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La Luz Mandarina, a anomalia underground boliviana

Entre uma sonoridade moderna e o resgate de ritmos e gêneros mais antigos, os crucenhos da La Luz Mandarina abrem espaço na cena boliviana com o indie e o rock alternativo.

Responda rápido: o que você conhece de música boliviana? Se sua resposta esteve relacionada à música folclórica local, você está na mesma que boa parte dos brasileiros. É pensando em apliar esse leque sonoro que a banda da “Radar” de hoje vem de lá: La Luz Mandarina.

Ainda há uma barreira quando o assunto é a música feita na América do Sul. Mesmo com grupos argentinos e uruguaios ganhando espaço em rádios, players e festas com temática latina em território brasileiro, grupos de países como Peru e Bolívia ainda sofrem resistência. O pior é que a resistência aqui diz menos sobre o desgosto pela sonoridade ou pelo idioma espanhol, trata-se do puro desconhecimento do que se faz lá.

Esta mesma coluna já trouxe alguns artistas locais, como Mammut e Avionica. Formada em Santa Cruz de La Sierra, a La Luz Mandarina é um septeto composto por Daniel, Sebastián, Diego, Ángel, Mateo, Pablo e José, com um EP e um disco completo lançados. O grupo está preparando seu segundo EP, de maneira já bem distante da rusticidade do primeiro, gravado totalmente independente em uma casa, no melhor do faça você mesmo.

Vindo de alguns projetos que não haviam dado certo, próximo a 2012 Pablo decidiu que gravaria as canções que havia composto, em sua própria casa, sem nenhuma intenção de tornar aquilo uma banda. A ideia inicial eral imprimir a complexidade que ele trazia das audições de discos de Lou Reed e dos Beach Boys, mas incluindo, também, outras referências.

Tanto o EP quanto o disco Paliza são carregados com uma pegada indie meio retrô. Ainda que haja uma carga de contemporaneidade na música feita pela La Luz Mandarina, os rapazes passeiam em muitas referências dos anos 80, do dreamp pop à new wave, além de dar uma roupagem moderna a sonoridades ainda mais antigas. “Somos uma banda de sete, então imagine que os sons e referências vêm de todas as partes”, conta Pablo Miño, com que conversamos diretamente de Santa Cruz. “Ultimamente estivemos ouvindo discos de Violeta Parra, que não é roqueira e nem tem nada relacionado com o pop, mas sua música tem o poder de comover, que é algo que nos instiga a ter uma banda”, explica.

Paliza, o álbum completo lançado em 2016 (e que você pode ouvir logo abaixo), ofereceu a oportunidade para que saíssem em turnê por algumas cidades bolivianas, entre elas Cochabamba e La Paz. Dessas experiências adquiridas durante a gira do álbum deve resultar o próximo EP, previsto para ser lançado em 2018.

Cientes de que vivem em um país que é visto externamente como um grande centro de consumo e produçãde cultura folclórica, Miño faz questão, sabiamente, de exaltar esse lado da música local. “Se não há um laço evidente [na música que fazemos], temos muito respeito e admiração [pela música tradicional boliviana].

Se há algo que podemos, definitivamente, apontar como semelhante na música independente feita na Bolívia e no Brasil é a dificuldade em abrir espaços frente a uma infinidade de artistas pipocando a cada dia.

Se há algo que podemos, definitivamente, apontar como semelhante na música independente feita na Bolívia e no Brasil é a dificuldade em abrir espaços frente a uma infinidade de artistas pipocando a cada dia. Mas Pablo vê que as tecnologias possam ser um pequeno divisor de águas dentro deste contexto. “Somos uma banda pequena e independente, então nos sentimos surpreendidos quando, de repente, alguém de algum lugar mais distante, assim como você, chega até nós para falar sobre nosso trabalho, nosso disco”. Para o músico, no entanto, gêneros alternativos ainda estão muito restritos ao underground boliviano. “Por isso a atenção da imprensa de outros lugares é muito positiva para nós e para o nosso projeto”.

No grupo, como em muitos dos artistas independentes, apenas alguns integrantes estão dedicados exclusivamente à música, enquanto outros dividem o tempo com “trabalhos oficiais”, como Sebastián, por exemplo, que é ufólogo, ou Pablo, que é ilustrador. “Nos mantemos ocupados e vamos equilibrando os mundos dentro do possível”, contou à publicação LaCarne Magazine.

Para o integrante da La Luz Mandarina, uma forma eficaz de furar o bloqueio da música mainstream seria o estabelecimento de uma unidade entre os músicos que compõem essa cena alternativa. “Poderia crescer o intercâmbio entre as bandas do nosso gênero, deveríamos aprender com os metaleiros, por exemplo, que tem essa cultura de cooperação e difusão”.

Regra da coluna quando entrevistamos artistas de fora do Brasil, pedi a Pablo que nos indicasse artistas que deveríamos ter em atenção, o que, segundo o próprio, é uma tarefa complicada. “Muitas das coisas que gostamos nem tem a ver com rock, como a folclórica Savia Andina ou a cumbia dos Los Ronisch”, cita. Já entrando no âmbito do rock, o músico cita os grupos Charango, Gatodiablo, Taki Ongoy, Daniel Abud e Villa Victoria Sound System. “São as bandas que nos parecem mais interessantes”. Pois mãos à massa conhecê-los.

NO RADAR | La Luz Mandarina

Onde: Santa Cruz de La Sierra, Bolívia.
Quando: 2012.
Contatos: Facebook | YouTube | SoundCloud | Bandcamp

Ouça ‘Paliza’ na íntegra no Spotify

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Alejandro Mercado

Alejandro Mercado é jornalista e publicitário, com pós-graduações em Comunicação e Sociedade e Multimeios. Foi coordenador adjunto da Coordenadoria Setorial de Comunicação da Secretaria de Cultura de Campinas entre 2005 e 2007, período no qual coproduziu o Unifest Rock, maior festival universitário de música da América Latina. Foi um dos idealizadores e coprodutor do Mopemuca, projeto voltado ao fomento da produção musical autoral no interior de São Paulo.

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