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‘O passo do Lui’ consolidou Os Paralamas do Sucesso como grande banda brasileira

'O passo do Lui', segundo registro d'Os Paralamas do Sucesso, teve 8 das 10 músicas tocadas na rádio.

Em 1984, o Brasil estava em polvorosa pela possibilidade da abertura democrática. A Emenda Dante de Oliveira, que previa as eleições diretas para presidente da República, foi rejeitada pela Câmara dos Deputados e novamente deixou toda uma nação frustrada.

O retrocesso político foi antagônico à criatividade inerente à consolidação de grandes bandas que marcariam a geração oitentista neste mesmo ano. Os Titãs e a Legião Urbana mostravam as suas caras com os homônimos álbuns de estreia, o Barão Vermelho preparava o terceiro disco, Maior abandonado, engendrando-se como o grande grupo de rock’n’roll carioca e Os Paralamas do Sucesso trabalhavam no segundo registro.

O passo do Lui foi lançado em agosto de 1984, um ano após o elogiado disco de estreia, Cinema Mudo. O registro confirmou a suspeita de todos que estavam atentos ao criativo e talentoso novo trio fluminense: os Paralamas eram diferenciados.

Tecnicamente, Bi Ribeiro (baixo), João Barone (bateria) e Herbert Vianna (vocal e guitarra) não deixavam dúvidas de suas aprimoradas qualidades como instrumentistas. Já o desempenho vocal nada excepcional de Herbert nunca foi tabu para o mesmo, que desde o início da banda assumia suas limitações.

Os Paralamas dos primeiros discos eram bastante autênticos, e, em O passo do Lui, a sonoridade peculiar do trio ganhou contornos mais definidos, cujo acabamento, de fato, ocorreu no disco seguinte, o excelente Selvagem, de 1986.

Os Paralamas sempre trabalharam com um caldeirão musical interessante, que ia do pop ao reggae, do new wave ao experimento com ritmos latinos. O passo do Lui, em relação ao disco anterior, era mais rock e apresentou bateria e baixo mais presentes e potentes, dando visibilidade precoce ainda a uma das cozinhas mais talentosas da música pop brasileira. Entretanto, a grande marca do álbum foi a presença marcante do ska.

O passo do Lui, em relação ao disco anterior, era mais rock e apresentou bateria e baixo mais presentes e potentes, dando visibilidade precoce ainda a uma das cozinhas mais talentosas da música pop brasileira. Entretanto, a grande marca do álbum foi a presença marcante do ska.

A capa de O Passo do Lui foi uma clara homenagem ao ritmo. Quem aparece na imagem é Lui, codinome de Luis Antônio Alves, referencial dançarino de ska. Seu visual na capa, inclusive, codifica perfeitamente o universo dos apreciadores do estilo.

Outro aspecto relevante é a notória influência do Police na sonoridade dos Paralamas. Embora tal relação seja verdadeira, é injusto o título de “Police brasileiro” tanto atribuído ao grupo. Os Paralamas sempre tiveram personalidade. Neste segundo disco, o grupo estava bem próximo também dos britânicos do Madness, lendária banda de ska nascida em 1976. Tanto no visual, quanto na dança e na sonoridade, o videoclipe de “Ska” demonstra bem tal fato.

Ademais, das 10 músicas do álbum, apenas as duas últimas faixas do disco, “Menino e menina” e “O passo do Lui”, não tocaram nas rádios. O registro é recheado de clássicos que marcaram a história do rock nacional, como “Óculos”, “Meu erro”, “Romance ideal”, “Me liga” e “Assaltaram a gramática”.

No ano seguinte ao lançamento de O passo do Lui, os Paralamas fizeram história na primeira edição do Rock in Rio, destilando os já clássicos hits presentes no disco que tocavam constantemente nas rádios brasileiras. Nos anos seguintes, o trio gravou álbuns que tornaram-se referenciais para a época e os consolidou como um dos grupos mais relevantes do pop rock nacional. Certamente, O passo do Lui foi fulcral para tornar esta jornada possível.

Ouça ‘O passo do Lui’ na íntegra no Spotify

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Daniel Pala Abeche

Daniel Pala Abeche, paulista, está em Curitiba desde 2015. É professor universitário, pesquisador acadêmico e músico. Formado em Comunicação Social pela Universidade Mackenzie, possui Mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUCSP e atualmente é doutorando em filosofia pela PUCPR, com pesquisa envolvendo estudos sobre estética, linguagem e cultura. Também toca baixo acústico (rabecão) e canta na Johnny Bigode.

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