Prata da Casa

O dinamismo, a coerência e o experimentalismo da Peixe Cobra

Disco da Peixe Cobra é mais um dos grandes lançamentos do post-rock curitibano.

O post-rock transita em uma linha muito tênue. De um lado, a efemeridade, o não-tema, a falta de coerência nas melodias e o excesso de complexidade; do outro, melodias crescentes, arranjos poderosos, ritmos grandiosos e uma sonoridade apaixonante. São poucos os casos em que os grupos de post-rock conseguiram emplacar todos (ou a maioria) dos elementos do “lado positivo”.

Curitiba, que já há algum tempo formou uma cena de respeito do gênero, acaba de ganhar mais um bom integrante. Peixe Cobra, o disco homônimo do quarteto formado por Guilherme Neves, Fernando Tokarz, Rick Pacheco e Giva Farina, reúne 10 canções, algumas delas pequenas transições, em um dos ótimos lançamentos feitos pela Onça Discos.

Há dinamismo, coerência e experimentalismo muito bem dosados, prestando tributos às suas influências, como os norte-americanos do Tortoise, por exemplo, mas também oferecendo versatilidade e um certo frescor melódico.

Parece bastante apropriado dizer que a banda consegue arquitetar sua musicalidade dentro dos bons padrões do post-rock, andando por terrenos corajosos, buscando explorar as dimensões e profundidades oferecidas pelo gênero. Há dinamismo, coerência e experimentalismo muito bem dosados, prestando tributos às suas influências, como os norte-americanos do Tortoise, por exemplo, mas também oferecendo versatilidade e um certo frescor melódico – especialmente por não optar por uma estética bucólica, uma ausência muito bem-vinda.

Esta natureza mais lúdica de Peixe Cobra parece surgir a partir desse amálgama de referências complexas, passando ao largo de tentar recortar elementos superficiais dos variados gêneros dos quais os músicos da Peixe Cobra resgatam inspirações. Há um grande esforço da banda em usar elementos sônicos diversos, expandindo o que convencionamos como um post-rock “tradicional”. Isso torna a sonoridade de Peixe Cobra repleta de camadas e níveis, que podem ser encaradas, interpretadas e sentidas sob diferentes perspectivas, revelando ricas tessituras.

Se o gênero por vezes parece ter algumas armadilhas, o álbum parece ser eficaz em fugir de cada uma delas; não emula musicalidades já feitas e erige uma paisagem sonora bem estruturada, do início ao fim. É claro que o post-rock ainda guarda um distanciamento do público médio, em especial pela ausência, na maioria dos casos, de letras, mas também pela falta do hábito de consumo da música instrumental, vista tanto como uma música excessivamente erudita como pouco acolhedora e até arrogante, muito pela complexidade de alguns arranjos ou mesmo do virtuosismo que ainda é possível de ser encontrado.

Contudo, a Peixe Cobra e os demais grupos locais, como o ruído/mm, por exemplo, parecem conseguir organizar essas sutilezas com contornos audaciosos, mas também singelos, prosperando por sua intensidade ímpar. Um bom calor para uma cidade conhecida por sua frieza.

Ouça ‘Peixe Cobra’ na íntegra

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Alejandro Mercado

Alejandro Mercado é jornalista e publicitário, com pós-graduações em Comunicação e Sociedade e Multimeios. Foi coordenador adjunto da Coordenadoria Setorial de Comunicação da Secretaria de Cultura de Campinas entre 2005 e 2007, período no qual coproduziu o Unifest Rock, maior festival universitário de música da América Latina. Foi um dos idealizadores e coprodutor do Mopemuca, projeto voltado ao fomento da produção musical autoral no interior de São Paulo.

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