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O transe coletivo de uma noite com Sigur Rós

Banda islandesa tocou no Brasil novamente após 16 anos para um público de 7 mil pessoas no Espaço das Américas, em São Paulo, na última quarta-feira.

No final da década de 1990, o jornalista Fabio Massari esteve explorando musicalmente uma pequena ilha gélida do Atlântico Norte, com pouco mais de 340 mil habitantes, que todos conhecemos melhor através de uma de suas mais ilustres cidadãs, a Björk. Rumo à estação Islândia, livro de Massari publicado em 2001 pela Editora Conrad, disseca todos os aspectos de décadas de produção musical no país insular nórdico-europeu desde 1960 até o final dos 90.

Em suas últimas páginas, encontramos o que vem a ser uma das primeiras entrevistas internacionais concedidas pela banda de post-rock islandês Sigur Rós. Na conversa, Massari questiona o vocalista Jósni Birgisson a respeito da(s) língua(s) escolhida(s) na composição das letras: “Inglês, islandês…?”. Jósni responde: “não importa a língua, não somos famosos, os discos (só) vão sair aqui”.

Quase vinte anos e dez discos lançados depois, com a maioria das letras cantadas em islandês e “hopelandish” (uma invenção linguística, combinação de vocalizações peculiares e devastadoras), talvez Jósni Birgisson mordera a própria língua algumas vezes. Na última quarta-feira (29), após um hiato de 16 anos desde a última visita ao Brasil, Sigur Rós apresentou-se para um grande público incrédulo e silencioso de mais de 7 mil pessoas no Espaço das Américas, em São Paulo.

Na última quarta-feira (29), após um hiato de 16 anos desde a última visita ao Brasil, Sigur Rós apresentou-se para um grande público incrédulo e silencioso de mais de 7 mil pessoas no Espaço das Américas, em São Paulo.

O espetáculo promovido pelo Popload Gig e batizado de Uma Noite com Sigur Rós faz parte de uma série de shows solo executados pela banda nos últimos dois anos, que dispensou os músicos de apoio e realiza a apresentação somente com seus três integrantes, Jósni nos vocais e guitarra, Georg Hólm no baixo e teclados e Orri Páll Dýrason na bateria. Nada mais é necessário.

Até metade do show, os músicos ficaram posicionados em linha reta, um ao lado do outro e bem próximos ao público. Isso porque uma estrutura de palco impressionante e fundamental para a experiência sinestésica da noite foi montada atrás para compor os estímulos visuais da performance, juntamente com o telão ao fundo, projetando animações gráficas abstratas, e dois telões laterais, que exibiam os músicos em preto e branco granulado e ângulos não convencionais. Um filme à parte.

Diversos bastões altos com intersecções perpendiculares foram posicionados por todo o palco, com a função de exibir um jogo de luzes e brilho variáveis conforme o ritmo das canções. Pareciam árvores finas com seus galhos secos iluminados por uma espécie de aurora boreal. Aliás, quase todos os momentos de clímax do show lembravam forças de uma natureza inóspita, incontrolável e deslumbrante ao mesmo tempo, como a Islândia deve ser.

O início mais lento e frio, sensação promovida pelas luzes azuis e brancas do começo, foi progressivamente substituído por uma performance mais explosiva e intensa a cada minuto, até que um tom vermelho-sangue passou a tomar conta do ambiente, os falsetes de Jósni se mostraram cada vez mais cortantes e Orri Dýrason golpeava brutalmente a bateria. O setlist da noite revisitou quase todos os períodos da discografia do Sigur Rós. Em afirmações recentes, a banda deu sinais de que esta talvez seja a última turnê mais extensa e abrangente do grupo, que não promete sair em uma grande turnê com o próximo disco, ainda sem data para lançamento.

As explosões sonoras nos momentos mais intensos do show
As explosões sonoras nos momentos mais intensos do show foram acompanhadas de projeções gráficas em tom vermelho-sangue. Foto: Popload Gig/Reprodução.

Não me recordo de ter presenciado outro show no Brasil onde o público tenha reagido com tanta perplexidade a um espetáculo.

A antropologia caracteriza “transe” como um fenômeno religioso e social de representação coletiva, no qual o médium experimenta um sentimento de identificação com comportamentos correspondentes à determinada divindade ou entidade. Curioso. É possível que o Sigur Rós tenha atingido resultados muito próximos a um tipo de transe coletivo e momentos muito fortes de efervescência de sentimentos simultâneos em todos os presentes, provando que pouquíssimo importa em que língua (real ou inventada, universal ou incompreensível) eles estão cantando. Uma noite para nunca mais esquecer.

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Fernanda Maldonado

Fernanda Maldonado é jornalista e redatora publicitária nas horas vagas (ou vice-versa!). Natural de Curitiba, produz resenhas e entrevistas sobre música, artes visuais e teatro para revistas e periódicos independentes de cultura e arte.

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