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Entrevista: Silva e o amor como ato político

Com parcerias como Arnaldo Antunes, Ronaldo Bastos e Anitta, 'Brasileiro' mostra um novo Silva, que aposta no cancioneiro brasileiro e em letras mais políticas. Confira entrevista exclusiva com o músico.

Amar em tempos de ódio é um ato revolucionário e é isso que Silva faz em seu novo álbum, Brasileiro. Com sua delicadeza, mostra que é “pedaço desse chão” e retrata o nosso país de uma forma leve e esperançosa em meio aos ritmos brasileiros misturados ao seu estilo tecnopop.

O disco, lançado em maio deste ano, teve como uma de suas bases o livro O Povo Brasileiro, do antropólogo Darcy Ribeiro, e, como a obra de Darcy, tange a compreensão de quem somos e para onde vamos como brasileiros. A faixa que abre o álbum, “Nada será mais como era antes” – uma das oito composições de Silva com o irmão Lucas Silva no disco -, é um bom exemplo disso. O artista, nos primeiros versos da música, desconstrói simbologias nacionais e critica o complexo de vira-lata.

Assim como mostra que sua terra é de paz e que não há mais espaço para a LGBTIfobia: “Quem nunca beijou / Uma boca qualquer / Uma boca de gente / De homem, mulher / Quem nunca amou / É melhor que não fale nada”, porque, afinal, nada será mais como era antes e é melhor os conservadores se acostumarem. Neste ano decisivo para o Brasil, não abdicaremos mais de ser quem somos. Não deixaremos roubarem os nossos direitos conquistados depois de tantos anos de luta.

Ao conversar com o multi-instrumentista sobre essa aposta em trazer conotação política para a sua música, Silva dá um relato bonito sobre a sua trajetória como um artista, que entende sua responsabilidade social: “Eu procuro ser sincero no que faço e, principalmente, na música. Por isso, mudo sempre a cada disco, porque gosto de aprender coisas novas e de evoluir como ser humano também. Esse disco acaba sendo mais político por conta do momento em que estamos. É impossível ficar alheio a isso tudo.”

‘Eu procuro ser sincero no que faço e principalmente na música. Por isso mudo sempre a cada disco porque gosto de aprender coisas novas e de evoluir como ser humano também. Esse disco acaba sendo mais político por conta do momento em que estamos. É impossível ficar alheio a isso tudo’. Silva

Essa evolução mencionada pelo artista pode ser vista também como sua adoção da ideia do cancioneiro brasileiro no lugar do uso de referências da música internacional, vista em seus outros álbuns, como Júpiter (2015). São 13 faixas que passeiam pela MPB, samba, bossa nova e elementos percussivos, sem deixar de lado os sintetizadores.

Mudança que o músico explica que vem da vontade em meio aos efeitos da globalização de “não deixar diluir o que a gente tem de mais precioso, que é a nossa cultura”. Pois, para ele, “a época em que o Brasil foi mais relevante na música foi quando os brasileiros tinham orgulho de ser o que são”.

Com isso, Silva se mostra mais autêntico e une os brasis – o da favela, do urbano e do mar – e os colore de rosa, de amor, no clipe de “A cor é rosa”. Faixa, que o músico alinha o congo capixaba com sua música, resgatando suas raízes vitorienses, e ainda exibe um amor entre dois homens em um Brasil tão machista, que carece de músicas de representatividade LGBTI.

Outro detalhe importante do clipe, são os dizeres “O Brazil não merece o Brasil / O Brazil não conhece o Brasil / O Brazil tá matando o Brasil”, resgatados da música “Querelas do Brasil”, interpretada por Elis e composta por Aldir Blanc e Maurício Tapajós, que fazem uma crítica à visão e à apropriação estrangeira do Brasil.

