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Vinis com erro são comuns: ‘Lemonade’, da Beyoncé, é mais um deles

Não é de hoje que as fábricas de vinil cometem erros de prensagem e “falhas humanas”, e discos com os mais absurdos e inimagináveis defeitos chegam até o consumidor final; conheça algumas outras histórias no mínimo curiosas da indústria vinílica.

Nos últimos dias, alguns veículos divulgaram uma história um tanto tragicômica a respeito do aguardado e decepcionante lançamento em vinil do álbum Lemonade, da cantora pop Beyoncé. Por um erro de prensagem na fábrica alemã Celebrate Records, a qual a Sony utiliza para produzir seus discos de vinil, o Lado A inteiro do álbum saiu de fábrica não com as músicas de Beyoncé, mas com a metade de um disco da banda punk canadense Zex.

O ponto alto da confusão foi que os discos com problema foram direto para as lojas e chegaram até as mãos de fãs e colecionadores ávidos por escutar Beyoncé em suas vitrolinhas, que não tinham nem como desconfiar do erro até colocarem a agulha nas faixas no Lado A.

“Esse disco da Beyoncé demorou muito tempo para sair em vinil”, conta a DJ e produtora da festa Só o Soul Salva em Curitiba, Isa Todt. “Às vezes você compra um disco e ele tem uma única música legal para tocar, porque geralmente são colecionadores ou DJs que compram esses materiais. Esse da Beyoncé, em particular, todas as faixas são incríveis. E eu fiquei aqui pensando: se alguma dessas faixas viesse trocada, quais teriam que ter no disco para compensar?”. Para ela, mais decepcionante ainda seria se “Hold Up”, “Sorry” e, claro, “Formation” não viessem no vinil Lemonade. Dessas três, “Hold Up” foi uma das músicas trocadas pelo punk rock canadense do Zex.

Não é de hoje que as fábricas de vinil cometem erros de prensagem e “falhas humanas”, e discos com os mais absurdos e inimagináveis defeitos chegam até o consumidor final.

Mas não foram só Beyoncé e Zex que sofreram com um pout-pourri acidental recentemente. No mesmo dia em que o Queens of the Stone Age lançou seu último trabalho, Villains, a cantora australiana Gordi também divulgou o álbum Reservoir. Nenhuma conexão prévia entre os dois discos, até que fãs relataram que o Lado B das cópias de Reservoir em vinil apresentam a segunda metade do álbum do Queens.

Não é de hoje que as fábricas de vinil cometem erros de prensagem e “falhas humanas”, e discos com os mais absurdos e inimagináveis defeitos chegam até o consumidor final. Tanto é que alguns vinis defeituosos, com o tempo, se transformaram em verdadeiros itens de desejo, procurados por colecionadores, com alto valor no mercado. Troquei uma ideia com alguns especialistas, músicos e colecionadores em geral para saber de outras histórias a respeito de erros de fabricação de certos discos de vinil.

A revolução será lenta

A primeira prensagem nacional em mono do lendário White Album, dos Beatles, veio com um erro de rotação na faixa “Revolution 1”, o que fez com que muita gente devolvesse o disco nas lojas na época e trocasse pela versão stereo. Reza a lenda que essa variação na rotação aconteceu por uma “bobeada” de um funcionário da fábrica da Odeon, que não notou que houve uma queda de energia no momento em que fazia a matriz do disco. Resultado: a música “Revolution 1” saiu bem mais lenta do que deveria, e cabeças devem ter rolado naquela fábrica por causa desse episódio.

Hoje, essa edição é vista como item raro pelos colecionadores. “Este disco apareceu aqui na loja e eu sempre mostrava aos clientes a curiosidade da rotação errada” conta Marcos Ramos Duarte, proprietário da Joaquim Livros & Discos em Curitiba e um dos idealizadores da Feira de Discos da Boca, uma das maiores do estado no ramo.

Cara ou coroa para ter “This Charming Man”, do The Smiths

“Tragicômico foi o lançamento do primeiro disco do The Smiths no Brasil”, relembra o baterista Wlademir Carlos Zechner. Segundo ele, a última música do Lado A, “This Charming Man”, veio impressa e creditada na contra capa como constando no disco. “Na minha cópia, a música não veio, e no vinil do meu amigo ela veio”, conta. “Depois de um tempo descobri que uma parte do lote tinha a faixa, e outra parte não!”. Literalmente, era cara ou coroa para poder ouvir a música no toca-discos.

