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O retorno do LCD Soundsystem

Após 7 anos do concerto de despedida da banda, James Murphy reune o LCD Soundsystem, lança um novo single e se apresenta no 'Saturday Night Live'.

James Murphy, vocalista e frontman do LCD Soundsystem, formou a banda em meados de 2001. O primeiro single, “Loosing My Edge”, apesar de já possuir o embrião do que viria a ser o primeiro álbum da banda, LCD Soudsystem (2005), ainda soa diferente das faixas que viriam a se tornar hits, como “Daft Punk is playing at my house” e “Tribulations”. É também nesse ponto que se inicia a construção de um caminho que claramente tem como norte as referências punk e alternativas de Murphy, como Talking Heads e Brian Eno. Os arranjos e a produção do álbum como um todo também deixam claro o potencial do músico como engenheiro de som e idealizador de muitos dos componentes que fariam parte da identidade sonora da banda.

Sucesso de público e crítica, LCD Soundsystem foi seguido de Sound of Silver, lançado em 2007, que é uma espécie de consagração de Murphy e companhia no que diz respeito a produzir canções inesquecíveis. Muito embora ainda soe bastante eletrônico, do ponto de vista da consistência e coesão, é um álbum onde as influências rock e dance acabam por se mesclar numa proporção perfeita.

Tudo que havia feito a fama da banda, como as batidas marcantes, os refrãos e os vocais tradicionalmente afetados de Murphy, podem ser encontrados em faixas como “North American Scum” e “New York, I love you but you’re bringing me down”. Para além disso, a banda se aventurou em faixas mais longas, como a que dá nome ao álbum, fugindo um pouco do formato popularizado pela música pop, que sempre compreendeu canções pensadas para a transmissão radiofônica, com no máximo quatro minutos de duração.

This is happening, álbum de 2010, é a continuação de uma trajetória irrepreensível. A essa altura, o LCD Soundsystem já havia se convertido em uma das grandes bandas da década. A cada faixa, o conhecimento musical de James Murphy afastava claramente o grupo da proliferação de bandas indie do momento. Numa entrevista que data da época do lançamento do terceiro disco do grupo, Murphy afirmou: “I spent my whole life wanting to be cool… but I’ve come to realize that coolness doesn’t exist the way I once assumed”. O que ele não imaginava, no entanto, é que o som da banda permaneceria, mesmo anos após seu fim, como um verdadeiro sinônimo de cool.

A tessitura das faixas que compõem o álbum por vezes flerta com a composição já conhecida dos fãs, como a sobreposição de baterias e as sonoridades eletrônicas, para, por fim, construir melodias hipnóticas, como acontece em “Home” e “Dance Yrself Clean”. Mais do que cool, o LCD Soundsystem se converteu num dos grupos que melhor explorou a capacidade de revitalizar um gênero que havia saído dos anos 90 cansado.

Há uma semana atrás, a banda finalmente confirmou o retorno com o lançamento de um single e uma posterior aparição no Saturday Night Live.

Foi também com o lançamento de This is happening que Murphy anunciou a aposentadoria da banda, após três bem-sucedidos álbuns de estúdio, inúmeros remixes e incontáveis aparições como headliner em festivais ao redor do mundo. O show de despedida da banda aconteceu em 2 de abril de 2011, após quase 10 anos de atividade musical intensa.

Rumores sobre a volta do LCD Soundsystem começaram a aparecer em meados de 2015, com publicações de peso como a Bilboard apontando para a possível aparição do grupo em festivais ao longo do ano de 2016. Tais rumores, muito embora não tenham sido confirmados, tampouco se provaram falsos. Há uma semana atrás, a banda finalmente confirmou o retorno com o lançamento de um single e uma posterior aparição no Saturday Night Live. James Murphy, inclusive, já anunciou que a banda tem de fato um álbum a caminho, que poderá sair ainda esse ano ou no próximo.

A aparição ao vivo da banda no SNL merece uma atenção especial. A voz de Murphy envelheceu nos 7 anos em que a banda esteve separada, mas não perdeu sua dramaticidade e expressão. A execução ao vivo deixa evidente o elevado grau de produção da faixa, ao mesmo tempo em que chama a atenção pela capacidade coletiva de reproduzir extremamente fiel “Call the police”.

Desde que os boatos se provaram verdadeiros, uma verdadeira aura de ansiedade começou a pairar em torno da banda e toda a expectativa foi aparentemente justificada com o lançamento de “Call the police” e “American Dream”. Com algo em torno de seis minutos de duração cada, as duas mostram exatamente porque o LCD Soundsystem voltou. Repaginada, a banda consegue condensar décadas de influências musicais nos seis minutos de “Call the police”, ecoando Eno – um dos favoritos de Murphy – ao mesmo tempo que soa muito mais como uma banda de rock do que antes. “American Dream”, no entanto, busca em elementos familiares e nos vocais melancólicos de Murphy algo que pode ser interpretado como uma tônica para o álbum por vir.

Assista a participação do LCD Soundsystem no ‘SNL’

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Raphaella Lira

Raphaella Lira nasceu em Niterói (1984). Formada em Letras pela UFRJ, onde também cursou o mestrado e o doutorado em Literatura Comparada. Professora de português e literatura, viciada em música, leitora compulsiva e sommelier de filmes ruins, nunca teve disciplina para manter um blog, mas nunca deixou de escrever.

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