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Os Descordantes é mais um segredo acreano

Inventivos e radiofônicos, acreanos da Os Descordantes evidenciam que ainda precisamos ampliar nossa visão sobre a música feita no Brasil. No “Radar”: Os Descordantes.

O Acre guarda mistérios, mas nada dessas bobagens preconceituosas que boa parte de nós já disse por aí como se fosse uma brincadeira inofensiva. O Acre guarda mistérios pela grande distância geográfica para o Centro-Sul brasileiro. Em virtude disto, convencionou-se crer que o Acre e os produtos culturais que de lá vêm possuem características muito mais próximas da Bolívia, por exemplo, do que de nós aqui no Paraná.

Não que o perfil, a personalidade e as idiossincrasias não possuam influências oriundas de além das fronteiras de nosso país; é que ao não conseguirmos nos enxergar impressos na cultura feita nas cidades acreanas, por exemplo, aceitamos que em alguma medida eles não são parte de nós.

A “Radar” desta semana foi até Rio Branco, capital do Acre, para encontrar Os Descordantes. Formado no final de 2010, o grupo é composto por George Naylor, Dito Bruzugú, Saulo Olímpio e Heriko Rocha. Com um disco lançado em 2014 (Espera a Chuva Passar) e outro que deve sair em março deste ano (Quietude), a banda já foi destaque nacional e internacionalmente com o clipe de “Hoje de Manhã”, uma das faixas do primeiro álbum. Lançado durante o encerramento do Festival Pachamama – Cinema de Fronteira, o filme dirigido pelo cineasta Sérgio de Carvalho foi pauta em grandes veículos de comunicação no Brasil, além de ter sido reproduzido no site Sound and Colours. Mas, afinal, o que há por trás deste grupo a ponto de torná-lo mais um dos segredos acreanos?

Uma das grandes virtudes da Os Descordantes é fazer um som alternativo que flerta com o pop e a MPB sem soar pastiche, nem tampouco procurar repetir a sonoridade de seus conterrâneos do Los Porongas.

Uma das grandes virtudes da Os Descordantes é fazer um som alternativo que flerta com o pop e a MPB sem soar pastiche, nem tampouco procurar repetir a sonoridade de seus conterrâneos do Los Porongas. A pitada que caracteriza bem a música da banda é percebida nos arranjos de guitarra que emprestam pinceladas da estética kitsch fusionadas com elementos mais alternativos, não resultando em um pop-brega, mas justamente se valendo dele como mote criativo. Faixas como “Três Dias” e “Sair Daqui” representam bem essa verve criativa que, talvez até sem ter pretensão de obter tais resultados, exala do trabalho inicial dos meninos de Rio Branco.

Mas não é só o kitsch que dá as caras em Espera a Chuva Passar. Há um bom apanhado de pop, de rock, de indie e MPB no registro, seja na encantadora “Hoje de Manhã”, seja na beatle-johnlennonzística “Enquanto Puder”, seja no indie-pop de “Não Me Leve a Mal”.

Com um som tão maduro, coeso e radiofônico, não seria nada de se espantar que o quarteto alce voos mais altos a partir de seu segundo álbum. Em entrevista concedida à afiliada de Globo no Acre, Dito e George disseram que o novo trabalho será mais maduro e mais refinado. Se mantida esse DNA inventivo, Os Descordantes irão, definitivamente, deixar de ser um segredo acreano para tornarem-se uma realidade brasileira. Assim esperamos.

NO RADAR | Os Descordantes

Onde: Rio Branco, Acre.
Quando: 2010.
Contatos: Facebook | SoundcloudTwitter | YouTube

Ouça ‘Espera a Chuva Passar’ na íntegra no Spotify

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Alejandro Mercado

Alejandro Mercado é jornalista e publicitário, com pós-graduações em Comunicação e Sociedade e Multimeios. Foi coordenador adjunto da Coordenadoria Setorial de Comunicação da Secretaria de Cultura de Campinas entre 2005 e 2007, período no qual coproduziu o Unifest Rock, maior festival universitário de música da América Latina. Foi um dos idealizadores e coprodutor do Mopemuca, projeto voltado ao fomento da produção musical autoral no interior de São Paulo.

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