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‘Planetarium’, o mais novo e pouco empolgante álbum de Sufjan Stevens

Em 'Planetarium', Sufjan Stevens desperdiça a oportunidade de fazer um trabalho interessante e desafiador resultando em um álbum pouco coeso e sem direcionamento.

Planetarium

Em 'Planetarium', Sufjan Stevens desperdiça a oportunidade de fazer um trabalho interessante e desafiador resultando em um álbum pouco coeso e sem direcionamento.

É provável que Sufjan Stevens seja um dos músicos mais intimistas e criativos do que se popularizou como indie. Cantando os clichês de uma geração que parece viver dividida entre o peso da responsabilidade e a tristeza da solidão, desde seu primeiro álbum, o multi-instrumentista de Detroit mescla folk e lo-fi ao mesmo tempo que afirma ter como projeto lançar um álbum para cada estado que compõem os Estados Unidos.

Illinois (2005), de longe seu maior sucesso, acabou dando lugar a uma sequência de álbuns nos quais o músico experimentou diversas vertentes musicais, algumas mais eletrônicas, outras mais orgânicas e suaves, como é o caso de Carrie & Lowell (2015), sucesso absoluto de crítica, que conta a história da mãe do cantor.

Sufjan nunca teve medo de se aventurar e parece que foi com esse intuito que aceitou o convite do compositor Nico Muhly. O convite, a princípio, consistiria numa colaboração para uma galeria de arte e teatro, e contaria também com Bryce Dessner, um dos integrantes do The National, e do baterista James McAlister, e acabou por fim dando origem ao álbum Planetarium, lançado em 9 de junho desse ano.

A ideia por trás de Planetarium é bastante óbvia: as 17 faixas que compõem o conjunto da obra falam essencialmente sobre o sistema solar e diversos de seus elementos. A combinação de músicos e a ambiência eletroacústica do álbum poderiam sugerir que o resultado final seria interessante e desafiador, como muitas coisas assinadas por Sufjan desde o começo de sua carreira, em 2000. Planetarium, no entanto, passa longe disso.

A combinação de músicos e a ambiência eletroacústica do álbum poderiam sugerir que o resultado final seria interessante e desafiador. Planetarium, no entanto, passa longe disso.

Ao longo de mais de 70 minutos, a impressão é que nada se resolve. “Neptune”, faixa de abertura, dá a sensação enganosa de que o que está a seguir vai continuar na mesma linha melíflua e atmosférica, tudo arrematado pela voz delicada e característica de Sufjan Stevens. Não é o que acontece. Aos poucos, a influência eletroacústica vai se aprofundando, do mesmo modo que as canções vão ficando mais longas e desconexas.

Um dos pontos altos do álbum talvez seja “Jupiter”, a segunda faixa, justamente por fazer uma espécie de transição entre o eletroacústico e o puramente eletrônico, mas, ainda assim, a duração de sete minutos é excessiva e um pouco cansativa. “Venus” retorna à ambiência atmosférica da faixa de abertura, porém, com uma sonoridade mais romântica, o que inevitavelmente leva ao questionamento se foi apenas a astronomia a grande musa inspiradora do álbum ou se a astrologia também teve alguma influência. A letra de “Venus” parece não deixar muitas dúvidas nesse quesito: “Half shell/ half undressed lover of mine/Born Aphrogenia/ jealousy drink of your wine”.

De “Uranus” em diante, o álbum não só não impressiona como fica bastante aquém das expectativas geradas pelo grupo de músicos em questão. O excesso de faixas de transição e a maneira como tudo é concatenado em si nos leva a pensar que o fato de ter sido pensado para ser parte integrante de um espetáculo fez com que Planetarium se convertesse em um disco pouco coeso e sem direcionamento.

Muita coisa acaba se perdendo nos mais de 70 minutos de gravação, não apenas momentos de energia que poderiam ser mais interessantes e explorados de maneira mais intensa, como é o caso de “Mars”, mas também verdadeiros mergulhos de serenidade, como é o caso de “Sun” ou mesmo “Black energy”.

É muito difícil pensar nas expectativas que um determinado artista pode gerar quando anuncia um projeto especial. No caso de Sufjan Stevens, sua consistente carreira parece fazer com que sempre esperemos uma qualidade acima da média, não elementos repetitivos e excesso de auto-tune. Dito isso, Planetarium não é nem de longe o pior álbum de 2017 até agora  – apesar de talvez ser o ponto menos brilhante da carreira do músico -, mas o fato de ter passado discretamente é justificado pela falta de coesão do conjunto como um todo. A audição repetida do álbum, no entanto, pode ajudar a desvendar alguns dos momentos mais inspiradores do conjunto da obra e, quem sabe, salvar a experiência.

Ouça ‘Planetarium’ na íntegra no Spotify

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Raphaella Lira

Raphaella Lira nasceu em Niterói (1984). Formada em Letras pela UFRJ, onde também cursou o mestrado e o doutorado em Literatura Comparada. Professora de português e literatura, viciada em música, leitora compulsiva e sommelier de filmes ruins, nunca teve disciplina para manter um blog, mas nunca deixou de escrever.

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