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psicodália 2017 resenha
Um festival em tantos. Foto: Ana Eduarda Diehl/A Escotilha.
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Por Ana Eduarda Diehl*, especial para A Escotilha

Estive no Psicodália em três edições: 2011, 2014 e 2017.

Esse texto não se destina a falar sobre o que quer que o festival seja, senão sobre as múltiplas possibilidades que o mesmo comporta.

Revisitando cartazes de edições anteriores, fica claro o crescimento e as proporções mais ecléticas que o Dália foi assumindo. De bandas mais locais e psicodélicas a atrações renomadas nacionalmente, o festival se diversificou sem perder a sua essência. E como já dizia o outro, “tudo muda o tempo todo no mundo”. Pimba: a impermanência é a única constante da vida.

Conversando com alguns frequentadores mais antigos, ouvi relatos um pouco saudosistas sobre o Psicodália raíz, de um passado remoto onde tudo era mais psicodélico mesmo, quando todos dividiam tudo e haviam atrações mais progressivas de verdade. Em alguma medida, todos temos lá os nossos apegos em relação ao que foi, cultuamos as nossas imagens idealizadas no altar, dando preferência àquilo que é tão igual a nós mesmos.

Há outros contextos que parecem demandar mais pra fora do que pra dentro dentro, e esse acho que seja o caso do Psicodália.

Dar conta da diferença, contudo, talvez seja de fato a maior transgressão psicodélica, pois aí já não estamos atados às restrições das imagens, dos gostos e dos discursos identitários. É no espaço amplo dentro da gente que a vida se reinventa e os encontros verdadeiramente acontecem.

Além do mais, tenho aqui pra mim que a característica mais interessante do Psicodália seja justamente a ponte entre atrações já consagradas com aquilo que há de melhor na atualidade. De Ney Matogrosso a Francisco, el hombre, do Di Melo ao Liniker, nesse trânsito do passado em direção ao presente, nessa contínua assimilação do novo, para além da crença de que “antigamente tudo era mais interessante”. Não me atenho, contudo, a fazer a crítica da crítica. Me interessa antes falar de multiplicidades, a começar pelas imagens.

Revisitando fotografias de edições anteriores, fiquei encasquetada com a facilidade que existe em se criar uma imagem única das coisas. Um simplismo do qual não estou isenta.

A ideia de uma “Psicodália nostalgia 68” retém predomínio sobre a diversidade que o festival abrange, como um lugar frequentado por famílias, por saudosistas do rock progressivo de antes de ontem, de veganos que fazem um camping próprio, dos-que-não-dormem-nunca e, pasmem, daqueles que à sua própria maneira fazem um pagodália que desemboca em Mutantes. A grama da fazenda Evaristo comporta mais diferença do que a fauna-flora do meu condomínio. Não podendo explicitar o fato, deixo que as imagens falem por si.

No que diz respeito as atrações dessa edição comemorativa, volto a bater na tecla de que o novo é fundamental. E fazer o contraponto é inevitável.

Essa edição comemorativa em especial concentrou uma série de apresentações bastante performáticas: Ney, Erasmo Carlos, Liniker, Trombone de Frutas, Itaércio Rocha. A minha expectativa recaiu sobre os nomes mais consagrados, que, apesar de terem sido maravilhosos, nem de longe foram os que mais me afetaram. Mesmo consciente da inutilidade das classificações, não posso deixar de apontar a sensação de que alguns shows reverberaram bem mais do que os outros. Eu sequer conhecia Francisco el hombre, mas ficou muito claro o fato de que o show continuou mesmo após o seu término, com uma multidão saindo do palco e entoando “Tá com dólar, tá com Deus”. A forma como aquilo se deu só se explica mesmo pela doação. E sim, aquele show foi de uma generosidade tamanha, quase obscena.

Ouso especular inutilmente e sem certeza que um artista já consolidado, uma entidade como o Ney Matogrosso, já não teria essa mesma capacidade. Isso porque de tanto ser, já não é mais necessário estar. Há tanta história, tanta bagagem, que entre uma plateia e outra tudo vira público, e os shows acabam perdendo um pouco dessa qualidade de presença generosa, ficando mais limitados a uma performance artística do que a uma afecção propriamente dita.

Entendo que há apresentações que para criarem intimidade exigem um enraizamento no instante, uma espécie de presença sutil como a respiração. Há outros contextos que parecem demandar mais pra fora do que pra dentro dentro, e esse acho que seja o caso do Psicodália.

Não é à toa que a Bandinha Di Dá Dó fez o que fez. Algo se apossou de mim: cheirei sovacos fedidos em rodas de mosh e me joguei num mar de gente em palco aberto. Aquilo foi tão honesto, mas tão honesto, que a fala do Zé Docinho ao final não transpareceu outra coisa que não fosse verdade. Sim, assim como podemos cheirar sovacos de estranhos e nos jogar em braços desconhecidos, também podemos curar o mundo. Com muita entrega, por puro afeto. Para além dos discursos, há sempre aquilo que a gente sente.

Se utilizei tantas imagens nesse breve texto, é porque tive que me despir daquelas que carrego em mim mesma e criar um pouco de diferença aqui dentro. E nessa brincadeira conheci uma miríade de gente, oscilei entre uma sobriedade de excessos e uma receptividade tão lúcida quanto alucinada. Entre cantar macio e perder a voz, descobri nesse carnaval que toda experiência é melodia polifônica. E haja vida pra tanto encontro.

PS: Um abraço afetuoso pros amigos Gabriel D., Gustavo, Maria, Bernardo e Murilo, nossa entidade bêbada. Sem nossas histórias, não haveria relato possível.

*Ana Eduarda Diehl nasceu em Curitiba. Cursa Ciências Sociais na UFPR. Sobre si, declara sua precária condição de ser qualquer coisa na vida. Afirma apenas não ser nada cética. Sua avó lhe disse que só não existe aquilo que não tem nome, e nisso ela tem fé.

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