Prata da Casa

O que quer Cabes MC?

Trocando Em Miúdos: Parceria com DJ Didones, novo single "O Que Cê Quer" de Cabes MC revela uma amostra do repertório do rapper curitibano, com beats bem arranjados e versos com um quê filosófico.

Novidade nas boomboxes e pick-ups de Curitiba. Na última segunda-feira (30), o rapper Cabes MC lançou na rede o single “O Que Cê Quer”.

Acho que para falar de Cabes e de seus rastros por CWBeats, é preciso antes comentar sobre a atual cena do hip-hop curitibano. E quando digo hip-hop, não estou me referindo àquilo que a mídia tradicional compreende como um rótulo musical, que engloba num mesmo balaio Jay Z e Jennifer Lopez. Estou falando do movimento que surgiu na periferia de Nova York e que ultrapassa as barreiras da música, abarca outras linguagens da arte e se estende pelo estilo de vida de milhões de pessoas ao redor do mundo.

Em Curitiba, o rap (na batida dos DJs e rimas dos MCs), o breaking e o graffiti estão em ebulição, seja nas pickups ou nas batalhas de rima, nas rodas 1×1 ou 7 to smoke, nos muros da cidade ou em tudo isso junto e misturado. Citando apenas alguns picos, a capital é palco do Street of Styles – Festival Internacional de Graffiti, do Festival Internacional de Hip-Hop de Curitiba, do Prêmio Paraná Hip-Hop, da Batalha do MUMA, da Batalha da Cultura, da Batalha do Eucaliptos, do Itália Alive, da Caravana Cultura da Periferia ao Centro, do Sarau Periférico, da festas I Love CWBeats e Boombox – Keep It Real, entre outros. Toda essa agitação faz com que o hip-hop seja hoje a linguagem artístico-cultural em maior evidência pelas ruas da cidade, tanto em número de adeptos e de eventos, quanto na atuação dessa galera para fazer o movimento ganhar força.

“Cabes pode não ser o Mano Brown da denúncia, mas também está longe de ser o Projota dos hits melosos.”

Na “quebrada” que revelou DJ Primo e Karol Conka, Cabes MC é um dos principais expoentes em atividade. Além de rapper, é beatmaker, agitador cultural e responsável pelo selo, estúdio e produtora Track Cheio. Em sua discografia, constam participações em coletâneas de rap e os discos solo Todo Dia É Assim (2009) e Pra Onde As Pessoas Vão (2012), além do EP Revolução Constante, Evolução Permanente (2013), todos lançados por seu selo independente.

MC e beatmaker, Cabes é responsável pela Track Cheio, produtora independente de Curitiba. Foto: Divulgação.
MC e beatmaker, Cabes é responsável pela Track Cheio, produtora independente de Curitiba. Foto: Divulgação.

Um aspecto que chama a atenção na trajetória do MC é a formação em Teoria Musical no Conservatório de MPB de Curitiba – um diferencial no cenário do rap da capital. A versatilidade rítmica se mostra bastante presente no trabalho do músico, que contaminou a tradição da cadência dos beatmakers com uma expertise musical mais apurada. O que se pode ouvir em suas canções não revela necessariamente uma incursão por outras vertentes musicais – a exemplo do ecletismo bem sucedido dos trabalhos de Marcelo D2 ou de Criolo. A experimentação de Cabes está muito mais relacionada à proposição de arranjos sofisticados nos sintetizadores e novas combinações dos beats, só que mantendo a identidade clássica do rap – ou seja, a linha harmônica bem marcada que dá ritmo às rimas. Em outras palavras, trata-se de uma revisitação moderna ao estilo já consagrado.

Se as batidas diferenciadas têm conquistado reconhecimento na cena do Sul e Sudeste, por outro lado as letras de Cabes não são tão bem aceitas pelos rappers mais tradicionais (a galera partidária da vertente Old School). Isso porque as canções não possuem a conotação social que marcou o rap nos anos 1990 e 2000, quando artistas como RZO, Sabotage (com o lendário Rap é Compromisso, álbum de 2001) e, principalmente, Racionais MCs invadiram as paradas musicais denunciando as mazelas da sociedade. O rap de Cabes não é o rap dos conflitos da periferia, tampouco da valorização étnica do movimento negro. Seria, como se diz no jargão jornalístico, um rap menos “mundo cão” e mais “mundo cãozinho”.

Cabes pode não ser o Mano Brown da denúncia, mas também está longe de ser o Projota dos hits melosos (vide a parceria do paulistano com a funkeira Anitta). As letras, em sua maioria, retratam a cidade como cenário das ações (exemplo maior disso é o hitA Cidade”, do disco Pra Onde As Pessoas Vão) ou refletem aspectos comuns a todo ser humano. Outra faceta está nas letras metalinguísticas, que tratam sobre o hip-hop em Curitiba, como na faixa “Estilo das Ruas”, de Revolução Constante, Evolução Permanente. É o rap falando dele mesmo.

