Prata da Casa

Leis do Avesso e seu ousado segundo disco

Trocando em Miúdos: Resgatando a ironia do rock paranaense e mesclando com bom trabalho de melodias e letras, Leis do Avesso fez de seu segundo disco um trabalho ousado. Banda é a “Prata da Casa” desta semana.

A julgar pelo início de “Seres de 5ª Categoria num Ranking de 5 Categorias”, faixa que abre o disco homônimo, Seres de 5ª Categoria num Ranking de 5 Categorias, segundo disco da curitibana Leis do Avesso, estamos diante de uma banda com muito tempo de estrada. O novo trabalho, lançado no último ano, representa um passo adiante, uma obra de transposição.

Leo Scholz, Leandro Delmonico, Celso Andrei e Rafael Vicente entregam uma estrutura quase linear, na qual a Leis do Avesso faz um passeio por algumas das vertentes do rock setentista e as fusiona com elementos do pós-punk e da música popular.

E, ao contrário do que poderia soar essa fusão, cada minuto do novo disco foge às caricaturas do rock nacional, acrescentando texturas de um rock moderno, porém, sem urgência, apostando na cadência de linhas de baixo acertadas e riffs bem estruturados, dando espaço para que cada faixa de Seres de 5ª Categoria num Ranking de 5 Categorias funcione como um elemento único dentro da obra, coeso isoladamente e homogêneo quando unido.

Os arranjos do disco também abrem espaço para o bom trabalho vocal de Scholz, implodindo em refrões contagiantes, deixando aparente que o grupo já definiu sua identidade artística, reduzindo a presença de influências e confiando apenas em suas qualidades através de recortes meramente referenciais.

Ainda que haja uma quebra em “Suicide o Seu Amor por Mim” – na qual fazem um som bem puxado para o pop mineiro da década de 1990 –, há uma autoironia curiosa no disco, marca constante no rock feito no Paraná e que marca presença aqui. Algo está em decomposição, sejam as relações humanas, o mundo, as cidades. “Caminhos Estranhos”, por exemplo, passeia nessa desconstrução, gritando que pouca coisa (ou, no caso, nada) nos une com uma voz raivosa, na faixa com primoroso arranjo instrumental e que dá espaço até para um sax jazzístico numa interpretação suja, crua, meio noir – um lance meio Frank Miller em Sin City.

Os arranjos do disco também abrem espaço para o bom trabalho vocal de Scholz, implodindo em refrões contagiantes, deixando aparente que o grupo já definiu sua identidade artística.

“Linhas Paralelas” e “A Estupidez” seguem esse esmiuçar da vida. Enquanto na primeira o grupo diz que “a vida é um castigo para quem se acovarda e deixa o medo vencer”, na segunda a Leis do Avesso declama que a liberdade é capaz de derrotar a estupidez. Os contrastes e ambiguidades da vida vão sendo apresentados canção após canção, num jogo de cena em que a banda dá ao ouvinte a responsabilidade de assumir uma posição interpretativa das músicas.

Não há receitas ou fórmulas, apenas um cenário em que vozes e discursos podem soar de formas distintas para públicos distintos. E assumir esse risco é um grande sinal de maturidade para um grupo. Exemplo claro desse posicionamento a Leis do Avesso deixa em “Pluma de Chumbo”: “Eu quero aprender, mas a vida não tem sido uma escola / Eu quero acreditar, mas a fé me parece tão ingênua / E quero incendiar o meu teatro de absurdos”, canta Scholz.

“Quinta Categoria” encerra o disco numa esquizofrenia sonora, em que recortes de áudios montam um embate entre discursos dissonantes, entre desmoronamentos, relatos de episódios da humanidade (tem espaço até para um áudio de Luciano Huck) em confronto com a tecnológica e robótica voz do Google Tradutor repetindo o nome da faixa várias vezes.

Em conjunto, Seres de 5ª Categoria num Ranking de 5 Categorias é um álbum ousado, menos na forma e mais no conteúdo. Resgata a peculiar ironia do rock paranaense e recheia isso com boas melodias, fazendo com que esbocemos um sorriso largo. Como já disse uma vez nesta coluna, o rock nacional sempre renasce em Curitiba. Bom ver que não estava enganado.

Ouça Seres de 5ª Categoria num Ranking de 5 Categorias na íntegra no SoundCloud

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Alejandro Mercado

Alejandro Mercado é jornalista e publicitário, com pós-graduações em Comunicação e Sociedade e Multimeios. Foi coordenador adjunto da Coordenadoria Setorial de Comunicação da Secretaria de Cultura de Campinas entre 2005 e 2007, período no qual coproduziu o Unifest Rock, maior festival universitário de música da América Latina. Foi um dos idealizadores e coprodutor do Mopemuca, projeto voltado ao fomento da produção musical autoral no interior de São Paulo.

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