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O inclassificável Jorge Ben e a potência musical de um dos símbolos do país tropical

Nascido no Rio de Janeiro em 1945, Jorge Ben é um dos maiores artistas da nossa música e sua rica discografia mistura bossa nova, samba, jazz e rock.

Cria da Zona Norte do Rio de Janeiro, Jorge Duílio Lima de Meneses se transformou em um dos principais artistas da música brasileira. Longe de se identificar com um só estilo, Jorge Ben passava tão longe da “bossa nova quadrada” que fazia sucesso no Brasil do início dos anos 60 quanto do rock entusiasmado importado dos Estados Unidos pelos expoentes da Jovem Guarda, Roberto e Erasmo Carlos. Da mesma maneira, não podemos considerar o cantor e compositor flamenguista como um tropicalista. Apesar de por vezes se aproximar do experimentalismo colorido e globalizado de Gil e Caetano, Jorge Ben foi mais além do que isso.

O início de sua empreitada no mundo da música, após o insucesso tentando ganhar a vida com sua outra paixão, o futebol, aconteceu em 1963. Na época, Jorge Ben fazia apresentações no Beco das Garrafas, icônica casa de shows da boemia carioca e templo sagrado da bossa nova. Lá, era acompanhado por um conjunto de jazz e fazia um sambinha com bastante swing num estilo particular de cantar, ao carregar seu sotaque carioca em algumas palavras e graciosamente trocar o “c” pelo “x” quando pronunciava “você”.

Jorge Ben passava tão longe da “bossa nova quadrada” que fazia sucesso no Brasil do início dos anos 60 quanto do rock entusiasmado importado dos Estados Unidos pelos expoentes da Jovem Guarda.

O resultado disso está em seu primeiro LP, Samba Esquema Novo (1963). Nele, estão composições que entraram para a história de nossa música e fizeram o então rapaz de 18 anos um dos nomes mais populares da cena musical brasileira. Em um literal “novo esquema” para o samba e a música nacional, sucessos como “Chove Chuva”, “Mas que Nada” e “Por Causa de Você Menina” caíram no gosto popular e ampliaram o horizonte musical tupiniquim. As letras simples, e por vezes taxadas de infantis, são cantadas em meio a arranjos melódicos inovadores, com a batida do violão conduzindo as canções numa nova estética de samba swingado e que evidencia a raiz negra de Jorge Ben.

A fórmula se repetiu nos lançamentos posteriores da década de 1960, sem o mesmo sucesso do disco de debute, é verdade. Após um período em baixa em que a divulgação de seu material nos Estados Unidos não refletia na retomada do sucesso no mercado fonográfico brasileiro, Jorge Ben passou a figurar nos cada vez mais populares programas de TV musicais da época.

No período, em meio ao infundado embate entre a “música de preocupação social” e o “iê-iê-iê” da Jovem Guarda, Jorge Ben ousou ser atração dos dois programas antagônicos, ambos da TV Record: O Fino da Bossa, comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues, e Jovem Guarda, de Roberto, Erasmo e Wanderléa. Sem “tomar partido” nesta peleja, Jorge Ben sabia que sua música transcendia àquilo. Prova disso é que, em 1968, o cantor aceitou o convite de Guilherme Araújo, empresário e homem forte da Tropicália, e fez seguidas aparições no programa Divino Maravilhoso da TV Tupi, ao lado de Gil, Caetano e Gal. Mesmo sem ter se convertido num tropicalista propriamente dito, a convivência com os músicos do movimento e a absorção de suas influências deram início ao período mais próspero da carreira de Jorge Ben.

Entre 1969 e 1976, o cantor lançaria verdadeiras obras-primas da nossa música, como Jorge Ben (1969), Força Bruta (1970), Ben (1972), A Tábua de Esmeralda (1974) e África Brasil (1976). Bebendo na fonte do rock, do jazz, da bossa nova, do samba e do soul, Jorge Ben misturava tudo isso com doses certeiras de carioquismo swingado e psicodelia. Partindo para uma temática também experimental em suas letras, canções como “Errare Humanum Est”, “Hermes Trismegisto” e “Os Alquimistas Estão Chegando” tratam de esoterismo e cultura oriental e africana, fontes de inspiração recorrentes nas composições de Jorge. O bom humor e a irreverência, evidentemente, não são deixados de lado nesta fase bem sucedida de Jorge Ben. Músicas como “Paz e Arroz”, “Eu Vou Torcer pela Paz”, e o megahit “País Tropical” remontam ao cotidiano simples e próximo do carioca médio dos anos 70.

Passando longe de uma discografia politizada e engajada, Jorge Ben prefere refletir sobre temas como a natureza, o futebol e paixões corriqueiras. De maneira descomplicada, o telefone que toca, a musa inspiradora, a mulher brasileira, o “ponta de lança africano”, ou as lendas da cultura indiana fazem parte da lírica de Jorge Ben, que na década se afirma como um dos maiores de nossa história. Ainda neste período, em 1975, o encontro histórico com o parceiro Gilberto Gil, rende o icônico Gil & Jorge: Ogum, Xangô. Recheado de improvisações, o álbum duplo traz uma temática bastante experimental com releituras de canções já gravadas pelos dois e composições inéditas.

Ao cravar seu espaço na MPB e obter reconhecimento internacional, Jorge Ben encontra sua pedra filosofal da música e o faz livre de preconceitos e fronteiras. Sem medo de arriscar e sendo influência para dezenas de artistas brasileiros posteriores, a figura do cantor da zona norte carioca se mantém viva, atual e admirada por fãs de todas as idades.

Um grande salve ao Jorge e sua simpatia, que de Bop a Lena à bossa nova de João Gilberto, passando por Ray Charles e Sérgio Mendes virou sinônimo de boa música e brasilidade.

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Daniel Tozzi

Daniel Tozzi Mendes, natural de Maringá-PR, atualmente mora em Curitiba. Estudante de jornalismo da Universidade Federal do Paraná, escreve às sextas-ferias na "Vitrola". Amante de viagens, música velha e futebol, tenta se encontrar no jornalismo em meio a textos nostálgicos.

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