Encarte constando "This Charming Man" e o vinil sem a faixa.
Encarte constando “This Charming Man” e o vinil sem a faixa. Foto: Wlademir Zechner.

E falando em The Smiths, o colecionador e fã absoluto de Morrissey e companhia Manuel Parra Selada relata que todas as edições polonesas do vinil colorido de The Queen Is Dead trazem a ordem das faixas no Lado A completamente erradas. “As três últimas músicas são as três primeiras, e vice-versa”. Para comprovar, ele me envia uma foto de sua coleção: mais de cinco vinis diferentes do mesmo álbum defeituoso. Pergunto por que ter tantas cópias de um mesmo álbum com defeito. “Além de valer bastante no mercado, são objetos muito singulares e que têm uma história, mesmo que essa história seja de um erro”, diz.

1,2,3… acabou a música: Ramones mais rápido do que nunca

Quem conhece mais de três músicas dos Ramones sabe bem que, em geral, elas não duram mais do que uma média de dois minutos cada. Timing perfeito. Mas não tão perfeito quando músicas já curtas acabam antes do tempo. Foi o que aconteceu com um lote inteiro de vinis do álbum Loco Live, lançado em 1991. No Brasil, nossa versão nacional em disco duplo foi ao mercado com as faixas dos quatro lados cortadas antes de chegarem ao final. Quase não dá nem tempo de contar até quatro, e a música acabou.

Defeitos Especiais

Outros problemas além de erros de prensagem afetaram alguns lotes de vinis ao longo das décadas. O DJ espanhol residente no Brasil Alvaro Galeano, também conhecido como DJ Zost, me contou a respeito de um vinil garimpado que veio com um defeito especial: o buraco do centro do disco é muito maior do que o normal. “Como o buraco não está exatamente no meio, a agulha não consegue acompanhar o sulco e quando toca parece um walkman com a bateria acabando”, diz Alvaro. “Comprei em um sebo em Nova York e fiquei tão feliz de ter encontrado que nem percebi o problema na hora; a sorte é que paguei US$ 0,25”. Imagine essa música tocando em slow motion:

A experiência própria

Quem nunca passou por um perrengue que atire a primeira pedra. A pessoa que vos escreve também já quebrou a própria cara com um lindo defeito em um disco de vinil. Guardando meu suado dinheiro e parcelando em suaves prestações, quis dar um presente de aniversário especial para meu parceiro, fã de Irvine Welsh e de Traispotting, assim como eu. Aguardamos umas boas semanas até chegar ao Brasil a edição especial de 20 anos da clássica trilha sonora do filme de Danny Boyle, vinil duplo, laranjado. Nosso desejo de consumo.

O aniversário já havia passado há dias e o presente mal fazia mais sentido quando ele chegou em casa. Abrimos o lacre, ansiosos. Para nossa surpresa e decepção, um dos lados do disco tinha um adesivo inteiro colado sobre todas, repito, todas as faixas. A expressão do personagem Renton estampada no adesivo ria da nossa cara. Não havia como tocá-lo.

Um etiqueta inteira com o rosto do personagem Renton colada sobre todas as faixas de um dos lados do vinil de “Trainspotting”. Foto: Arquivo Pessoal.
Um disco de vinil não é um amontoado de faixas, um disco é um conceito, uma experiência. Não à toa, estamos vivendo um espetacular revival da cultura vinílica ao redor do mundo: em 2016 foram vendidos mais de 3,2 milhões novos de LPs só no Reino Unido, um aumento de 53% em relação ao ano anterior e o número mais alto desde 1991, segundo dados apontados pela British Phonographic Industry.

Infelizmente, no Brasil não temos estatísticas sobre as vendas de discos de vinil como existe em outros países, e há inúmeros empecilhos para os amantes do formato: temos apenas duas fábricas nacionais em funcionamento, a Polysom e a Vinil Brasil, e a importação não favorece o bolso. Mas é inegável que há uma demanda de procura crescente.

Com mais gente comprando discos (novamente!), histórias curiosas como essas também voltam à tona – e volta e meia, um ou outro colecionador e amante do formato é “sorteado” ao comprar um LP com características muito próprias.

Faz parte da brincadeira.

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Fernanda Maldonado

Fernanda Maldonado é jornalista e redatora publicitária nas horas vagas (ou vice-versa!). Natural de Curitiba, produz resenhas e entrevistas sobre música, artes visuais e teatro para revistas e periódicos independentes de cultura e arte.

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