 anos de idade aos quase 50, e todas saímos de lá com um sorriso no rosto, vibrando, muitas inclusive determinadas a procurar aulas e de fato enveredar pelo aprendizado da bateria. Ao final, ainda consegui conversar um pouco mais com Julie e Rosana, que além de simpáticas foram extremamente atenciosas.

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Julie, com 32 anos, toca bateria há mais de 10 e chegou a fazer parte da única banda de doom metal feminina da América Latina, Mortarium, e é a baterista de rock e heavy metal do grupo. Na iniciativa Hi Hat Girls, cada uma das bateristas é focada em um determinado estilo musical, como jazz, pop e assim sucessivamente. Rosana acompanha a amiga registrando as oficinas e me contou que fez seu TCC de fotografia sobre mulheres no rock. Suas numerosas fotos constituem um inventário do que vem se tornando a Hi Hat Girls, uma iniciativa que está conseguindo mudar a relação das mulheres com um instrumento musical em particular. Mais do que uma iniciativa, o trabalho delas é uma semente plantada num contexto social em que cada vez mais as mulheres vêm conquistando espaço e protagonismo.

Conheça mais sobre o Hi Hat Girls na página oficial do projeto no Facebook.

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Raphaella Lira

Raphaella Lira nasceu em Niterói (1984). Formada em Letras pela UFRJ, onde também cursou o mestrado e o doutorado em Literatura Comparada. Professora de português e literatura, viciada em música, leitora compulsiva e sommelier de filmes ruins, nunca teve disciplina para manter um blog, mas nunca deixou de escrever.

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