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Yeah! Curitiba vai receber o seu primeiro Girls Rock Camp

Projeto internacional com foco na formação social de meninas através da música, Girls Rock Camp terá sua primeira edição na capital paranaense em janeiro de 2018.

Trago aqui uma má e uma boa notícia. A má notícia é que o mundo continua extremamente sexista e misógino, infelizmente. A boa notícia é que as próximas gerações prometem abalar certas estruturas sociais e refutar o machismo em suas mais diversas manifestações desde bem cedo.

Aos poucos, a consciência coletiva se transforma através do questionamento de valores e claro, de muito enfrentamento. Nesse lento processo, a educação (seja ela formal ou informal) é sempre uma arma poderosa. Há alguns anos, as cidades de Sorocaba e Porto Alegre – e muito em breve, Curitiba (saiba mais no final da matéria!) – recebem uma iniciativa que se enquadra muito bem nessa estratégia, o Girls Rock Camp Brasil. Organizado de forma comunitária por grupos da sociedade civil, sem fins lucrativos e sustentando-se exclusivamente através de voluntariado e de doações no melhor estilo Do it Yourself, é vinculado ao Girls Rock Camp Alliance, que acontece em diversas outras cidades do mundo todos os anos. Sua primeira edição foi em Portland (EUA), em 2001, e hoje está presente em vários países.

O projeto consiste basicamente em uma colônia de férias voltada para meninas de 7 a 17 anos de idade, com o grande trunfo de proporcionar às participantes uma experiência imersiva de empoderamento feminino e conscientização social, utilizando a música como principal ferramenta. Aqui, o rock protagoniza muito mais no sentido de “let’s rock!” do que apenas no rock’n roll em si. O que não deixa de ser um ótimo resgate da atitude contestadora do estilo que inspirou e permanece inspirando comportamentos e outros subgêneros musicais.

Sobre valores fundamentais

Por meio de oficinas comandadas por voluntárias (todas mulheres, vale destacar), elas aprendem a tocar um instrumento, compõem juntas a letra e a melodia de uma canção e, ao final da semana, apresentam suas produções em um show aberto para toda a comunidade

O Camp funciona assim: desde o primeiro dia, as meninas são divididas em grupos que formarão bandas ao longo do processo. Guitarras, baixo, bateria, vocal: são bandas de verdade. Por meio de oficinas comandadas por voluntárias (todas mulheres, vale destacar), elas aprendem a tocar um instrumento, compõem juntas a letra e a melodia de uma canção e, ao final da semana, apresentam suas produções em um show aberto para toda a comunidade. Nenhuma menina precisa ter conhecimentos prévios sobre música e muitas pegam em um instrumento pela primeira vez na vida dentro do Camp.

O acampamento vai ainda muito além das aulas de música. Complementando a agenda, são promovidas diversas atividades de fortalecimento da auto-estima, desinibição, trabalho em grupo, defesa pessoal, discussões sobre o papel da mulher na sociedade, valorização da diversidade, aceitação social. A voluntária Carol Fernandes trabalhou por sete anos no Girls Rock Camp Montreal (Canadá) e hoje está no Brasil contribuindo e assessorando os GRCs daqui. “É sempre um ambiente muito positivo e de integração tanto entre as voluntárias quanto entre as campistas” conta. Para ela, é um modelo onde o foco não é necessariamente aprender a tocar um instrumento ou fazer música, mas acima de tudo promover o apoio mútuo entre meninas e mulheres. “Aprender a não competir, a fazer as coisas juntas: essa coisa da sociedade machista que faz as mulheres sentirem que são rivais é exatamente o contrário dentro do Camp”.

 Somos Zumbis Feministas

“(…) que comem cérebro de homem machista!”. A criatividade e bom humor desse refrão, composto pela banda da campista Valentina Dobro na edição de Porto Alegre, em janeiro deste ano, reflete um pouco a vivência das garotas ao longo do evento. Valentina participou de diversas oficinas como a de stencil, defesa pessoal, fanzine, e ao final tocou ao vivo ao lado de suas colegas no renomado bar Opinião, na capital gaúcha. Juana Dobro, mãe de Valentina, partiu de Campo Alegre (SC) com a filha só para levá-la a ter a experiência do Rock Camp em Porto Alegre. “A Tina teve uma mudança bem radical antes e depois do GRC, é uma semana muito intensa para essas meninas, são diversos aprendizados”, enfatiza Juana. Ela conta que a filha era tímida e introspectiva e a experiência ajudou a menina de 10 anos a “se libertar um pouco para o mundo”, em suas palavras. “Uma das coisas mais fantásticas do projeto é promover essa união entre as mulheres e acredito que isso falta muito no mundo, falta muito entre nós; o Girls Rock Camp vem para mostrar que é possível sim haver união feminina”.

Girls Rock Camp Curitiba

Por fim, mas não menos importante, Curitiba muito em breve também será sede de mais um GRC no Brasil. Em janeiro de 2018, acontecerá a primeira edição do evento aqui na capital paranaense e já estão rolando algumas mobilizações bem bacanas para difundir a iniciativa. Há dois meses à frente da organização do projeto na cidade, Roberta Cibin, voluntária ao lado de outras seis mulheres, está promovendo a integração de vários grupos em prol do arrecadamento de fundos e voluntariado para esse primeiro Camp por aqui.

Mãe de Lina, de apenas 11 meses, Roberta compreende a importância do fortalecimento do feminismo na sociedade. Para ela, os meninos precisam ser ensinados a ser diferentes daquilo que é imposto por uma sociedade machista, mas no caso das meninas, além de serem ensinadas a perceber o machismo no mundo, elas precisam aprender que elas podem ser diferentes, ser e fazer o que quiserem, e não apenas acatarem certos papeis sociais destinados a elas (a nós, afinal) por serem mulheres.

Em breve, serão divulgadas mais informações para quem se interessar em contribuir com o primeiro Girls Rock Camp Curitiba, seja com doações, empréstimos de instrumentos musicais, voluntariado e promoção de oficinas. Enquanto isso, é possível acompanhar as novidades através do Facebook e Instagram do GRC Curitiba, e também acessando o site oficial do projeto.

E ah, vale sempre lembrar: lugar de mulher é onde ela quiser. Let’s rock, girls.

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Fernanda Maldonado

Fernanda Maldonado é jornalista e redatora publicitária nas horas vagas (ou vice-versa!). Natural de Curitiba, produz resenhas e entrevistas sobre música, artes visuais e teatro para revistas e periódicos independentes de cultura e arte.

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