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‘Rubber Soul’, a primeira obra-prima dos Beatles

'Rubber Soul', lançado em 1965, tem John Lennon inspiradíssimo na letras, Paul McCartney expandindo seus recursos melódicos e a afirmação de George Harrison como compositor.

Após três anos de absoluto sucesso no mundo inteiro, os Beatles estavam cansados da fama e rotina de boy band. Não que a qualidade de seus primeiros trabalhos fossem duvidosos, longe disso. O rock iê-iê-iê do quarteto entre 1963 e 1965 atingiu seu ápice. A fórmula, que já explodira com Elvis, foi copiada à exaustão por inúmeras bandas do início dos anos 60. Nenhuma delas, no entanto, atingiu o padrão e a magnitude de fenômeno pop dos Beatles.

Ainda que o experimentalismo e a cada vez maior inovação do quarteto estivesse por se expandir de maneira absurda nos álbuns seguintes, só pra citar alguns: Revolver (1966) Sgt. Pepper’s (1967) e Magical Mystery Tour (1968), o ponta-pé inicial da fase “Beatles maduros” foi dado com Rubber Soul, e a criação dos trabalhos subsequentes seria impossível sem o lançamento deste último.

Recolhidos no estúdio entre junho e outubro de 1965 e inspirados por nomes como Bob Dylan e Beach Boys, o Fab Four, ainda que mantendo a extenuante rotina de turnês, compôs o primeiro de seus mais primorosos trabalhos. Rubber Soul veio na sequência de Help (1965) e despontou como um trabalho histórico desde sua primeira faixa.

Pela primeira vez em um álbum, os Beatles exploraram sem restrições sua energia criativa, tanto nas letras quanto nas melodia. Se em “In My Life” John Lennon tem uma de suas canções fundamentais – por ter sido a primeira composta pelo beatle de maneira não comercial e que refletisse um sentimento verdadeiro seu -, “Norwegian Wood” inova ao apresentar os acordes da cítara; “Michelle” tornou-se uma das clássicas de Paul e “Think For Yourself” comprova a qualidade de George como compositor.

Rubber Soul veio na sequência de Help e despontou como um trabalho histórico desde sua primeira faixa.

A abertura com “Drive My Car” ecoa com uma empolgante guitarra logo no início. A canção, ainda que soe como iê-iê-iê à moda antiga, já se destaca pela mistura de rock, blues e pop. As cítaras em “Norwegian Wood”, ideia de Harrison, que começava a se encantar pela cultura indiana, contribuem para o tom sério e maduro da canção. Na letra, John relata em tom poético o que teria sido uma de suas relações extra-conjugais.

Se em “You Won’t See Me”, o trio vocal dos Beatles funciona perfeitamente em coro nesta simples balada de Paul McCartney, a faixa seguinte, “Nowhere Man”, é mais um primoroso trabalho lírico de John Lennon. De certa forma já flertando com tons psicodélicos na melodia, John faz uma reflexão ao “homem de lugar de nenhum”, que segundo o compositor, seria uma alusão a ele mesmo. “He’s a real nowhere man/ Sitting in his nowhere land, making all his nowhere plans/ For Nobody/ Doesn’t have a point of view/ Knows not where he’s going to/ Isn’t he a bit like you and me?”, soam como uma impactante crítica ao senso comum e à alienação.

Mantendo a cota de uma canção cantada por Ringo Starr nos discos, “What Goes On” se apresenta como um simples country, quase destoando da seriedade de boa parte das faixas do disco. Na sequência, a clássica “Girl” é mais um fruto do inspiradíssimo John Lennon. Uma declaração de amor com boas doses de reflexão à melhor maneira Lennon de ser. “Was she told when she was young/ That pain would lead to pleasure?/ Did she understand it when they said/ That a man must break his back/ To earn his day of leisure?/ Will she still believe it when he’s dead?”.

Comprovando (tanto para crítica quanto para os companheiros de banda) seu potencial como compositor, George Harrison ainda marcou presença no álbum com “If I Needed Someone”. Inspirado pelo seu romance com Pattie Boyd, os versos da canção se unem de maneira harmoniosa ao embalo do folk rock. “If I had some more time to spend/ That I guess I’d be with you my friend/ If I needed someone/ Had you come some other day”, canta o apaixonado George na penúltima faixa do disco.

Reverenciado como um dos principais trabalhos dos anos 60 e dos Beatles, Rubber Soul é fundamental para a compreensão da evolução musical do maior fenômeno pop do século XX. Não só isso. O disco é um marco do rock e as inovações que com ele vieram fundamentariam bases para uma verdadeira revolução no gênero. Certeiro e empolgante como todos os trabalhos dos Beatles.

Ouça ‘Rubber Soul’ na íntegra no Spotify

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Daniel Tozzi

Daniel Tozzi Mendes, natural de Maringá-PR, atualmente mora em Curitiba. Estudante de jornalismo da Universidade Federal do Paraná, escreve às sextas-ferias na "Vitrola". Amante de viagens, música velha e futebol, tenta se encontrar no jornalismo em meio a textos nostálgicos.

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