Prata da Casa

Johaine, uma antítese no rock curitibano

Em um gênero predominantemente masculino, Johaine e seu EP ‘Hedonismo’ surgem como importantes e interessantes referenciais. Cantora está na “Prata da Casa” da semana.

Quando Pitty lançou Admirável Chip Novo em 2003, faltava um nome feminino relevante na “música de peso” nacional, capaz de preencher o vácuo existente e se consolidar como nome de expressão. Ainda que a cantora nunca tenha chegado a “unir todas as tribos”, seu primeiro trabalho solo abriu espaço a uma nova geração de garotas que enxergaram no rock e suas mais variadas vertentes a possibilidade de fazer carreira na música. Muitos anos depois, peguei-me ouvindo Hedonismo, o EP da curitibana Johaine.

Assim como a baiana, Johaine une riffs mais densos e letras ambiciosas em um disco sem firulas, conceitual e performático. Johaine possui um estilo muito próprio, uma estética espalhada em cada canto que permeia sua carreira. A cantora aposta em composições autorias que lhe dão luz própria, fazendo com que forma e conteúdo caminhem juntas.

É marcante em suas composições a maneira como trabalha os arranjos para que eles reflitam um lado menos suave de sua personalidade, ao mesmo tempo que não retiram a sonoridade radiofônica das quatro canções. Chegar com esta solidez ao final de um primeiro trabalho é para poucos.

É marcante em suas composições a maneira como trabalha os arranjos para que eles reflitam um lado menos suave de sua personalidade, ao mesmo tempo que não retiram a sonoridade radiofônica das quatro canções.

A faixa “Volúpia” dá uma boa ideia do que é o EP, mas não deve ser tomada como resumo da história. As quatro músicas que integram Hedonismo possuem um mesmo estilo encorpado e pesado, conferindo unidade ao trabalho, sem que uma delas se sobressaia. Outro ponto que chama atenção é a opção por cantar em português. A escolha permite que a mensagem que Johaine tem a passar seja muito mais facilmente assimilada pelo ouvinte.

A cantora parece carregar consigo a capacidade de entrar em combustão espontânea. Por trás das tatuagens e do estilo que transita entre o grunge e o hard rock, Johaine representa uma nova geração que grita de dentro para fora na tentativa de descobrir o que há em si. Mergulhada em um gênero predominantemente masculino, a curitibana ainda funciona como uma alternativa radical à representação da mulher na música, oferencendo um outro estilo, outra vivência, outro conjunto de referências.

Antítese aos clichês da mulher no rock, a cantora parece querer agarrar com unhas e dentes a oportunidade de fazer sucesso e desconstruir estereótipos. Em um disco muito sincero, mesclando peso e timbres densos com melodias e sutilezas textuais, Johaine tem a chance de chegar longe falando com propriedade sobre seu próprio universo, sobre o que a cerca – incluindo seus sentimentos.

Se a música pode funcionar como um divã, Johaine acaba por refletir as visões de mundo de outras pessoas, que veem uma similaridade nas observações feitas pela artista dentro deste caos cotidiano. Sem fazer questão de esmiuçar as metáforas do que canta, ela acaba virando, por fim, um referencial – sob diferentes perspectivas.

Ouça ‘Hedonismo’ na íntegra no Spotify

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Alejandro Mercado

Alejandro Mercado é jornalista e publicitário, com pós-graduações em Comunicação e Sociedade e Multimeios. Foi coordenador adjunto da Coordenadoria Setorial de Comunicação da Secretaria de Cultura de Campinas entre 2005 e 2007, período no qual coproduziu o Unifest Rock, maior festival universitário de música da América Latina. Foi um dos idealizadores e coprodutor do Mopemuca, projeto voltado ao fomento da produção musical autoral no interior de São Paulo.

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