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A eterna rivalidade dos irmãos Gallagher

Há mais de 20 anos, Liam e Noel Gallagher competem entre si pelo protagonismo musical da família.

É provável que a rivalidade entre Liam e Noel Gallagher tenha começado ainda quando na barriga da mãe, apesar de não serem gêmeos. Desde que decidiram mergulhar juntos na carreira musical e formaram o Oasis, a rivalidade parece apenas ter se adensado e aprofundado. Os anos de estrelato, o uso de drogas e comportamento destrutivo de ambos não foi, no entanto, suficiente para eclipsar o fato de que ambos possuem talentos distintos e que já fixaram raízes na cena musical contemporânea de maneira irreversível.

Durante a segunda metade dos anos 90, quando o Oasis reinou solitário e ocupou o trono do britpop, já abundavam histórias sobre como os irmãos se davam mal ou sobre as loucuras que protagonizavam durante as turnês da banda. O problema foi que as diferenças entre ambos foram se intensificando de tal maneira que, após o lançamento de Dig Out Your Soul, em 2009, após uma briga intensa nos bastidores de um show, Noel deixou o lugar e afirmou em entrevistas que “não poderia trabalhar nem mais um dia com Liam” e pediu desculpas aos fãs que já tinham comprado ingressos para os shows restantes da turnê. Pouco tempo depois, tanto Liam quanto Noel anunciaram que o Oasis chegara ao fim.

Era chegada a hora de ambos se aventurarem em suas carreiras solo. O primeiro foi Liam, apesar de ser conhecida a fama de Noel como compositor e mente pensante do Oasis. Junto com os integrantes remanescentes do Oasis, Liam formou o Beady Eye, que passou por terras brasileiras e chegou a fazer algumas apresentações que não impressionaram muito.

Durante a segunda metade dos anos 1990, quando o Oasis reinou solitário e ocupou o trono do britpop, já abundavam histórias sobre como os irmãos se davam mal ou sobre as loucuras que protagonizavam durante as turnês da banda.

Pouco tempo depois, Noel formou a Noel Gallagher’s High Flying Birds, banda com a qual continua em atividade. A banda lançou seu primeiro álbum de estúdio em 2011. Apesar de ser um trabalho obviamente consistente, que carrega a marca nítida de trabalhos prévios de Noel Gallagher, o disco tem uma verve levemente nostálgica, que remete inevitavelmente aos melhores anos do Oasis, mas isso não chega a ser nem defeito nem qualidade. Há, porém, pontos altos indiscutíveis, como a faixa de abertura, “Everybody’s on the run”, e a música de trabalho “If I had a gun…”. Músico talentoso e de personalidade, Noel parece ter usado o primeiro trabalho solo para mostrar não apenas que o som do Oasis era uma marca registrada sua, como sua capacidade como vocalista.

O álbum posterior da banda, lançado em 2015, vai numa linha um pouco diferente. Chasing Yesterday foi acusado pela crítica de ser um misto de referências, incluindo riffs que fizeram a fama do próprio músico. Se, talvez, seja um álbum impossível de se odiar, é provável que também não seja o melhor trabalho da carreira do músico, que tenta em diversas faixas emular a si próprio, como por exemplo na faixa de abertura “Riverman”, cuja semelhança com a música que fez o Oasis estourar é inevitável.

Já Liam, depois da dissolução do Beady Eye, resolveu também buscar novos horizontes. Lançado esse ano, o álbum As you were dividiu críticos, mas provou, por outro lado, que Liam, da mesma maneira que o irmão, é um músico consistente e interessante. “For what it’s worth”, uma das faixas de trabalho, é uma excelente balada, cheia da personalidade vocal tão característica de Liam, e talvez seja um melhores trabalhos lançado por um dos irmãos desde o fim da banda.

Como a competição entre ambos parece não ter fim, vale lembrar que, quando festejou seu aniversário esse ano, Noel convidou uma gama enorme de celebridades, passando por Bono Vox e Wagner Moura, e deixou seu irmão fora da lista de convidados. Noel lançou recentemente mais dois singles de sua banda, o que quer dizer que podemos esperar mais um álbum do High Flying Birds em breve. “Holy Mountain”, uma faixa animada e dançante, um pouco diferente do britpop e suas variantes preferidas pelo músico, e “Fort Knox”, música que quase passa por instrumental, não fosse um refrão sutil repetido aos quase 3 minutos. Tanto uma quanto outra fazem com que o questionamento sobre o novo álbum de Noel seja inevitável.

Passados mais de 20 anos do boom do Oasis, é interessante ver como a rivalidade juvenil dos irmãos Gallagher evoluiu para uma disputa musical na qual quem ganha são os fãs. Pouco importa se você é mais fã de um ou de outro, ambos já manifestaram publicamente que tão cedo não vão se retirar da cena musical e, pela qualidade do que têm feito, resta a nós apenas agradecer. Ah, claro, e ainda podemos nos divertir com o eterno espírito hooligan desses torcedores do Manchester City.

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Raphaella Lira

Raphaella Lira nasceu em Niterói (1984). Formada em Letras pela UFRJ, onde também cursou o mestrado e o doutorado em Literatura Comparada. Professora de português e literatura, viciada em música, leitora compulsiva e sommelier de filmes ruins, nunca teve disciplina para manter um blog, mas nunca deixou de escrever.

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