Essa nova fase de Silva também foi construída com o álbum Silva Canta Marisa (2016), como ele explica: “Acredito que meu contato com Marisa também tenha contribuído muito para eu trazer de volta minhas referências mais brasileiras, que vão desde Francisco Alves, passando por João Gilberto até o Raça Negra. Misturei tudo que gosto e do jeito que sei fazer.”

Misturou mesmo e trouxe no disco grandes parcerias da música brasileira, como com o grande Arnaldo Antunes na bossa nova “Milhões de Vozes”, e o compositor Ronaldo Bastos, letrista do Clube da Esquina, na faixa “Ela voa”, que coloca como protagonista a mulher e a sua liberdade.

E, teve ainda espaço para a cantora pop Anitta, na faixa “Fica tudo bem”, que apresenta uma melodia tão gostosa e esboça uma conversa entre amigos, que dá aquele conselho amoroso: “Cuide de quem te quer e cuide de você / Que fica tudo bem”.

Confira a íntegra da entrevista com Silva

Escotilha » No álbum Brasileiro você mostra “que é pedaço desse chão”, flerta muito com a bossa nova e o samba, trazendo ritmos bem mais brasileiros ao seu trabalho. Como surgiu essa vontade de trazer mais a brasilidade para a sua música? Como que foi o processo de composição e produção do álbum? Quais referências, além da brasilidade, você procurou trazer ao disco?

Silva » O Brasileiro nasceu de um processo bem intuitivo. Se houve planejamento, foi para que o álbum não soasse frio. Quando comecei a compor, ainda não sabia qual seria o título do disco e as músicas estavam surgindo com muitas referências brasileira, talvez por causa do que eu ouvia antes de embarcar nesse projeto. Acredito que meu contato com Marisa também tenha contribuído muito para eu trazer de volta minhas referências mais brasileiras, que vão desde Francisco Alves, passando por João Gilberto até o Raça Negra. Misturei tudo que gosto e do jeito que sei fazer.

Em Vista pro Mar, você leva o público até Angola, país que mais cedeu escravos às colônias portuguesas. Em Brasileiro, você se aproxima de ritmos intimamente ligados às nossas raízes musicais. Podemos esperar que Portugal surja, em algum instante, na sua discografia? Essa linha narrativa é proposital ou surgiu espontaneamente?

Pode ser que sim. Amo Portugal e adoraria me aprofundar mais na música portuguesa, quem sabe um dia eu consiga. Mas não gosto de planejar demais as coisas, prefiro que as idéias venham de forma mais livre e aí depois entendo o caminho que as coisas vão tomar. Espontaneidade é sempre bem-vinda.

Falando novamente sobre Portugal, tua recente passagem por lá para apresentar SILVA canta Marisa foi um sucesso. Você chegou a comentar o interesse de poder viver em Lisboa… Você mantém uma ligação forte com a “pátria mãe”?

Portugal sempre me recebeu muito bem desde o início, antes mesmo do meu primeiro álbum ser lançado. Só fui conhecer o país em 2013, quando fiz meu primeiro show em Lisboa, e desde lá tenho voltado sempre que posso.

Tem sido cada vez mais frequente que artistas da tua geração entrem em contato e abracem o Brasil, seja a partir de influências ou através do resgate de gêneros e ritmos que são mais regionais e/ou periféricos. Como você enxerga essa movimentação?

Acho que o efeito da globalização tem deixado os lugares todos muito parecidos e acredito que essa geração está lutando para manter as raízes e não deixar diluir o que a gente tem de mais precioso, que é a nossa cultura. Enxergo isso como algo muito valioso é importante. A época em que o Brasil foi mais relevante na música foi quando os brasileiros tinham orgulho de ser o que são.

A música “Nada Será Mais Como Era Antes” tem relação com “Nada será como antes” do Clube da Esquina?

A letra não vai para o mesmo caminho, mas é uma referência. Amo e venero o Clube da Esquina.

“Caju” é outra faixa bem política do álbum. Como que foi o seu processo de composição? 

