Prata da Casa

‘A Saga do Cavaco Profano’ marca a versatilidade da Machete Bomb

Novo disco da Machete Bomb, ‘A Saga do Cavaco Profano’ demonstra a versatilidade da banda e serve de exemplo de como o rock pode se reinventar a partir da fusão de diferentes gêneros e estilos.

O rock nunca foi tão homogêneo, mimético e asséptico como é nos dias de hoje. Na contramão, o movimento hip hop vem dia a dia adentrando os espaços onde antes o rock reinava dentro da música pop. Os anos 80 foram o grande divisor de águas neste sentido. Ainda que Michael Jackson incluísse guitarras em suas canções, era a união de Run DMC e Aerosmith que ditava o futuro da música pop mundial, sem esquecer os Beastie Boys e Cypress Hill, que abriram espaço para que o Rage Against the Machine se tornasse uma banda seminal para todos os grupos que, posteriormente, passearam pela fórmula funk-rap-metal.

Hoje é muito difícil na música pop você não encontrar um dedo de influência do hip hop. Mesmo o rock buscou novo cruzamento no início dos anos 2000 com o nu metal. E em Curitiba, a Machete Bomb segue sendo uma amostra do poder que a fusão do rap (e do samba) podem proporcionar ao rock ‘n roll. A grande diferença de tudo o que já aconteceu para o que a Machete Bomb faz já foi discutido quando de seu primeiro trabalho, o conjunto de EPs Samba do Sul. Em seu retorno, A Saga do Cavaco Profano, a banda vai mais longe e não se limita à inclusão do samba na sua fusão de gêneros e estilos, trazendo elementos do rap contemporâneo e doses do rap latino.

A Saga do Cavaco Profano soa muito mais pesado, trazendo samples que remetem aos anos 90 e rimas afiadas, ácidas e conectadas com o atual momento do país.

Com 7 faixas, o disco é um refresco à sonoridade do grupo. A Saga do Cavaco Profano soa muito mais pesado, trazendo samples que remetem aos anos 90 e rimas afiadas, ácidas e conectadas com o atual momento do país. É importante no resultado obtido a presença de convidados com características diferentes entre si, como Alessandro Ramos (Alienação Afrofuturista), Dow Raiz, os platenses do Reacción Ekis, o norte-americano Slick the Misfit e o cabo-verdiano MC Bing Man.

Marca do novo trabalho, a versatilidade com que a Machete Bomb flutua por diferentes influências sem tropeçar na cacofonia reforça as ótimas linhas melódicas e os arranjos, mostrando que o grupo é capaz de seguir jogando energia e brutalidade em forma de música. O coquetel de contestações que emerge das letras também reverbera nas interpretações dos músicos, essencialmente viscerais.

Em A Saga do Cavaco Profano, a banda opta por entregar um disco pesado da primeira à última faixa, sem grandes flutuações, mas ainda contendo uma cadência que vem do samba e não dá margem a dúvidas da origem dos músicos. Não obstante, é possível apontar três faixas que se destacam no álbum. “Tiro e Queda”, “O Contra-ataque” e “Temporada de Caça” são a cara deste trabalho, que mostra como o futuro do rock é acreditar na reinvenção do gênero a partir da fusão de ideias, gêneros e estilos.

Ouça ‘A Saga do Cavaco Profano’ na íntegra no Spotify

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Alejandro Mercado

Alejandro Mercado é jornalista e publicitário, com pós-graduações em Comunicação e Sociedade e Multimeios. Foi coordenador adjunto da Coordenadoria Setorial de Comunicação da Secretaria de Cultura de Campinas entre 2005 e 2007, período no qual coproduziu o Unifest Rock, maior festival universitário de música da América Latina. Foi um dos idealizadores e coprodutor do Mopemuca, projeto voltado ao fomento da produção musical autoral no interior de São Paulo.

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