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Sérgio Sampaio: a poesia de um “maldito”

Negligenciado nos anos 70, Sérgio Sampaio, com sua mistura de melancolia, poesia e humor ácido, pode ser considerado um dos grandes nomes da MPB.

Conterrâneo de Roberto Carlos, afilhado musical de Raul Seixas e ídolo de Zeca Baleiro, Sérgio Sampaio morreu no anonimato, no Rio de Janeiro, em 1994. Como outros “malditos” da MPB, o compositor sentiu o gosto agridoce da efervescência cultural no Brasil nos anos 70.

O período rendeu inúmeras pérolas da música brasileira, no entanto, alguns artistas incompreendidos na época — porém igualmente geniais aos grandes nomes como Chico e Caetano — sobreviveram à sombra das palmeiras dos gigantes da tropicália. Hoje, são redescobertos e conseguem dialogar com as gerações mais novas. Sampaio é desses.

Dono de um senso de humor afiado, suas letras iam além do mero deboche. O compositor sempre teve um talento para transformar sua própria vida em poesias cáusticas. Entre a crônica e o diário, ele imprimia sua personalidade, suas origens e a maneira com que se relacionava com mundo e as pessoas, nas suas letras.

Dono de um senso de humor afiado, suas letras iam além do mero deboche. O compositor sempre teve um talento para transformar sua própria vida em poesias cáusticas.

Sampaio passeia entre o tom irônico e relativamente bem-humorado de “Ninguém Vive por Mim” — que trata em parte da sua relação arredia com a indústria musical —, a poesia de “Cada Lugar Na Sua Coisa” e “Viajei de Trem”, até o tom belo e melancólico de “Pobre meu Pai”:

“Pobre meu pai / A marca no meu rosto / É do seu beijo fatal / O que eu levo no bolso / Você não sabe mais / E eu posso dormir tranqüilo / Amanhã, quem sabe?”

Com a idade, o tom mais humorístico foi virando pano de fundo de suas composições, que se tornaram mais céticas e melancólicas. Apesar da roupagem ainda ser praticamente a mesma (uma mistura entre baladas, blues, sambas e o rock), Sampaio aprimorou seus arranjos e letras, atingindo uma sofisticação que só vem com a maturidade de quem apanhou muito.

O disco póstumo Cruel (2006), organizado por Zeca Baleiro, prova isso. Enquanto a divertida “Polícia, Bandido, Cachorro, Dentista” traz seus comentários incisivos de maneira bem-humorada, faixas como “Roda Morta (reflexões de um executivo)” bebem na poesia de Augusto dos Anjos, adotando um niilismo desconcertante:

“Eu sei que quando acordo eu visto a cara falsa e infame / como a tara do mais vil dentre os mortais / E morro quando adentro o gabinete / Onde o sócio e o alcaguete não me deixam nunca em paz / O triste em tudo isso é que eu sei disso / Eu vivo disso e além disso / Eu quero sempre mais e mais.”

Trajetória

Conhecido pelo seu único grande hit, a canção “Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua”, ele saiu de Cachoeiro de Itapemirim (ES) em direção ao Rio de Janeiro, em 1967, para tentar a vida como músico. Durante dois anos, atuou como locutor em rádios AM, até ser descoberto por Raul Seixas (então produtor da gravadora CBS), em 1970.

Junto com Miriam Batucada e Edy Star, Raul e Sampaio lançaram o LP Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez, uma coleção de canções ácidas, bem-humoradas e que apresentavam a variedade de referências dos artistas envolvidos. Na época, o disco foi mal recebido, hoje virou um clássico cult.

O hit de Sampaio viria só em 1972, quando “Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua” causa um estrondo no 7º Festival Internacional da Canção. O compacto dessa música vendeu mais de 500 mil cópias, mas o LP de mesmo nome, lançado pela Phillips/Phonogram em 1973, não teria o mesmo impacto.

Tem Que Acontecer (1976) foi o segundo álbum que lançou e o último a sair por uma gravadora. Ali, ele já demonstrava um amadurecimento nas suas composições, tanto que alguns consideram esse o seu melhor trabalho.

A partir desse momento, sua carreira fica estagnada. Em 1982, ele chega a lançar o LP Sinceramente de maneira independente, um registro mais íntimo e confessional que também não vinga. Durante os anos 80, Sampaio se restringe a fazer poucos shows em bares, com pouco retorno financeiro.

Pouco antes de falecer, em decorrência de uma pancreatite, ele estava se preparando para lançar o Cruel, uma seleção do repertório de quase 50 músicas que compôs nesse meio tempo e tocava nas suas escassas apresentações.

Sampaio vive

Há hoje pequenos movimentos de redescoberta de Sérgio Sampaio. Cantores novos como Tatá Aeroplano e Juliano Gauche deixam clara a influência do compositor em seus trabalhos. Veteranos como Zeca Baleiro e Lenine rendem homenagens e colocam o capixaba ao lado de outros grandes nomes da MPB.

O projeto Viva Sampaio, organizado pelo seu filho João Sampaio, se propõe a preservar a memória do pai, reunindo um grande acervo de vídeos, fotos e entrevistas. Há também o Bloco na Rua, bloco de carnaval criado por “sampaiófilos”, em 2014, e que sempre homenageia o cantor.

Sampaio fascina pela mistura da substância de sua obra com a trajetória conturbada. Ele é a narrativa-ideal do maldito. Nunca se adequou ao assédio da mídia, nem ao funcionamento da indústria musical. Arredio, ele detestava auto-promoção: só queria fazer música, mas as pessoas nem sempre entendiam o que ele queria dizer.

Ouça ‘Tem que Acontecer’ na íntegra no Spotify

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Bruno Vieira

Bruno Vieira é jornalista (quase) formado pela Universidade Federal do Paraná e músico independente. Nas horas vagas escreve crônicas, divagações musicais e monta playlists. Durante um ano foi produtor e apresentador dos programas Caldo de Cultura e Dê Ouvidos na UFPR TV.

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