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O marco pop, progressivo e brasileiro do Secos e Molhados

Primeiro trabalho da banda foi lançado há 45 anos e está entre os discos mais importantes da música nacional.

Se o Secos e Molhados teve duração efêmera, seu legado para a música nacional é eterno. O disco de estreia da banda, Secos e Molhados (1973), é um dos tesouros da música nacional que exala a brasilidade de uma realidade pós-tropicalista e que ainda vivia à sombra da ditadura militar. Mesclando influências folclóricas, rock psicodélico, folk e poesia modernista, as canções do curto trabalho de apenas 30 minutos reverberam até hoje como uma das principais obras, não só da música nacional, mas de toda América Latina.

Aliás, o apreço antropofágico pela raiz ameríndia, que simultaneamente incorpora elementos estrangeiros, é mais uma vez fórmula para o sucesso de um álbum brasileiro e, neste disco, dá as caras logo na faixa de abertura: “Sangue Latino”. Na canção, embalada por um violão folk, a bela voz de Ney Matogrosso desfila versos que exaltam a tortuosa e combativa jornada errante dos destemidos habitantes de latinoamérica e nossa sina de “romper tratados” e “quebrar as lanças”.

Apesar de todo amor por terra brasilis e a América Latina, a história do Secos e Molhados ironicamente (ou até por conta disso) começa do outro lado do Atlântico, em solo colonizador. João Ricardo, membro catalisador da banda e principal compositor do conjunto, nasceu em Portugal e é filho do poeta português João Apolinário, que se exilou no Brasil em 1964 com a família.

Mesclando influências folclóricas, rock psicodélico, folk e poesia modernista, as canções do curto trabalho de apenas 30 minutos reverberam até hoje como uma das principais obras, não só da música nacional, mas de toda América Latina.

Após acompanhar os tempos do auge da Jovem Guarda, a auto-implosão tropicalista (e já devidamente abastecido com as influências de Elvis Presley e Beatles), a concretização da carreira de João como músico só foi acontecer depois que seu caminho cruzou com o de Ney Matogrosso – então um modesto aspirante a ator meio hippie e esquisitão, mas com um tom de voz encantador -, em 1971.

A gravação do álbum que marcou a estreia oficial da banda em sua formação clássica (Ney, João, Gérson Conrad e Gustavo Frias) traz uma carga de inovação ao cenário setentista brasileiro num dos melhores momentos da música tupiniquim. Com forte apelo estético e arranjos experimentais, as canções curtas e diretas do trabalho se dispõem de maneira a construir uma nova página do universo pop nacional.

Guitarra elétrica, violão de doze cordas, flauta transversal, gaita, acordeão e sintetizadores se mesclam numa mistura meio pop, meio psicodélica, regada a poesia em língua portuguesa nas letras. Uma MPB progressiva? Ainda fazem parte dessa mistura, evidentemente, as apresentações teatrais da banda e o visual glam de seus membros, escancarados na icônica capa do LP no belíssimo trabalho de Antônio Carlos Rodrigues, fotógrafo do jornal A Última Hora.

Após a faixa de abertura, uma empolgante guitarra aparece em “O Vira”, que se encerra como um autêntico forró depois de prestar homenagem à dança típica de nossos patrícios em sua letra. “O Patrão Nosso de Cada Dia” vem na sequência e arrebata pelo seu título genial. A canção tem um tom bastante introspectivo e melancólico no vocal de Ney, com direito a um solo de flauta.

Enquanto em “Amor” a linha de baixo conduz a canção num ritmo swingado, “Primavera dos Dentes” é o momento mais experimental do trabalho. A faixa pode muito bem ter sido inspirada em “Breathe”, do Pink Floyd, lançada cinco meses antes no monumental Dark Side of the Moon.

“Assim Assado” é bem rock’n’roll, com um estilo blues das guitarras intercalado com flautas indígenas, dando um tom bastante particular à faixa que abre o lado B do álbum. Mantendo o pé no rock, “Mulher Barriguda” é a música seguinte, que apresenta teclados dançantes e gaitas, legando à faixa um ar de rockabilly cinquentista.

“El Rey” tem um tom épico e fantástico que parece ter saído de um conto português, com sua letra que faz referência ao Rei D. Manuel. Aliás, é a partir deste ponto que as canções do disco passam a ser poemas de autores consagrados musicados pela banda. A sequência de “Rosa de Hiroshima”, “Prece Cósmica”, “Rondó do Capitão” e “As Andorinhas” apresenta, respectivamente, trabalhos literários de Vinicius de Moraes, Cassiano Ricardo, Manuel Bandeira e Cassiano Ricardo novamente, que foram adaptados e incorporados às melodias de Conrad, Gustavo Frias e João Ricardo.

Para encerrar o disco, “Fala” é um manifesto simplista que ao mesmo tempo diz tudo e nada. É uma belíssima balada de piano quase que socrática em sua letra. “Eu não sei dizer/ Nada por dizer/ Então eu escuto/ Se você disser/ Tudo que disser/ Então eu escuto”. Para dar um aspecto emblemático, o meio da canção é contemplado com um sintetizador que mantém o experimentalismo mais do que vivo no álbum.

Após o lançamento do disco, o Secos e Molhados se tornou um grande fenômeno de crítica e público da música brasileira. Cópias do álbum foram vendidas aos montes, a banda recém saída do anonimato fez uma aparição na abertura do Fantástico, da Rede Globo, e ultrapassou os limites do país sendo reconhecidos no resto da América e, claro, Portugal.

Mesmo com o esfacelamento desta formação do conjunto após o lançamento do segundo disco, Secos e Molhados II (1974), o legado da banda, principalmente por conta de seu primeiro trabalho, continua a fazer eco na música. Ainda bem.

Ouça ‘Secos e Molhados’ na íntegra no Spotify

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Daniel Tozzi

Daniel Tozzi Mendes, natural de Maringá-PR, atualmente mora em Curitiba. Estudante de jornalismo da Universidade Federal do Paraná, escreve às sextas-ferias na "Vitrola". Amante de viagens, música velha e futebol, tenta se encontrar no jornalismo em meio a textos nostálgicos.

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