À exceção de canções relacionada como “A luta continua” – uma crítica mordaz ao sistema político no país -, o teor mais filosófico dita a “poética” de Cabes. Assim como em “Cada Olhar Mudo” – single lançado em janeiro deste ano -, o conteúdo abstrato também permeia “O Que Cê Quer”. Com letra autoral e batida assinada pelo DJ e beatmaker Didones, a música é bem arranjada, na levada do dub jamaicano. Os versos, dedicados a mentes inquietas, falam sobre a busca por novas perspectivas quando o caminho parece não ter saída; quando o grande lance está em focar em uma meta e não se arrepender das escolhas. Outra vez, não se trata de uma crônica do dia-a-dia de comunidades em vulnerabilidade ou das injustiças sociais. Embora seja historicamente reconhecida pelo caráter pedra no sapato, a trilha do rap atual não está presa a isso. Vários artistas do rap, aliás, estão apontando para letras mais amenas (e, da mesma forma, sendo criticados pelos puristas).

Refinamento musical, letras com um quê meditativo e um jeitão camaleônico pra se adaptar a situações das mais diversas – ou adversas. O mesmo artista que se apresentou para 30 mil pessoas no Go Skate Day 2014, toca também na calçada da Pizza na Vicente Machado. Da mesma forma, já se aventurou com um show multiartístico no Fringe do Festival de Teatro e até em eventos sociais que tratavam sobre proteção animal ou a importância da leitura. É tipo camaleão mesmo, com a missão de levar o rap a todos os públicos.

E o que quer Cabes MC? Cravar seu nome como rapper e beatmaker, colocar a Track Cheio na trilha dos principais lançamentos da cidade, transitar entre a elite do movimento (onde é bem aceito) e a cena periférica (onde não tem tanta força), agitar a cultura hip-hop curitibana? Acredito que a resposta seja um misto de tudo isso. É justamente a versatilidade que faz dele um dos melhores e mais atuantes artistas de rap na CWBeats de quem curte um bom som.

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Anna Carolina Azevedo

Anna Carolina Azevedo é leitora de livros e jornais, quadros e quadrinhos, de gente e da gente. Formada em Jornalismo, atuou no programa de incentivo à leitura “Curitiba Lê”, desenvolvido pela Fundação Cultural de Curitiba. Possui interesse por Literatura (o que inclui uma passagem pela graduação em Licenciatura em Letras – Português), cultura Hip-Hop e demais linguagens artísticas. É autora do livro-reportagem “Dinamite – Uma tragédia em Curitiba” (Secretaria de Estado de Cultura/PR - 2010).

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4 thoughts on “O que quer Cabes MC?”

    1. Classe demais a música!
      Quanto ao texto, obrigada pela leitura. Precisamos cada vez mais colocar o hip-hop em foco. Como escrevi, é o movimento cultural mais ativo em Curitiba na atualidade e, no entanto, ainda sofre preconceito dos veículos de comunicação tradicionais e permanece à margem das pautas jornalísticas.
      Salve o rap, o breaking e o graffiti, estilo das ruas de CWBeats.

  1. Ótimo texto. Conheci o trabalho do Cabes há quase 2 anos – por meio da autora desse texto, claro. E curti! Deixei o pré-conceito de lado e vi que o hip hop vai muito mais além do que a grande massa (acha que já) conhece. Agora que eu conheço melhor o movimento, eu tô em paz e me sinto bem.

    1. O bacana em toda multiplicidade do trabalho do Cabes é que ele consegue transitar por vários espaços e, com isso, alcançar diversos públicos – dos fãs do rap e adeptos ao hip-hop à galera que não costuma ouvir esse estilo (mas que, quando ouve caras como o Cabes, descobre um novo ritmo e passa a respeitá-lo).
      Conheci o som do Cabes em 2013, em um show ao qual eu tinha ido para ver uma banda de rock. E lá estava ele, dividindo o palco com a Punkake e falando sobre ritmo & poesia. Vendo ele, eu pensei “meu, é disso que eu tô falando, a gente precisa fugir das obviedades e misturar tudo, quebrar preconceitos e (e)levar a arte a todos os públicos e em todas as suas possibilidades”. A partir de então, comecei a descobrir seu trabalho, primeiro assistindo ao videoclipe “Não Nasci pra Ensinar” e, depois, ouvindo e curtindo o excelente “Pra Onde as Pessoas Vão”.

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