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‘Saravah’: documentário essencial sobre a Música Popular Brasileira

Relembramos o documentário 'Saravah', gravado em 1969 pelo músico francês Pierre Barouh, um registro importantíssimo que levou mais de 35 anos para chegar até o público brasileiro.

Dia 02 de fevereiro é o Dia de Iemanjá. Nesse dia, centenas de pessoas se vestem de branco e vão até as praias levar oferendas para um dos orixás africanos mais populares das religiões afro-brasileiras. Seu nome é derivado da expressão ioruba Yéyé omo ejá: “mãe cujos filhos são peixes”. Na cultura popular brasileira, a música é, talvez, a expressão artística que mais presta homenagens à divindade, certamente uma das mais celebradas das religiões afro-brasileiras como o candomblé e a umbanda, e também do catolicismo (manifestada pela imagem de Nossa Senhora dos Navegantes a partir do ponto de vista sincrético das religiões). Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Vinícius de Moraes, Baden Powell, Otto, Clara Nunes: a lista de homenagens musicais de peso à Rainha do Mar é infindável.

Todo o esforço dos colonizadores europeus e eurocentristas do passado para apagarem e inferiorizarem as culturas e as religiões africanas no Brasil não conteve a forte expressão dos africanismos no território brasileiro. A MPB é, em seu DNA, negra. A bossa nova, em seus primórdios e em sua essência, é negra. E a força dessa negritude na música popular brasileira gerou atração tão grande em um jovem músico francês que, a partir da década de 1960, ele dedicou boa parte de seus esforços para difundir nossos músicos pela Europa (o mundo sempre dá muitas voltas). Era fevereiro de 1969 quando Pierre Barouh, filho de judeus criado num subúrbio de Paris, estava no Rio de Janeiro envolvido até o pescoço com o samba brasileiro e passou a registrar em película o que veio a ser um documentário-chave para a história de parte do samba e dos primeiros anos da bossa nova.

O mais curioso dessa história toda é que Saravah (Pierre Barouh, FRA/BR, 1969), foi, por mais de 35 anos, um documentário para europeu ver. Registros de enorme importância da música brasileira a partir de um olhar estrangeiro, mas imerso, só há bem pouco tempo chegaram ao Brasil, em lançamento pelo selo Biscoito Fino em 2006. O DVD está esgotado, mas felizmente o filme está disponível completo, no YouTube. O vídeo abaixo, extraído do filme, é um registro da interpretação de Baden Powell e Márcia Sousa para “Tempo de Amor” (de Vinícius de Moraes e Baden Powell):

Os depoimentos de Paulinho da Viola só deixam evidente como o samba é um universo à parte, com todas as suas estrelas e constelações.

Como se explica a um europeu a diferença entre candomblé e macumba? O mestre da percussão João da Bahia responde a Barouh tocando um prato e um garfo, sua marca de ritmista. Os depoimentos de Paulinho da Viola só deixam evidente como o samba é um universo à parte, com todas as suas estrelas e constelações, como quando enfatiza que ele e Bethânia têm formações e compromissos distintos dentro da música brasileira.

Em entrevista à Folha, Pierre Barouh relembrou as circunstâncias que o levaram a fazer o documentário. Admirador da música brasileira, o cantor havia estado no Brasil pela primeira vez em 1959. Na metade dos anos 60, havia morado por seis meses em uma casa na então deserta praia de Itaipu (Niterói). Em 1966, estourou na Europa com “Saravah”, a versão em francês do “Samba da Bênção”, da parceria Baden-Vinicius de Moraes. E foi por intermédio de Baden Powell que o francês conheceu Pixinguinha, Maria Bethânia, Raul de Souza e Paulinho da Viola.

Pierre Barouh nunca havia filmado nada antes, nem teve tempo de preparar qualquer coisa com antecedência: Saravah foi inteiramente gravado em apenas três dias, e talvez por isso o tom seja de espontaneidade e tenha um clima intimista, quase improvisado. É como se você estivesse sentando na mesa de um bar com todo mundo que está lá, cantando. Pierre Barouh faleceu em 2016, mas deixou sua marca como um importante difusor da cultura brasileira e africana na Europa, conhecido como “Embaixador” da música brasileira. O documentário é, no fundo, um grande ensaio e não é um material feito por cineastas/para cineastas. Sua importância não é simplesmente estética, mas memorialística. Assistir Saravah é como abrir uma caixa velha de memórias esquecidas.

Assista ‘Saravah’ completo aqui

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Fernanda Maldonado

Fernanda Maldonado é jornalista e redatora publicitária nas horas vagas (ou vice-versa!). Natural de Curitiba, produz resenhas e entrevistas sobre música, artes visuais e teatro para revistas e periódicos independentes de cultura e arte.

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