Tenho muito carinho por essa música. Ela surgiu a partir de uma batida que eu tinha guardado e sempre quis que virasse canção. Aí surgiu uma melodia que gostei muito e depois meu irmão fez a letra, que me deixou emocionado logo na primeira vez que li.

Você aposta no instrumental nas faixas “Sapucaia” e “Palmeira”. Quer falar um pouquinho sobre essas músicas para a gente?

Amo músicas instrumentais e isso é uma coisa que venho querendo fazer há um tempo. “Sapucaia” é um samba que ficou grudado na minha cabeça por muitos dias e não conseguia imaginar uma letra para ele além de “laiá-laiá”. Tem hora que o som tem seu próprio discurso e realmente acho que a letra atrapalha o propósito. “Palmeira” veio de um desses momentos catárticos que só um piano pode dar pra gente. Acho que elas conectam as canções de alguma forma.

E a parceria com a Anitta na faixa “Fica tudo bem”, como aconteceu?

Anitta talvez seja a maior brasileira do momento e fico muito feliz de tê-la comigo nesse álbum. Eu mandei a música para ela, mas não imagina que ela me retornaria tão rápido. Nós nem tínhamos amigos em comum e fiquei feliz porque o que nos conectou foi a música.

Como você vê a tua trajetória na música até aqui e essa tua nova fase com o álbum Brasileiro? Você considera que esse disco tem uma conotação mais política do que os outros?

Eu procuro ser sincero no que faço e principalmente na música. Por isso mudo sempre a cada disco porque gosto de aprender coisas novas e de evoluir como ser humano também. Esse disco acaba sendo mais político por conta do momento em que estamos. É impossível ficar alheio a isso tudo.

Internacionalmente, a audiência sempre demonstrou interesse pela nossa música, mas questionava a ausência de novos expoentes. Não raro, diziam que queriam ouvir música brasileira, mas que não fosse feita por Caetano, Chico ou Vinicius. Nesse cenário, como você sente a produção atual brasileira, incluindo a tua própria, em perspectiva com a música feita no mundo?

Acho que a produção musical brasileira voltou a se valorizar (digo isso da nova geração). Há pouco tempo, o que se via eram músicos brasileiros tentando ser londrinos, nova-iorquinos, etc. Isso já é feito lá fora com maestria e acho que o caminho mais interessante é nós sermos mais autênticos.

O novo single “Palavras no Corpo”, da Gal Costa, teve composição sua com o poeta Omar Salomão. Conta para a gente a história dessa música?

Quando Gal me faz o convite e Omar me mandou a letra, eu vi a responsabilidade que era colocar música num texto tão intenso e bonito. “Ninguém diz eu te amo como eu” foi uma frase que eu quis muito ouvir Gal cantar com aquele timbre que ninguém tem igual. Eu já sabia ela amava Amy Winehouse e muitas coisas ligadas à música soul. Sentei para tocar piano e deixei a melodia fluir em cima do texto, como se fosse alguém recitando. O resultado é esse que está registrado na voz de Gal. Pra mim foi uma honra que nem dá para descrever.

Você está envolvido em outros projetos agora?

Agora estou me dedicando exclusivamente ao show. Quero fazer uma coisa bonita, bem tocada e com muito carinho.

Como que está a agenda de shows do novo álbum?

Essa vai ser a maior turnê que já fiz até agora, digo em número de shows mesmo. A intenção é que a gente vá a lugares que ainda não conseguimos ir das outras vezes. Sonho mesmo em tocar pelo Brasil inteiro.

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Felipa Pinheiro

Felipa Pinheiro é gaúcha, da mesma terra do escritor Érico Veríssimo, a desconhecida Cruz Alta. Mora em Curitiba desde os anos 2000, mas o que lhe agrada é o movimento. Por isso, viaja. Viaja na escrita e quando pode nas vias do Brasil. É jornalista, ou para definir melhor, uma contadora de histórias de tudo que resiste e se faz arte.

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