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O dream pop místico da Golden Cameleon

Com um disco por vezes melancólico e outras expansivo, peruanos da Golden Cameleon apresentam um dream pop recheado de misticismo.

Tão presente a partir dos distantes anos 1980, o dream pop vem ganhando espaço novamente entre grupos na América Latina, especialmente aos que se nutrem de influências como a psicodelia dos anos 70 ou do shoegaze do final da década de 1980. No vizinho Peru, a Golden Cameleon chama a atenção com seu trabalho, fincado justamente na preocupação de oferecer texturas e atmosferas sonoras e ambientais juntamente à sua melodia repleta de sensibilidade.

Formado no verão de 2015, em Lima, o grupo une cinco cabeças voltadas a criar uma experiência única, capaz de oferecer paisagens sonoras e letras profundas que se entrelaçam ao longo do disco. Por vezes melancólicos, outras niilistas, lançaram em 2017 seu primeiro álbum completo, o místico Quillazú. O termo com origem indígena, provindo das comunidades yanesha, significa, em português, “rio da lua”. Para os Yanesha, a música possui um papel essencial, que cerca um de seus mitos mais relevantes, segundo o qual, antes deste povo amazônico conhecer a música, viviam em guerra e sem vínculos sociais entre si.Golden Cameleon - Quillazú

Quillazú é recheado deste mesmo misticismo, mais como um subtexto que une suas composições, quase imperceptível pela sutileza com que o envolve, do que explícito liricamente, por exemplo.

Quillazú é recheado deste mesmo misticismo, mais como um subtexto que une suas composições, quase imperceptível pela sutileza com que o envolve, do que explícito liricamente, por exemplo. O grupo se faz valer de estruturas básicas do gênero, mas se esforça também em fugir de uma rigidez estética. Por isso, as mudanças de vocal e mesmo as guitarras que se entrelaçam e desentrelaçam continuamente criam uma identidade muito própria para a Golden Cameleon, difícil de rotulá-los, enquanto traça um parâmetro sobre o qual é possível compreendê-los e até decifrá-los.

Concomitantemente, a banda salpica elementos mais característicos do pop em seu som, distanciando disco e quinteto tanto do pedantismo musical, quanto da música de nicho. Importante frisar que as sutilezas impressas no trabalho do grupo peruano também não chegam a resvalar naquela despretensão excessiva, típica da não-canção.

A Golden Cameleon tem uma proposta calcada em uma visão etérea, mas não se esquecem de buscar, ainda que de forma indireta, emergir de maneira pulsante a ponto de chegar no público com uma mensagem que se pretende ser pertinente, levando em consideração, é claro, todo o contexto em que se insere o grupo e seu fazer artístico. Sua proposta tem uma particularidade dentro do dream pop, e não apenas do universo hispânico, mas das idiossincrasias que marcam este país tão plural que é o Peru e do qual os cinco músicos – Marianella Nuñez, Jair Carrizales, Hugo Huanqui, Dan Quijada e Alejandro Vidal – são reflexo.

Em última instância, os cinco dão uma amostra de como a música é um organismo vivo, que se altera e nos altera em uma mesma intensidade. Uma grata descoberta.

NO RADAR | Golden Cameleon

Onde: Lima, Peru.
Quando: 2015.
Contatos: Facebook | Twitter | Instagram | YouTube | Bandcamp

Ouça ‘Quillazú’ na íntegra no Spotify

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Alejandro Mercado

Alejandro Mercado é jornalista e publicitário, com pós-graduações em Comunicação e Sociedade e Multimeios. Foi coordenador adjunto da Coordenadoria Setorial de Comunicação da Secretaria de Cultura de Campinas entre 2005 e 2007, período no qual coproduziu o Unifest Rock, maior festival universitário de música da América Latina. Foi um dos idealizadores e coprodutor do Mopemuca, projeto voltado ao fomento da produção musical autoral no interior de São Paulo.

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