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Armada: velhos piratas do punk navegam por novos mares

Henrike Baliú, vocalista da Armada, fala sobre a nova banda e o primeiro disco, ‘Bandeira Negra’.

“Somos a alcateia invadindo o covil do leão”. As primeiras palavras entoadas no debut Bandeira Negra ilustram bem a que veio a banda Armada. O título desta música, “Semper adversus”, traz em seu bojo a essência de um grupo de garotos paulistanos que, em 1993, ao começar a tocar juntos, ainda não imaginava que tornaria-se um dos mais importantes representantes do punk rock de sua geração; estamos falando dos Blind Pigs. Quatro dos cinco músicos da última formação dos Porcos Cegos estão na Armada; mas não se enganem, esta é uma nova banda com integrantes mais calejados, mais maduros, que acima de tudo se permitem experimentar e navegar por águas distintas.

A temática pirata presente desde o nome da banda, título e capa do álbum, letras e sonoridade não resume totalmente a nova empreitada dos ex-Blind Pigs. Ela é apenas mais um dos diversos elementos (talvez o principal, mas de forma alguma exclusivo) que tornaram Bandeira Negra um dos mais interessantes registros deste ano até então.

Conversei com Henrike Baliú, vocalista do grupo, sempre solícito, que conta que o nascimento da Armada foi um processo natural após o conturbado término dos Blind Pigs. “O Mauro (baixista) já tinha uma música pronta, a ótima ‘Eterno Marujo’, e resolvemos então seguir em frente, mas com outro nome, e desbravar novos mares em relação às composições. Chamamos o Ricardo Galano, guitarrista do Não Há Mais Volta, e a tripulação estava completa, com quatro ex-Porcos Cegos e nosso novo marujo”.

A ótima repercussão entre crítica e fãs demonstra que os tempos de Blind Pigs e percalços e turbulências que afetaram a banda foram necessários para que a Armada já chegasse pronta.

Sobre a nova proposta, Henrike explica que queria um nome que funcionasse em Português, Espanhol e em Inglês. “Armada encaixou como uma luva. Queria também incluir esse lance do tema marítimo, dessa vez voltado para a pirataria, para a solidão do mar, mas a Armada é muito mais que isso, como você pode ver escutando o álbum. Como disse a revista Rolling Stone na resenha do álbum Bandeira Negra: Além do Punk”, conta.

Henrike ainda relata que a receptividade dos fãs foi a melhor possível. “A ‘Legião de Inconformados’, como sempre gostamos de chamar os fãs do Blind Pigs, abraçou a Armada. A tática da nossa gravadora, Hearts Bleed Blue, de soltar as músicas ‘Próxima Estação’, com o Sérgio Reis, e a ‘Cobra Criada’, cover do Bezerra da Silva, onde canto com o Kiko Zambianchi, antes de lançar o álbum inteiro foi perfeita, pois fez muita gente que não conhecia Blind Pigs se antenar na Armada”.

Aliás, a belíssima “Próxima estação” é um grande destaque do álbum, cujo caprichado videoclipe teve arte assinada pelo designer Paulo Rocker, responsável também pela identidade visual do álbum.

“’Próxima Estação’ foi uma ideia que tive, pois queria muito gravar uma música com o Sérgio Reis, porém nosso baterista, o Arnaldo, já tinha voltado para Londres, onde ele trabalha e mora. Então pensei em gravar essa música no estilo Johnny Cash da época da Sun Records, em que ele gravava sem bateria, lá em 1954. Eu quis trazer esse clima pra gravação, mas ao mesmo tempo adicionar um tempero brasileiro. Na minha humilde opinião, foi a música mais linda que gravei na minha vida. Cantar essa música com o Rei do Sertanejo, uma lenda viva, foi algo que nem dá pra explicar. Assim que o Sérgio Reis acabou de gravar a voz, ele saiu da cabine de gravação e perguntou quem tinha escrito o refrão ‘Nossa força vem daqueles que nos ensinaram e não estão mais entre nós’. Falei que fui eu e ele disse: ‘Parabéns, meu filho, cantei essa música pensando no meu pai, no meu tio e no meu avô’. Porra, mano, na boa, isso não tem preço”, confidencia orgulhoso Henrike.

Mas como já dito, o espírito pirata não é o único diferencial do álbum. Ele claramente permeia toda a obra e está explicitamente presente nas coesas “Eternos marujos”, “Bandeira Negra” e “Mares Bravios”. Mas encontramos no lançamento outros grandes destaques, como as políticas e necessárias “O ódio venceu” e “Índios corsários”, além da utilização de outros instrumentos não comumente encontrados anteriormente nos Blind Pigs, como o banjo em “Tirania” e o órgão em “Desperdício de milagre”, contundente crítica às ambiciosas igrejas e seus rebanhos.

Bandeira Negra foi lançado em CD, vinil e K7. Sobre a retomada das mídias tradicionais de música, Baliú comenta: “Como colecionador de discos, ver o álbum da minha banda prensado em vinil é algo surreal, porque pra mim esse é o verdadeiro formato para escutar música. Sou da época em que se colocava um disco na vitrola, segurava e admirava a capa explorando os detalhes do encarte, da contra capa; todo o cuidado que a banda teve de escolher a ordem das músicas para os lados A e B; trocava o lado manualmente; saía para comprar um disco na loja; gravava uma fita K7 com os discos que eu não tinha, enfim, toda aquela mágica que esses formatos tradicionais oferecem”.

A ótima repercussão entre crítica e fãs demonstra que os tempos de Blind Pigs e percalços e turbulências que afetaram a banda foram necessários para que a Armada já chegasse pronta. Bandeira Negra não só é um excelente registro, mas a consolidação de músicos que há mais de 20 anos empunham a bandeira punk com talento e honestidade. Afinal, mar calmo nunca fez bom marinheiro, muito menos inconformado pirata.

Ouça ‘Bandeira Negra’ na íntegra no Spotify

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Daniel Pala Abeche

Daniel Pala Abeche, paulista, está em Curitiba desde 2015. É professor universitário, pesquisador acadêmico e músico. Formado em Comunicação Social pela Universidade Mackenzie, possui Mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUCSP e atualmente é doutorando em filosofia pela PUCPR, com pesquisa envolvendo estudos sobre estética, linguagem e cultura. Também toca baixo acústico (rabecão) e canta na Johnny Bigode.

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