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‘Casas’ marca o retorno de Rubel após 5 anos sem inéditas

Apesar de ser liricamente inconsistente, o cantor e compositor carioca entrega um álbum solar, coeso e agradável de se ouvir.

Casas

Apesar de ser liricamente inconsistente, Rubel entrega em 'Casas' um álbum solar, coeso e agradável de se ouvir.

Quando Cícero lançou Canções de Apartamento, em 2011, ele causou um rebuliço generalizado na cena independente da música brasileira. Inspirados pelo carioca que gravou um álbum inteiro no seu quarto e mesmo assim conseguiu repercussão nacional, surgiram outros tantos artistas adeptos ao violão de nylon. Destes, uma boa parte constitui o que eu carinhosamente apelidei de Música Fofa Brasileira.

Rubel é provavelmente o exemplar perfeito desse sub-gênero musical inexistente. Ele, que também é carioca, lançou seu primeiro álbum em 2013. Batizado de Pearl, esse disco é uma coleção de canções suaves que gravitam entre o indie folk e a bossa, recheadas de letras românticas e referências à infância. A receita fez sucesso: o clipe do single “Quando Bate Aquela Saudade”, por exemplo, ultrapassou 18 milhões de visualizações no YouTube.

Depois de cinco anos sem material novo, semana passada Rubel finalmente lançou Casas, seu segundo álbum de inéditas. Mas o que mudou nesse meio tempo? Liricamente, pouca coisa. As letras seguem na mesma pegada do disco antecessor: meigas, românticas e cheias de imagens que nos remetem ao universo infantil.

Depois de cinco anos sem material novo, semana passada Rubel finalmente lançou Casas, seu segundo álbum de inéditas. Mas o que mudou nesse meio tempo? Liricamente, pouca coisa.

Se há momentos em que a sua simplicidade cativa e transborda uma sinceridade genuína, como na faixa “Partilhar”, em outros ela soa rasa, unidimensional e com pouco propósito. É o caso de “Pinguim”, canção na qual Rubel encadeia versos meio truncados e que dizem muito pouco — vide: “Snoop Dogg e Jorge Ben / Não dirijo, mas você dirige bem / O gelo quebra o dente, o cookie quebra o gelo bem”.

“Chiste” compartilha de um problema parecido. A faixa conta com a participação do rapper paulistano Rincon Sapiência. Ele não apenas soa deslocado, como ao tentar se adequar ao clima do álbum acaba entregando versos que ficam aquém do esperado (Quem diz que o homem não chora / Com certeza não colabora / As lágrimas são como Temer / Necessário colocar pra fora).

Ao contrário de Emicida, que já tem uma desenvoltura bem maior com o universo da MPB e complementa perfeitamente a faixa “Mantra” — um dos destaques do disco. Falando em destaques, a produção e os arranjos são um caso à parte e dignos de elogios. O álbum foi contemplado pelo edital Natura Musical, o que provavelmente abriu as portas para que Rubel buscasse novos recursos e sonoridades. Ele aproveitou bem a oportunidade.

Largando um pouco a pegada mais folk, o carioca bebe na fonte do samba e da bossa, além de flertar com padrões rítmicos do hip hop, floreios de piano jazzísticos e belíssimos arranjos de cordas, sopros e metais. Há momentos inclusive em que essa mistura evoca algo de discos como Color Book, do Chance The Rapper, ou Telephone, da Noname.

A confluência disso tudo constrói uma atmosfera que se mantém sempre solar e nos envolve como um abraço morno. Para colocar de maneira simples e direta: é um disco agradável de se escutar. A começar pela dobradinha “Colégio” e “Cachorro”, que dá o pontapé no álbum de maneira exemplar.

A primeira é uma canção que abusa da nostalgia. Os vocais de Rubel carregados de reverb pintam cenários e memórias muito familiares do tempo de escola. Os metais e cordas, a princípio distantes, vão ganhando protagonismo ao longo da faixa, acompanhados de beats eletrônicos, guitarras em palm mute e samples sutis. A segunda segue uma linha parecida, porém com um violão mais marcado e uma quebra de ritmo, aos 45 do segundo tempo, que dá um outro colorido à faixa.

De maneira geral, a tônica de Casas é extremamente “para cima” e otimista. É como se visitássemos um universo íntimo onde é sempre verão. Imagino que por isso, para os mais cínicos (como eu, admito) o disco possa soar ingênuo demais às vezes. Mas esse é o jeito de Rubel. Ele tem alma de moleque e uma inocência que não é encenada — algo que deve ser sempre levado em conta ao escutar suas canções.

O disco, apesar de se manter musicalmente coeso do início ao fim, peca pela inconsistência na qualidade lírica das canções. São vários pontos altos se alternando com vários pontos mais baixos. No entanto, mesmo nos seus piores momentos, Casas acaba conquistando pelo carisma de Rubel e o colorido de sua musicalidade. Bem, é como disse anteriormente, no final das contas é um disco muito agradável de se escutar.

Ouça ‘Casas’ na íntegra no Spotify

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Bruno Vieira

Bruno Vieira é jornalista (quase) formado pela Universidade Federal do Paraná e músico independente. Nas horas vagas escreve crônicas, divagações musicais e monta playlists. Durante um ano foi produtor e apresentador dos programas Caldo de Cultura e Dê Ouvidos na UFPR TV.

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