Prata da Casa

A glória e o revés de ser independente

Músicos de Curitiba contam como é gerenciar sua própria arte.

Quem nunca quis ter uma banda com os amigos na adolescência? A ideia de ter seu próprio instrumento, viajar o país, conquistar fãs e fama permeia o imaginário de todo aspirante a músico, mas a realidade das bandas e artistas independentes vai bem mais além de palcos e ensaios de fundo de garagem. Falta de dinheiro ou patrocínio para necessidades básicas, como a locomoção dos instrumentos, é um risco que a independência pode trazer para quem se aventura nesse nicho.

Mas, apesar de incerta, a cena independente é movida, acima de tudo, pelo amor à arte, e quem vive (ou tenta viver) dela, tende a se agarrar tão forte à causa que vai até onde for necessário para ver o trabalho render frutos e mostrar que música não é apenas um hobby de finais de semana. E um desses frutos é o Festival Estopim, que na sua primeira edição, no final de 2017, misturou sons, pessoas, muita poesia e esforço de todas as partes para acontecer. Músicos locais compartilharam o espaço com quem veio de outros estados, e Curitiba pôde ser palco de uma grande celebração da música independente.

Mas como funciona? Se há pouco tempo assinar um contrato com uma gravadora era o sonho de consumo de quem entrava no mercado, como que Liniker, Francisco El Hombre, Mulamba e tantas outras bandas que já rodam o Brasil se apresentando conseguem sobreviver de maneira independente?

A resposta está longe de ser tão simples como escolher entre 8 ou 80, e no meio desse mar de incertezas com grandes chances de tempestades em alto mar, Lilian Soares vem remando seu barquinho desde o começo de 2017, quando decidiu que iria assumir a carreira de musicista e se dedicar exclusivamente à Tuyo, banda da qual participa com a irmã, Layane, e o marido Jean. “É claro que ninguém que entra nesse rolê de cantar as próprias músicas que escreveu entra porque quer ser muito rico ou para seguir carreira. A gente dá valor para outras coisas, queremos sentir prazer vivendo e entrando no palco… Então eu penso, vamos morrer e é isso que eu quero? Ser secretária pro resto da minha vida? Eu não quero, tem gente que quer, e tudo bem!”.

Enquanto Lio – como Lilian é conhecida entre os amigos e fãs – me contava sobre sua recente saída do mercado formal de trabalho, Jean passava frio ao lado de fora do estúdio onde os entrevistei. O marido continuou, durante toda nossa conversa, tentando negociar um sistema que os ajudaria com os agendamentos de shows. Na Tuyo, cada um faz um pouquinho: o fato de serem uma “empresa” familiar tornou as despesas um pouco menos pesadas, o que possibilitou ao trio economizar gastos desnecessários para poder investir na banda.

Nesse momento, entra a parte que ninguém fala: não basta só tocar, tem que estudar, saber planilhar custos e aprender vender o peixe. Se não, não tem show, e sem show, não tem trabalho. Manter-se em evidência, para a Tuyo, é um constante apertar e afrouxar a corda dos favores. Nem sempre é possível fazer todo o processo da maneira ideal, mas quando eles percebem que a causa vale a pena e converge com os valores do trio, é como se o transbordar da alma e a sensação de que estão no caminho certo se tornasse parte do pagamento.

O sentimento de troca com o público tem sido a força motriz da família: “você sai da solidão de um trauma, o transforma em um poema e ele vira uma música. Então ele se torna uma outra coisa, que está fora de você e quando você vê, já não está mais nas suas mãos, sabe?!” Assim Lay, que protagoniza as músicas do EP Pra Doer, considerado um dos melhores álbuns paranaenses de 2017, descreve o orgulho de ver a expansão da banda a cada dia que passa.

‘Você sai da solidão de um trauma, o transforma em um poema e ele vira uma música. Então ele se torna uma outra coisa, que está fora de você e quando você vê, já não está mais nas suas mãos, sabe?’ Lay

Entre os artistas, é unânime a beleza de poder gozar da liberdade que a música independente proporciona enquanto capital intelectual. Otávio Madureira – ou só Madu, para o público – decidiu que seria músico ainda menino, numa época em que uma tal de Machete Bomb nem sonhava que um dia existiria. Quando o perguntei sobre as dificuldades de caminhar de maneira independente, Madu, que comanda o cavaquinho do Machete Bomb, ressaltou que ter uma equipe é algo que pode até fazer falta às vezes, mas para ele, a possibilidade de trabalhar com vários artistas diferentes, sem depender de um único estúdio, é ainda mais legal que estar preso a um contrato atualmente.

O músico, assim como o restante da banda, se reveza em mais de um emprego dentro do setor musical. Além do Machete, Madu também é produtor, tem seu próprio estúdio de gravação e faz trabalhos para outros artistas da cena, tanto local como nacional.

Se administrar uma banda deve ser difícil, imagina então um, dois, três festivais de música… Leticia Martins, que é produtora há cerca de cinco anos, faz parte de outra ponta do setor musical, a de pessoas que organizam festivais como o Psicodália e o Estopim, onde a Machete Bomb e a Tuyo já se apresentaram.

A produtora explica que não é fácil erguer um evento do zero, já que não há verba inicial, é preciso encontrar fomento de todas as fontes possíveis, seja ela pública ou privada. Outro grande desafio é entender qual a narrativa que será construída e a maneira de transmiti-la ao público, afinal é ele quem vai dar o tom do festival. Para ela, a emoção está em perceber que mesmo após todo o esforço demandado, ainda sobrou diversão junto dos presentes: “se está todo mundo muito feliz, se está tudo correndo bem, a gente fez um bom trabalho!”.

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Grasieli Farias

Grasieli Farias cresceu em Loanda, no interior do Paraná. É jornalista e nas horas vagas discute sobre comportamento em seu canal "Não Sei, tô Loka", no YouTube, além de escrever sobre cultura no portal Infected By Culture.

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