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Foto: Reprodução.

O Brasil vive, musicalmente falando, uma safra riquíssima, o que evidencia que nossa cultura é cíclica e totalmente baseada na antropofagia proposta por Oswald de Andrade. Qualquer apontamento torna-se, imediatamente, um crime hediondo, afinal, gosto é um elemento subjetivo da vida. Contudo, corro o risco ao afirmar categoricamente que não há, neste abril do ano de dois mil e dezessete, banda maior no país que a BaianaSystem.

Ciente do peso da frase em um país onde Céu, Metá Metá, O Terno, Liniker, Wado e Francisco, el Hombre marcam território com suas obras potentes – e onde Elza Soares entregou o disco mais importante deste, ainda, novo século – , abraço o perigo e sigo firme no que digo. Razões transbordam. Se BaianaSystem (2010) não repercutiu tanto quando de seu lançamento, Duas Cidades não foi apenas um dos melhores discos de 2016, mas já abriu espaço como um dos álbuns mais importantes lançados na última década.

Um dos principais méritos de Duas Cidades, e consequentemente da BaianaSystem, é trazer um novo sopro de frescor à cena brasileira, que pouco tem apresentado em termos de inventividade. Oras, uma das inúmeras críticas que se faz à música contemporânea brasileira é o quanto ela tem emulado o que foi feito em décadas passadas sem inserir nenhuma dose de novidade. Ou seja, faz-se bem, mas dentro de limites muito bem definidos. Há quem aponte nisso a vitória da preguiça do artista contemporâneo, pouco determinado em arriscar. Eu talvez não vá tão longe, mas também enxergo um certo comodismo em elementos que compõem esta geração de bandas.

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Um dos principais méritos de Duas Cidades, e consequentemente da BaianaSystem, é trazer um novo sopro de frescor à cena brasileira,

Russo Passapusso, Roberto Barreto, SekoBass e Filipe Cartaxo também se esforçam em estabelecer uma ressiginificação, não só da música baiana, estereotipada pela massificação ocorrida a partir da década de 1990. Usa-se arte, também, para repensar Salvador enquanto ocupação do espaço urbano, o que consequentemente também permite uma reflexão mais séria sobre o Brasil/2017. Em um país de tantos contrastes, Duas Cidades evoca raízes musicais e confronta as imagens que temos da rua – e da importância que o processo de ocupá-la tem na ressignificação do espaço urbano e o conflito causado pelos processos de gentrificação, constantes em Salvador e qualquer outra metrópole brasileira.

A BaianaSystem é provocativa. Não há outra forma de encarar um grupo que mescla tantos gêneros e ritmos diferentes a uma crítica social pontual e certeira, que diz respeito a mim e a você, mas o faz abraçando essa popularidade, o calor, o suor, o cinza da cidade, seus cheiros e idiossincrasias. Por último, a BaianaSystem é gigante porque usa o “sistema” contra ele mesmo, trazendo de volta o povo enquanto protagonista dessa contemporaneidade ao mesmo tempo acolhedora e segregadora, singular e plural. A BaianaSystem é todas as multifaces deste estranho Brasil contemporâneo.

NO RADAR | BaianaSystem

Onde: Salvador, Bahia
Quando: 2007
Contatos: SiteFacebook | TwitterSoundCloud | YouTube | Instagram

Ouça ‘Duas Cidades’ na íntegra no Spotify

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2 COMENTÁRIOS

  1. Alejandro, mto obrigada por descrever exatamente o q penso/sinto. Fico abismada em pensar q o último movimento ‘vanguarda’ na música foi a tropicália; sendo a semana de 22 o último no tocante às diversas linguagens artísticas – há quase 1 século. Por fim, o manguebeat, em uma escala ainda bem menor q a primeira. Penso q essa supressão seja, talvez, institucionalizada. Tb sente?

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