Caixa Acústica

Assistir a um show do Ulver é uma experiência intensa

Os noruegueses apresentaram seu novo disco, 'The Assassination of Julius Caesar' no Islington Assembly Hall, em Londres – e a gente conta pra você como foi.

É muito complicado explicar o que é o Ulver para quem não conhece a banda. Afinal, não é tarefa fácil definir muito precisamente o som de um grupo norueguês que começou lançando discos de black metal, passou a flertar com a música ambiente e o avant-garde, e hoje faz algo próximo de um Tears for Fears – se o Tears for Fears fosse muito mais dark.

Muita gente também fica bastante confusa quando sabe que, apesar de existir desde 1993, a primeira aparição dos caras num palco aconteceu só em 2009, por motivos que apenas Kristoffer ‘Garm’ Rygg (vocalista, fundador e a principal força criativa da banda) pode explicar. Por tudo isso, minha curiosidade em assistir o Ulver ao vivo era gigante.

Ingresso para show do Ulver
Meu item particular de memória física. Foto: Arquivo Pessoal.

No dia 15 de novembro, então, fui até o Islington Assembly Hall, em Islington, Londres. A fila era grande e as portas se abriram perto das 20h, apesar dos ingressos indicarem o horário das 19h. Quando entrei na casa – espaçosa e bastante bonita, diga-se –, portanto, o show de abertura já havia começado. Stius Westerhus – guitarrista norueguês cujo trabalho eu desconhecia totalmente – estava no palco acompanhado apenas por seu instrumento e um único feixe de luz. Além das brincadeiras com os efeitos e a variação de timbres, a voz de Westerhus é igualmente interessante, indo da raiva a um herdeiro de Jeff Buckley com muita facilidade.

A música alternava entre trechos totalmente experimentais e outros de beleza e singeleza incríveis. Nesses momentos mais contemplativos, entretanto, um aspecto curioso da noite me chamou a atenção: como fez barulho aquele público! Talvez pela minha localização na casa (eu estava perto de um dos bares), muitas músicas ficavam bastante poluídas. Não costumo considerar a conversa em casas de shows um problema, mas as composições melancólicas e calmas acabavam sendo afetadas – afinal, o pessoal não estava exatamente conversando, mas sim gritando. Isso atrapalhou um pouco a apresentação de abertura, mas nada que comprometesse o bonito número de Westerhus.

Ao final da última música do set, a entrada dos sintetizadores e a contagem do tempo nas baquetas anunciou o início inesperado do Ulver, tocando juntos ao guitarrista. E, honestamente, que entrada – o show iniciou com “Nemoralia”, faixa de abertura e um dos destaques incontestáveis do último álbum, o excelente The Assassination of Julius Caesar. Logo de cara, impressiona a coesão: a banda executa tudo com uma precisão invejável, apesar das muitas nuances e detalhes que a gravação apresenta. Na sequência, “Southern Gothic”, um synthpop à la Depeche Mode que é provavelmente a coisa mais animada que os noruegueses já gravaram – ao vivo, então, Garm chega a arriscar uma dancinha.

O primeiro show da banda, por exemplo, ainda em 2009, tinha regras claras estabelecidas pelos integrantes: a luz jamais poderia ultrapassar o pescoço, como uma forma de deixar claro que o importante ali era a música sendo produzida, e não os personagens.

É importante salientar para o fato de que o Ulver faz escolhas estéticas muito interessantes. O primeiro show da banda, por exemplo, ainda em 2009, tinha regras claras estabelecidas pelos integrantes: a luz jamais poderia ultrapassar o pescoço, como uma forma de deixar claro que o importante ali era a música sendo produzida, e não os personagens. Já neste show, agora em 2017, o chão do palco e o corpo dos músicos ficou totalmente ausente de luz direta, com exceção de pequenas lâmpadas direcionadas para ajudá-los a manipular seus instrumentos. Em compensação, o resto do palco foi tomado por projeções de animações psicodélicas em lasers e muitas luzes coloridas, que criavam o ambiente necessário para a estranha celebração que acontecia naquele espaço.

Lá pela terceira ou quarta música, você finalmente se convence: não, as luzes diretas não serão acesas em momento algum, e o máximo que você vai ver dos humanos no palco é bem pouco mais do que as silhuetas – a foto lá em cima, tirada na cidade de Gdańsk, na noite posterior, dá uma amostra. Para entender em movimento, esse próximo vídeo é uma montagem, feita por um fã, com várias cenas filmadas por celulares no show:

O repertório seguiu abrangendo todas as músicas do disco, em ordem diferente, além das faixas do EP de “sobras”, Sic Transit Gloria Mundi. E é impressionante como as músicas de The Assassination of Julius Caesar crescem ainda mais quando tocadas ao vivo. O Ulver não tem medo de arriscar e fazer longas jams, tornando o clima meio-dançante-mas-ainda-obscuro mais poderoso. Nas situações mais agitadas e pesadas, como o final de “So Falls the World” ou a versão estendida de “Coming Home”, que durou mais de dez minutos, a combinação das luzes e das animações projetadas com as batidas eletrônicas tocadas em volume altíssimo criava um clima de quase transe.

Quando a banda saiu do palco, claro, o público pediu mais. E eles voltaram, fechando a noite com “The Power of Love”, inusitado cover do grupo de dance pop inglês Frankie Goes to Hollywood. Alguns comemoraram – provavelmente ingleses, que têm mais familiaridade com o conjunto –, enquanto outros, como eu, apenas aproveitaram para curtir os últimos minutos desse show incrível.

Ao término da canção, cheguei a pensar que as luzes se acenderiam, ao menos para uma breve despedida. Ledo engano: tomados apenas pelo vermelho intenso que saía dos refletores, os integrantes apenas ergueram suas taças, enquanto Garm soltou um “Thank you, London” e percebemos que, enfim, deveríamos ir embora.

Em resumo, os caras não estão para brincadeiras – a banda entrega uma experiência diferente, dark, intensa e recompensadora. Caso algum dia pinte a oportunidade de assistir ao vivo a um show do Uliver, eu recomendo fortemente que você vá.

Ouça ‘The Assassination of Julius Caesar’ na íntegra no Spotify

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Rômulo Candal

Rômulo Candal é curitibano e prefere escrever do que falar. Jornalista formado pela UFPR, é apaixonado por música, literatura, cinema e internet. É colaborador do coletivo literário Obscenidade Digital, ainda frequenta estádios de futebol e vive procurando algo novo pra ouvir, ler ou assistir.

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