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Os nomes que estão mudando algumas ideias na comunidade do rap

Padrões impostos desde que o mundo é mundo reforçam uma ideia errônea de masculinidade que corre solta na cena musical do rap.

Corre solta no cenário musical do rap uma série de ideias retrógradas a despeito do que é masculinidade. Nada que surpreenda — são padrões impostos desde que o mundo é mundo e já se tornaram lugares-comuns na sociedade. O resultado disso: letras que objetificam mulheres e exaltam o poder aquisitivo dos rappers que, quando representadas nos videoclipes, criam e reforçam a imagem de que o homem macho de verdade é aquele que vive rodeado de mulheres, com muito dinheiro, carros tunados e mansões.

Se formos dar nomes aos bois, o rebanho seria enorme, e contemplaria, ainda, outras diversas ações.

Como tuda cultura (porque, querendo ou não, isso é uma cultura, tal qual a do estupro — que até foi campanha de conscientização nas redes sociais lá em 2015), há sempre uma contracultura.

Não é difícil apontar, no rap, quem são aqueles que queiram causar uma ruptura neste tipo de pensamento. Basta ver alguns nomes até bem populares — alguns deles, inclusive, até bem recentes.

Um dos grandes nomes do feminismo atualmente, Cardi B é dura nas críticas acerca das ideias que se têm sobre o movimento. “[…] Algumas pessoas são espertas, mas não têm senso comum. Eles acham que o feminismo é ótimo e só uma mulher que pode falar corretamente, que tem um diploma, que é um chefe, um empresário… eles acham que só Michelle Obama pode ser uma feminista”, comentou, em entrevista à revista i-D. “Qualquer coisa que um homem possa fazer, eu posso fazer. Eu estava no topo das paradas. Eu sou uma mulher e fiz isso. Eu me sinto igual a um homem”, disse. A rapper já trabalhou como stripper e sentiu na pele os efeitos do machismo que tanto as crucifica — e, ao mesmo tempo, as sustenta. “Eles não podem tocá-la em suas partes íntimas e não devem tocá-las, mas às vezes me acariciavam no braço e eu os ouvia respirar tão pesado no meu ouvido. Apenas me causava nojo”, contou.

Entre os homens, Logic tem sido um dos poucos homens — brancos — que tem usado seu espaço na mídia para abordar estes assuntos. Além de falar sobre racismo, violência doméstica, LGBTfobia e transtornos psicológicos em seu álbum Everybody (2017), o rapper fez poderosos discursos em suas apresentações de “1-800-273-8255”, ao lado de Alessia Cara e Khalid, no Grammy (a edição deste ano, inclusive, marcada pela predominância masculina entre os vencedores) e nos Video Music Awards da MTV.

A canção traz uma forte e importante mensagem sobre o suicídio e o clipe — ambos indicados ao Grammy — é protagonizado por um jovem negro gay que é rejeitado pela sua família após descobrirem sobre sua sexualidade. “As mulheres são tão preciosas quanto mais fortes do que qualquer homem que já conheci. E a eles eu digo: levantem-se e esmaguem todos os predadores sob o peso de seu coração que está cheio do amor que eles nunca lhe tirarão. Não tenha medo de usar sua voz e, especialmente, em situações como essas quando você tem a oportunidade. Levante-se e lute por aqueles que não são fracos, mas ainda precisam descobrir a força que o mal deste mundo fez de tudo para esconder”, bradou.

Corre solta no cenário musical do rap uma série de ideias retrógradas a despeito do que é masculinidade. Nada que surpreenda — são padrões impostos desde que o mundo é mundo e já se tornaram lugares-comuns na sociedade.

Saúde mental ainda é um tema repleto de tabus. Segundo um estudo do Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH), nos Estados Unidos, seis milhões de homens são diagnosticados com depressão anualmente e, muitos deles, se recusam a fazer o tratamento. Fazer a abordagem destes temas e procurar por ajuda acaba sendo complicado para os homens, principalmente pelos motivos citados no começo do artigo, além de que ainda há uma ideia de que esse tipo de coisa é “fraqueza” — e demonstrar fraqueza afeta a masculinidade.

Em 2016, Kid Cudi decidiu ser sincero e, por meio de sua página oficial no Facebook, compartilhou com os fãs que havia se internado em uma clínica de reabilitação. “Ontem, eu cheguei à reabilitação por depressão e vontade de me matar. Eu não estou em paz. Eu não tenho estado desde que vocês me conhecem. Se eu não viesse aqui, eu teria feito algo por mim mesmo”, desabafou. “Eu simplesmente sou um humano machucado nadando em uma piscina de emoções todos dias da minha vida. Há uma tempestade violenta dentro do meu coração o tempo todo. Eu não sei o que é se sentir em paz. Eu não sei como é relaxar”, escreveu.

Kid também publicou duras mensagens contra a LGBTfobia em seu Twitter, à época do atentado à boate LGBT Pulse, em Orlando, também em 2016. “A comunidade do hip-hop é a menos sincera sobre os direitos dos homossexuais e eu vou fazer o que puder para mudar isso”, postou.

Ainda vemos muitas manifestações problemáticas nessa comunidade — como a infeliz recente declaração do DJ Khaled de que “há regras diferentes para os homens” —, mas a contrapartida destes nomes (e claro que há outros, mas o espaço não é suficiente para falarmos de todos) mostra que os tempos são outros — e que as minorias já estão cansadas de tanto silêncio.

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Marcelo Monteiro

Marcelo Monteiro é gaúcho, designer gráfico e estuda Jornalismo na Universidade Luterana do Brasil. Amante da profissão desde criança, encontrou na Internet uma forma de exercer livremente essa paixão, tendo participado de diversos blogs e criado o Coldplay Brasil, um dos maiores fã-sites dedicados à banda na América Latina, do qual mantém desde 2013.

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